Saiba quais cuidados extras você deve ter com as plantas no inverno

Marcelo Lima - Especial para o Estado

Regas regulares, podas de limpeza e reposição da matéria orgânica são importantes para garantir o crescimento das espécies

O diretor criativo André Rodrigues em meio às plantas que cultiva em sua casa no Sumaré

O diretor criativo André Rodrigues em meio às plantas que cultiva em sua casa no Sumaré Foto: Pri Novo Decornautas

O inverno é tempo de redução de metabolismo para a maioria das plantas, incluindo as de cultivo doméstico. À semelhança do que acontece com os animais, elas praticamente hibernam durante a estação, reduzindo a velocidade de seu crescimento e acumulando energia para florescer durante a primavera. Mas, enquanto algumas, como árvores e arbustos, não precisam de quase nenhuma ajuda para atravessar os dias frios, outras vão exigir cuidados extras. O que, além de regas regulares, deve incluir podas de limpeza e reposição da matéria orgânica para ampliar a fertilidade do solo. 

“Sem dúvida que as plantas tropicais, algumas bastante utilizadas em interiores, como orquídeas e bromélias, assim como as de folhas mais largas, são as que mais sofrem com o frio. Precisa ter paciência. Retirar as folhas mortas, seguir com a irrigação – o que, geralmente, significa diminuir um pouco as regas–, e, acima de tudo, protegê-las da ação do vento”, explica a paisagista Bia Abreu (@biaabreu_paisagismo). “De resto, seguimos igual e aguardamos a chegada da primavera para fazer uma adubação orgânica”, resume ela. 

“Sim, percebo que minhas plantas sofrem mais durante os meses de inverno. Isso, claro, tem a ver com os ciclos naturais, mas também com os longos períodos sem chuvas e a baixa umidade do ar típicos de nossa cidade nessa época do ano. Condições que, infelizmente, podem ser ainda mais gravadas pela negligência de quem cuida delas”, afirma o jornalista e diretor criativo André Rodrigues, que cultiva, entre vasos e canteiros, mais de 40 espécies diferentes em sua casa no bairro do Sumaré, em São Paulo.

Segundo Rodrigues, para determinar que tipo de proteção cada planta precisa nessa época do ano, é essencial conhecer o que está acontecendo com cada uma delas. “O inverno pode, de fato, comprometer o desenvolvimento das plantas. Mas seu efeito pode ser contornado. O que pode realmente agravar a situação é a negligência de quem cuida delas, que tanto pode ser fruto de distração, como da falta de conhecimento sobre as necessidades de cada espécie”, afirma ele.

“O fato de entrar em um período de dormência no inverno não significa que a planta parou de crescer, mas sim de que ela vai crescer menos”, pontua o também paisagista e engenheiro agrônomo Ricardo Pessuto, (pessutopaisagismo.com.br), para quem não só as plantas devem receber os mesmos cuidados no inverno, como, em alguns casos, eles devem ser redobrados. “O que vai da exposição à luz solar à adubação”, recomenda ele.

Mudança de ares. Como a posição do sol muda ao longo do ano, observar se os vasos estão recebendo muita ou pouca luz em comparação com os meses de verão é, segundo os especialistas, a primeira providência a ser observada para que as plantas possam atravessar os meses de inverno sem maiores atropelos. Mas, ainda assim, vale lembrar que muita luz nem sempre é o melhor para todas elas. Em alguns casos, a luz solar direta pode até queimar as folhas. Por isso, é essencial se informar sobre as condições ideais para cada espécie e, se necessário, reorganizar seu jardim para o inverno.

Cortina translúcida protege plantas da incidência direta de luz solar no projeto da Très Arquitetura 

Cortina translúcida protege plantas da incidência direta de luz solar no projeto da Très Arquitetura  Foto: Evelyn Muller

Considere, por exemplo, trazer suas plantas em vasos, principalmente espécies que produzem flores, para dentro de casa durante os dias de frio mais intenso. Plantas que naturalmente perdem suas folhas ficarão bem instaladas em áreas sombreadas, com menos luz. Ao passo que outras, que ainda estão verdes e crescendo lentamente, continuarão a exigir uma boa quantidade de luz, mesmo durante a estação. 

Além disso, embora todos saibam que as plantas não vivem sem luz, no caso de vasos cultivados a céu aberto, especialmente nas grandes cidades, a poeira acumulada sobre as folhas pode impedir que sua planta receba luz, reduzindo a eficiência da fotossíntese. Por isso, para não colocar a planta em risco, limpe regularmente a frente e o verso das folhas com um pano macio e úmido, maximizando a beleza dos vasos. Afinal, com folhas mais brilhantes, eles sempre parecerão mais vistosos.

Trazer as plantas para dentro de casa pode também ajudar a protegê-las da ação dos ventos. Se forem muito intensos e frequentes, eles podem danificá-las seriamente. Por isso, se puder, transfira as espécies mais vulneráveis para áreas melhor protegidas, para varandas fechadas ou que ofereçam algum tipo de proteção. Mas se deslocar vasos maiores com variedades e mais suscetíveis não for possível, adicionar uma estaca de apoio aos caules pode ajudar a aumentar a estabilidade contra ventos mais fortes.

