Refúgio longe da Sapucaí

SUZY DISSAT - O Estado de S.Paulo

A casa do carnavalesco Paulo Barros, em Niterói, não tem vestígios de suas alegorias

O carnavalesco Paulo Barros confessa que desde a adolescência tem fascínio pelo carnaval. O fato de ter nascido em Nilópolis, assim como a Escola de Samba Beija-Flor, pode ter influenciado o menino, que adorava ver o espetáculo pela televisão anos 14 anos começou a desfilar. Quando fez 18 resolveu participar também da produção da festa e aprendeu muito com o carnavalesco Joãosinho Trinta. "Eu fazia de tudo um pouco e fui tomando intimidade com o espetáculo, com a confecção das alegorias", conta ele, que fez aniversário em maio e comemorou a data no lugar mais apropriado para um carnavalesco: a Cidade do Samba, na zona portuária do Rio, aonde vai todos os dias, mesmo quando não tem trabalho - é lá que funcionam os barracões das escolas.

Depois de 20 anos vivendo em Copacabana, Paulo enjoou do burburinho e, em 2003, foi morar em Itaipu, bairro de Niterói, com Dolly e Igor, seus cães. Mas preferiu um recanto sossegado, longe da praia. A casa, que comprou pronta e foi reformando aos poucos, tem estilo rústico e nenhuma extravagância das alegorias das escolas de samba. "Costumo dizer que minha musa inspiradora é a Ponte Rio-Niterói", brinca ele, que, nas travessias, vai bolando todas as travessuras que vão surpreender no sambódromo do Rio, na Avenida Marquês de Sapucaí.

Paulo chegou a cursar Arquitetura, mas largou tudo para ser comissário de bordo. Ficou 17 anos voando, mas a cabeça estava sempre "viajando" nas evoluções da avenida. Em 1993, foi convidado para fazer os figurinos da Escola Vizinha Faladeira e não parou mais. Só de voar. Três anos depois deixou o antigo trabalho e, confessa, ficou meio perdido. Abriu uma loja de CDs e virou sócio de um restaurante em Botafogo. O que não o impediu de continuar a sonhar com o carnaval. Passou por várias escolas do grupo de acesso até estrear no grupo especial com a Unidos da Tijuca, em 2004, e despejar na avenida um turbilhão de novas ideias. Mesmo quem não tem hábito de assistir aos desfiles já ouviu falar no carro do DNA, que deu visibilidade ao artista. "As pessoas não duvidam mais de mim. Estou trabalhando na criação do próximo desfile da Unidos da Tijuca."

Do barracão

Quando o trabalho dá uma trégua, ele gosta de receber os amigos. Para isso, acabou de finalizar a área externa da casa, onde fez duas pérgulas: numa instalou um fogão industrial, forno a lenha e churrasqueira, além de uma generosa mesa com bancos que encontrou em um brechó. Um grande paneleiro fica sobre a bancada da pia. Para o outro lado da área, que tem piso de pedra São Tomé, o que chama a atenção é o sofá redondo, que ele mandou fazer na Cidade do Samba - se não encontra pronto, Paulo não se aperta e manda fazer tudo a seu gosto.

Com living e sala de jantar integrados, uma minicozinha transformada em bar e o apoio de um móvel chinês vermelho, a casa tem um quarto e um mezanino, onde ele montou um pequeno escritório. Para os amigos que passam a noite, construiu um quarto com banheiro, que ele chama de loft, independente do resto da casa.

No living, os sofás são confortáveis e vêm escoltados pela estante baixa de madeira desenhada por Paulo. Nas paredes, fotos que ele mesmo manipulou no computador e transformou em quadros, escultura de Cássio Lázaro e tela de Cintia Ramos. Sobre a mesa de jantar (R$ 3.900 da IMI) com pés de madeira e tampo de cristal fica uma escultura de Ascânio MMM. Outra preciosidade é a escultura de ferro do mineiro Amilcar de Castro, que tem lugar de destaque sobre a mesinha do living.

"As pessoas pensam que minha casa é como as alegorias que crio para o carnaval. Mas, dos desfiles, só tenho mesmo umas grades de ferro, que coloquei no jardim", diz Paulo.