Salone del Mobile apresenta móveis menos funcionais e mais envolventes

Marcelo Gomes Lima - Especial para o Estadão

Lar como refúgio foi mote do principal evento internacional dos setores de design e decoração

Foram muitos meses de idas e vindas, de espera e de incertezas. Mas, após uma ausência de quase dois anos, quando o evento foi sucessivamente cancelado por causa da pandemia da covid-19, o Salone del Mobile, o principal evento internacional dos setores de design e decoração, finalmente reabriu suas portas em Milão, na semana passada. Desta vez, em uma edição extraordinária, encerrada, no sábado, 11, e, sugestivamente, batizada de supersalone.

Um “super”, diga-se, mais ligado à ideia de superação, de somar esforços e sinalizar um recomeço, do que, propriamente, às dimensões do evento. Concebida em modelo compacto pelo arquiteto italiano Stefano Boeri, a mostra deste ano ocupou apenas quatro dos pavilhões do complexo expositivo de Rho-Pero. Em seu formato convencional, a feira, subdivida por temas – móveis, iluminação e cozinhas –, costuma ocupar quase todas as 24 unidades disponíveis.

Visitantes no bosque com árvores nativas na entrada do Salão do Móvel de Milão.

Visitantes no bosque com árvores nativas na entrada do Salão do Móvel de Milão. Foto: Salone del Mobile

Por outro lado, um supersalone que, de fato, fez jus a seu nome se considerarmos o número e a relevância das marcas presentes – 425 empresas, italianas e globais, 170 jovens designers em mostras especiais, além de 39 fabricantes independentes, totalizando 2 mil participações. Isso, em meio a uma conjuntura econômica ainda delicada e, sobretudo, se levarmos em conta a atenção à observância fiel a três parâmetros relacionados pela organização: reinício, sustentabilidade e segurança.

Para, de fato, sinalizar um recomeço, a inspiração veio das feiras campionárias, comuns na Itália, e mesmo no Brasil, até a década de 1970, que eram abertas ao público e não apenas aos homens de negócio, durante todos os dias de funcionamento. Os ingressos, com preços mais democráticos, este ano podiam ser comprados online e, pela primeira vez, era possível aos visitantes adquirir diretamente os produtos em exposição.

Em relação à questão da sustentabilidade, ao menos em termos de montagem, o supersalone não deixou nada a desejar. Logo à entrada, um bosque montado com espécies nativas dava o clima e sinalizava o respeito ao meio ambiente. Nos pavilhões, não existiam estandes administrados e customizados pelas empresas. Mas apenas corredores e espaços delimitados de poucos metros, onde piso e paredes, tal qual em uma galeria, podiam ser ocupados com produtos.

Conjunto de sofás da designer Annabel Karim Kassar: encontros cada vez mais vividos em casa.

Conjunto de sofás da designer Annabel Karim Kassar: encontros cada vez mais vividos em casa. Foto: Alessandro Paderni

Grande ênfase foi dispensada ao desenho das áreas comuns, onde visitantes e representantes das marcas pudessem descansar durante a visita, comer, assistir a palestras ou participar de reuniões. Nesse sentido, tal qual nos estandes, todos os painéis empregados na construção dos equipamentos – de bancos a uma arena para receber dezenas de pessoas – eram feitos com painéis de madeira 100% reciclada e utilizados sem pintura, para diminuir ainda mais o impacto ambiental.Por fim, a atenção aos protocolos de segurança para acesso à feira foi também cuidadosamente observada. Em todas as entradas era obrigatória a apresentação do Green Card europeu, que imediatamente liberava a entrada. Documentos semelhantes de alguns países também eram aceitos. O certificado brasileiro poderia ser apresentado, desde que assinalando duas doses de vacina, mas não podia ser escaneado. Caso, porém, o documento não pudesse ser averiguado, a realização de um teste de antígeno no local, antes da entrada, era obrigatória.

“Reativamos nosso evento e aproveitamos essa oportunidade para sinalizar um novo caminho. Não posso assegurar que todos esses procedimentos serão tomados como obrigatórios daqui para a frente. De fato, na conjuntura em que vivemos tudo ainda é muito incerto. Mas que neste supersalone eles se revelaram eficientes e viáveis, disso não tenho nenhuma dúvida”, sintetizou, satisfeita, a nova presidente do Salone del Mobile Italiano, a empresária Maria Porro.

Sedutores

More home, less house. Ou, em tradução livre, mais lar e menos casa. Essa parece ser, em linhas gerais, a expressão que melhor define a produção apresentada nos corredores do supersalone, semana passada em Milão, que apresentou a produção – com ênfase na italiana –, desenvolvida por produtores de todo o mundo nos últimos 18 meses. Ou seja, em plena pandemia, quando então a casa se transformou no único refúgio possível para a maioria da população do planeta, passando assim, a ser observada com maior interesse e profundidade.