Folhas mortas. O inverno, segundo os paisagistas, não é o momento mais adequado para realizar podas radicais nas plantas. Mas ainda assim, durante a estação, é conveniente remover folhas e galhos danificados nas chamadas podas de limpeza. “É sempre aconselhável remover o tecido morto. Pequenas podas ajudam a aumentar a vitalidade do vegetal para atravessar os dias mais frios. Procure apenas deixar as podas de correção, feitas para direcionar o crescimento, para os meses de verão”, aconselha Pessuto.

“Do meio para o final do inverno eu gosto de fazer uma poda geral. Nessa época é comum encontrar folhas secas ainda conectadas ao caule, escondidas entre as saudáveis”, conta André Rodrigues, que encara a remoção como um trabalho quase cirúrgico, que ele executa munido de uma boa tesoura e de muita atenção. “Penso que é muito importante submeter as plantas à poda manual, porque quando as cultivamos em casa elas estão fora de seu hábitat – onde o ecossistema se encarregaria de manter tudo equilibrado”, diz ele. 

Atenção aos sinais. Folhas com pontos ressecados podem indicar falta d’água; regas são importante, mas o excesso pode matar as plantas

Atenção aos sinais. Folhas com pontos ressecados podem indicar falta d’água; regas são importante, mas o excesso pode matar as plantas Foto: Pri Novo Decornautas

Por maiores que sejam os cuidados, porém, algumas plantas vão emergir do inverno com suas folhas ressecadas e queimaduras. Segundo os especialistas, se o problema se concentrar apenas nas bordas externas, basta uma poda leve. Caso se trate de apenas um galho, a planta também deve se recuperar em problemas. Mas, se a queimadura envolver mais de 50% do vegetal, considere substituí-lo. Por fim, para garantir uma recuperação total, uma adubação completa, logo no início da primavera, é altamente recomendada. 

Sem excessos. Condições de baixa umidade do ar, mesmo nos meses de inverno, são frequentemente registradas em São Paulo. E, como todo ser vivo, as plantas se ressentem dessa situação, sobretudo as espécies tropicais. Ainda assim, existem maneiras simples e eficientes de contornar o problema. Uma delas é borrifar regularmente suas plantas. Outra é manter um prato ou bandeja com pedras e água próximo aos vasos, para criar uma área de umidade em miniatura ao redor das plantas. O que não significa, naturalmente, que o cuidado possa substituir a irrigação igualmente necessária durante esses meses do ano.

Regar é uma forma, reconhecida por todos, de demonstrar amor pelas plantas. No entanto, regar em excesso pode ser altamente prejudicial para a maioria delas. Enquanto folhas com bordas ressecadas podem significar necessidade de água, folhas amarelando podem estar querendo dizer que as regas estão sendo excessivas. Portanto, antes de regar, certifique-se de que o solo esteja realmente seco. E, se preferir, adquira um medidor de umidade para eliminar as suposições e garantir o nível ideal.

Podas para retirar partes ressecadas devem continuar no inverno

Podas para retirar partes ressecadas devem continuar no inverno Foto: Pri Novo Decornautas

“Nos canteiros, procuro regar dia sim, dia não. Já nos vasos varia muito conforme a planta e o material que serve de recipiente. Cactos e suculentas precisam de menos água. Já as trepadeiras e bambus vivem praticamente submersos. Sempre que posso prefiro utilizar vasos de argila como suporte porque eles têm um melhor desempenho higrotérmico (armazenam umidade e ajudam a regular a temperatura das raízes). E ainda são ótimos para enfrentar intempéries e mudanças de estação”, explica Rodrigues.

Bem nutridas. As plantas precisam de mais do que apenas água e luz para um desenvolvimento adequado. As opiniões, no entanto, se dividem quanto a adubar ou não os vasos durante o inverno. “A maioria das espécies fica naturalmente dormente. Eu penso que o correto é respeitar esse ciclo natural e não encorajar o crescimento delas, fertilizando durante este período. Prefiro não adubar durante a estação, deixando qualquer iniciativa nesse sentido para o início da primavera”, considera Bia Abreu.

Borrifar as folhas pode ajudar a aumentar a umidade nos dias frios

Borrifar as folhas pode ajudar a aumentar a umidade nos dias frios Foto: Pri Novo Decornautas

Já Ricardo Pessuto prefere continuar investindo em adubação. “O fato de estar em dormência não significa que a planta não esteja fazendo fotossíntese e se nutrindo. O que ocorre é que ela absorve menos nutrientes e que, dessa forma, alguns adubos demoram a se manifestar. Sendo assim, prefiro deixar o solo adubado desde já para que, quando sairmos desse período, a absorção seja mais rápida e o resultado, mais eficaz”, afirma o paisagista. 

Seja qual for a situação, qualquer planta por certo se beneficiará de uma camada de material orgânico depositada sobre seu substrato (a terra do vaso) durante o inverno. Além disso, conforme ela apodrecer, poderá fornecer nutrientes ao solo e ajudar a reter água, reduzindo a necessidade de regas. “Tem um truque simples que aprendi com a minha avó e que recomendo a todos: pego as folhas secas que podei, esfarelo com as mãos, misturo com adubo e adiciono aos vasos. As plantas adoram”, sugere André.