Refúgio de um mestre

Bete Hoppe - O Estado de S.Paulo

A casa, no Jabaquara, conserva as cores da natureza que inspiraram o artista plástico Manabu Mabe

Neste endereço no bairro de Jabaquara, o tempo parou em 1997. O jardim, a mobília, o ateliê, tudo permanece como estava no ano da morte do proprietário. O último quadro no cavalete ainda aguarda a assinatura do autor. Nem precisa. As cores vivas, as formas abstratas, os traços vigorosos, o uso ímpar da espátula não deixam dúvidas: é um Manabu Mabe.   Veja Também: Alimento para os sentidos Peixe voador Boas compras no nosso japão Arte que vem de Hiroshima Quadro para o príncipe O país que ensina design Harmonia natural Preservada, a área de trabalho parece ainda em uso, como nos tempos em que Mabe se ausentava para uma das longas temporadas nos Estados Unidos, no Japão ou na Europa. Ali, as estantes estão abarrotadas com os livros, a maioria japoneses, que iniciaram o autodidata na arte dos pincéis. Nascido em 14 de setembro em Shiranui, Manabu chegou em Santos aos 10 anos, em 1934, com o pai, Soichi, a mãe, Haru, e cinco irmãos, todos mais novos - outros dois nasceriam no Brasil. Cresceu em Lins, interior de São Paulo, trabalhando no cafezal da família. Nas horas de folga, desenhava, primeiro com crayon; depois, tinta a óleo - que acabou por conhecer, em 1945, exposta na vitrine de uma livraria, passeando na cidade. O menino pintou paisagens e naturezas-mortas em papelões e tábuas de madeira, dissolvendo a tinta em querosene e baseando seus estudos nos livros que o acompanharam desde então. Em 1957, Mabe mudou para a capital, tornou-se um artista premiado e viajou pelo mundo sempre pintando as cores da terra que o encantaram na infância. Os quadros da fase figurativa de Mabe tomam todas as paredes do ateliê junto aos livros e cerâmicas trazidas do Peru e da África - as esculturas eróticas colombianas ficam "escondidas" no armário. Os abstratos estão na área de trabalho, próximos a uma grande escultura de madeira maciça africana (a peça faz parte da coleção amealhada no antiquário do sobrinho do escritor Ernest Hemingway, em Nova York). Já a portentosa escultura de madeira de Mário Cravo, que figura no hall entre o ateliê e o estar, Mabe fez escambo de um quadro com o escultor. Lugar para a melancolia, nesta casa não há. Tudo ainda vibra a alma jovial (e generosa) do artista, que construiu o imóvel há mais de 51 anos para abrigar gente e quadros. Chegava a receber 400 pessoas para celebrar seu aniversário. "Não cabiam todos dentro de casa. Tinha de espalhar mesas pelo jardim. Ele então montava um deck sobre o gramado e cobria com toldo", recorda-se Joh, o filho mais velho e dono do Espaço Arte & Cultura, que representa as obras do pai (tela de 51 cm x 51 cm vale US$ 13 mil). Junto com a mãe, Yoshino, o gêmeo Ken e o caçula Yugo, também artista plástico, responde pelo Instituto Manabu Mabe, que, por ora, funciona na residência (visitas, só com hora marcada) e pretende criar o Museu Manabu Mabe, servindo-se do antigo prédio do Colégio Campos Salles, na Liberdade, em reforma. Joh conta que, entre 1960 e 1980, quando o Brasil era pouco conhecido pelos orientais, a casa era uma espécie de embaixada aberta para empresários, políticos e artistas japoneses em visita ao país. Personalidades nacionais também marcavam presença, caso de Francisco Matarazzo, o escultor Franz Krajcberg e o pintor Aldemir Martins, a respeito de quem Mabe registrou: "Ele se tornou um grande amigo, um irmão. Nas festas, as pessoas nos acham parecidos e ficam na dúvida se ele é japonês ou se eu sou nordestino". No salão de festas, o mobiliário compõe-se de duas mesas feitas de pesadas rodas de moinho, e sofás e poltronas Mole, do amigo Sergio Rodrigues. Dois trabalhos de Mabe merecem destaque: a primeira obra abstrata, VibraçãoMomentânea, de 1947, e o quadro, sem título, de 1996, encomendado para a sede do governo de Kumamoto, no Japão. "Mas, quando ele visitou o lugar, achou que não combinava e pintou outro", lembra Joh. Curiosidade: a última exposição de Mabe em Tóquio, em 1997, causou um caos no trânsito. Tudo porque a imperatriz Mitiko quebrou o protocolo e gastou mais tempo que o planejado diante das obras. Naturalizado brasileiro, Mabe buscou nas origens a inspiração para os jardins que cercam a casa, em especial o da entrada (há mais três nos fundos do terreno de 8 mil m²), onde "conversava com as carpas após o desjejum". Rotina que só falhava quando chovia. "Ele ficava contemplando, depois seguia para o ateliê", revela Joh. Amante da natureza, ele arquitetou todos os janelões da construção de modo a terem vista para a vegetação e para o lago com carpas e aguapés. Cascata, bambus mossô e bonsais gigantes, de plantas como o pinheiro conhecido por jacaré (entre R$ 120 e R$ 280, sob encomenda na Bonsai Okuda) e azaléias gigantes (cerca de R$ 170, com 50 cm, sob encomenda, idem), "sempre floridas no dia do aniversário dele", também estão ali. Com paciência oriental e perseverança de imigrante, Mabe se encarregou de posicionar as rochas, algumas com as próprias mãos. "Ele girava e enterrava até conseguir a forma desejada", lembra o filho. Depois de dez anos de muita labuta, no final dos anos 70, o artista conseguiu recriar o jardim que deixara no Japão.