Rio dos anos loucos

Susy Dissat - O Estado de S.Paulo

A art déco, que fez história no início do século 20 e marca a cidade a começar pelo Cristo, está de novo em alta

Marcio Alves Roiter mora num dúplex no Jardim Botânico, bairro nobre do Rio de Janeiro. Além de marchand, Marcio é presidente do Instituto Art Déco Brasileiro - o que torna o seu dúplex realmente especial. "Comprei a primeira peça de art déco por uma ninharia; um tinteiro com defeitos, mas produzido pelo mestre vidreiro René Lalique", conta. "Era 1968 e, aos poucos, terminei por me profissionalizar, estreando no Salão de Antiquários do Copacabana Palace, no final dos anos 70". Tão apaixonado é pelo estilo, que se notam, em todos os cômodos de sua cobertura, peças expressivas - de móveis a esculturas, luminárias e vasos. Entre esses últimos, os Gallé Rio, que reproduzem paisagens da cidade, raridades valorizadas em leilões. A art déco, que fez história de 1915 a 1945 na Europa, coleciona admiradores mundo afora. Gente que faz de suas casas, como Marcio, cenários dedicados a um estilo que exalava modernidade por meio de formas geométricas e outras, de influência cubista. Eram os Années Folles e a alegria do pós-Primeira Guerra dominava as artes, a música, a literatura e a moda. O Rio de Janeiro absorveu a novidade que aportava - literalmente - pela Praça Mauá, onde viajantes endinheirados embarcavam em navios 100% déco, caso do Normandie. A cidade ainda possui um acervo significativo de imóveis art déco - cerca de 400, entre casas e prédios - que vêm sendo recuperados nos últimos anos. Uma benção talvez do Cristo Redentor, ele próprio o maior monumento do estilo, inaugurado em 1931 (de Heitor da Silva Costa, foi desenvolvido pelo escultor Paul Landowski). A estilista Mary Zaide é também exemplo de quem escancarou as portas do seu apê, no Leblon, para o art déco. Legras, Daum Nancy, Majorelle e Gallé são alguns dos peso-pesados com lugar marcado na área social, além de utilitários americanos de cerâmica colorida (produzidos entre as décadas de 30 e 50) na copa. "Os da marca Hal vinham dentro das geladeiras Westinghouse, imagine! Já os da Fiesta ainda podem ser encontrados nos mercados de antiguidades dos Estados Unidos e custam a partir de US$ 100", diz. Cômodas, estatuetas Outro apartamento notável é o de Luiz Fernando Grabowsky, arquiteto que vive à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. O art déco se faz notar por toda a parte, de azulejos estampados, cigarreiras de prata e esmalte a estatuetas femininas de porcelana - Luiz Fernando começou a se interessar pelo assunto após passar uma temporada na casa da avó, no Flamengo, toda decorada segundo o estilo. "As estatuetas têm diversas procedências, mas predominam as da marca Rosenthal que podem custar de US$ 300 a US$ 3 mil", conta. "Elas surgiram em razão do prestígio de Diaghilev, que criou a companhia Ballets Russes no início do século 20". Uma das cômodas do estar, adquirida há mais de 15 anos, fazia parte de um conjunto de dormitório. "A cama continua no quarto, mas a cômoda ficou bem mais bonita na sala", revela o proprietário. Os sofás ganharam couro ecológico (Nautolex, da Regatta, cerca de R$ 80,70 o metro), enquanto o arquiteto encontrou espaço, na sala de jantar, para a mesa Saarinen (Hetty Goldberg, cerca de R$ 7.486). "É de design contemporâneo e combina, na minha opinião, com os outros móveis." Outro arquiteto, Mário Santos, filho da arquiteta Janete Costa, mora numa confortável casa na Barra da Tijuca, que consegue espelhar uma mistura harmoniosa de art déco com a arte popular brasileira, a arte sacra e a moderna. Na grande porta da entrada, o puxador, desenhado por Mário, foi feito a partir de uma placa de vidro de Lalique, que pertenceu ao transatlântico Normandie, enquanto o busto que decora o hall de entrada tem traço déco na coluna. Na área social, o mix decorativo predomina: há espaço para a poltrona La Chaise, de Charles Eames (na Hetty Goldberg, R$ 3.382), enquanto vidros assinados são guardados no móvel-vitrine, mas os Lalique se destacam no arranjo "cenográfico" criado por Mário, dispostos em cubos de acrílico presos à parede. A versão nacional Contraponto à art nouveau - em que imperavam as linhas sinuosas -, a art déco surgiu numa época em que o homem se habituava a lidar com a eletricidade, o cinema e os "velozes" aviões. A geometria e o cubismo característicos do estilo resultaram, no Brasil, na vertente Marajoara, de busca às origens nativas. Nos anos 30, no Rio, o arquiteto Lucio Costa encorajou os artistas a desenvolverem temas brasileiros - daí a presença de onças, índios e flora na produção da época.