Primeira constatação: móveis e objetos se pretendem hoje mais acessíveis, abordáveis e, porque não dizer, sedutores. Menos funcionais e mais envolventes. Não por acaso, sofás e poltronas surgem maximizados e revestidos com tecidos em alto-relevo e com texturas ressaltadas, despertando o desejo do toque. A atmosfera geral é informal e descompromissada. Na maior parte, as cores sugerem calma e tranquilidade Mas, não raro, também abrem espaço para a luminosidade que emana de todos tons de amarelo.

Sem rodeios ou meias-palavras, designers passam a emitir mensagens claras e diretas. Falam de afeto, como Fábio Novembre em seu inspirado armário LOVE, para a Driade, definido pelo designer como manifesto e declaração tridimensional de amor. Ou ainda homenageiam o que lhes é mais caro, como a cidade de Milão, tão duramente afetada pela pandemia, que teve seu Duomo esculpido na cadeira de Cosimo de Vita, para a marca fiorentina Savio Firmino.

Presente no pavilhão três, o Brasil também marcou presença no supersalone, com uma seleção apurada de móveis, luminárias e tapetes de 10 marcas nacionais, entre elas ByKamy, Cristais São Marcos, estudiobola by Rizzon, Florense, Lovato, Modalle, Sier e Tidell. Uma produção, nas palavras de influencer local, com a cara do País. Sobretudo pelo seu potencial expressivo. 

Por toda parte, plantas e flores, como fonte de inspiração, traziam consigo a ideia de renascimento. Sem falar na possibilidade de customização, cada vez mais intensa, principalmente nos segmentos de camas, armários e estantes, facultando a cada um ter o móvel que bem desejar. O mesmo ocorrendo com as luminárias. Só que, no caso, em termos da intensidade e qualidade da luz. Sem se prender a regras, em Milão 2021 tudo converge para o prazer de se estar em casa. Dentro, ou fora, dela.

Contaminação

Todos os anos a cena se repete. Concluída a visita aos pavilhões de Rho-Pero, subúrbio de Milão, e sede do Salão do Móvel, todas as atenções se voltam para o que acontece no centro e em torno de Milão, onde dezenas de marcas, produtores independentes, arquitetos e designers, que participam, ou não, da feira oficial, expõem suas criações em showrooms, galerias, espaços alternativos e, de forma cada vez frequente, em imóveis desocupados.

Como foi o caso da mostra I will be your mirror, assinada pela arquiteta Elisa Ossino, @elisaossinoestúdio, que apresentou em um apartamento no centro da cidade a sua visão da casa de hoje, dentro de um formato semelhante à nossa conhecida Casacor. Além de uma consistente mescla de materiais, cores e texturas, o grande destaque ficou por conta das superfícies espelhadas. Presentes não só nos objetos, mas em cortinas e até em almofadas, justificando o nome da mostra.

Ao contrário do supersalone porém, menor e bem menos congestionado que nas edições tradicionais do Salone, o que se viu pelas ruas este ano foi a agitação tradicional. Eventos a perder de vista, sobretudo no bairro de Brera, na região da Via Durini e no prédio da Trienalle de Milano, instituição voltada para o design que, este ano, se transformou em uma espécie de hub do festival. Locais onde, guardadas as proporções, a qualidade das manifestações se manteve intocada.

“Enquanto na feira o lado comercial está bastante presente, no circuito fuorisalone a criatividade rola mais solta. Assim como a troca com outras disciplinas, como a arte e a moda”, afirmou a graduanda de design industrial italiana Patrizia Rossi, enquanto tentava entrar em uma das exposições mais concorridas da temporada, a mostra Hermès, na qual a grife francesa montou cinco emblemáticas casas, no ginásio La Pelotta. Tudo para melhor apresentar seus últimos lançamentos em objetos de alto luxo.

Transitando entre a moda e o design, a Maison Dior foi outra casa de alta-costura que levou seu savoir-faire para Milão, por meio de uma exposição montada no Palazzo Citterio, em torno da icônica cadeira Médaillon, criada pelo carpinteiro Louis Delanois em 1769, para o rei Luís XVI. O móvel fetiche do estilista, usado para acomodar os convidados de seus concorridos desfiles e que, em sua versão 2021, ganhou 17 novas versões, assinadas por designers e artistas contemporâneos.

Entre eles, a da arquiteta e estilista francesa, de origem iraniano-egípcia, India Mahdavi, que em sua Médaillon, que resolveu misturar na sua criação padrões florais e geométricos a cores fortes, como o preto e branco. São móveis que combinam a tradição Dior com os padrões que desenvolvo para minhas coleções”, afirmou ela, que, questionada sobre como foi trafegar da alta-costura para o design de interiores, foi certeira: “De um lado vestimos corpos, de outro, espaços”.