Reforma atualiza sobrado carioca construído nos anos 30

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Repaginado, imóvel deixa em evidência o modo de morar da cidade

O pavimento principal do sobrado em Laranjeiras, com hall, salas de jantar e estar e terraço com piscina. Uma reforma radical atualizou o imóvel dos anos 30

O pavimento principal do sobrado em Laranjeiras, com hall, salas de jantar e estar e terraço com piscina. Uma reforma radical atualizou o imóvel dos anos 30 Foto: Andre Nazareth/Divulgação

Laranjeiras é um dos mais antigos bairros da zona sul do Rio. Com ocupação iniciada no século 17, tem na rua de mesmo nome, que começa no Largo do Machado e termina nas proximidades do Túnel Rebouças, sua principal via de circulação. Peculiar no contexto da cidade, sua denominação deriva do grande número de árvores da espécie que ocupavam outrora o vale do Rio Carioca, que ainda corta a localidade, mas hoje segue curso subterrâneo.

Inicialmente ocupada por luxuosas chácaras e habitada por personagens ilustres – entre eles a princesa Isabel –, a região teve seu padrão de ocupação drasticamente alterado por volta de 1880, com a implantação no local da Companhia de Fiações e Tecidos Aliança e, com ela, suas primeiras vilas operárias. Erguido em 1939, no alto de uma ladeira, este sobrado, de 240 m², é remanescente desse período de transformações. 

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“Quando chegamos aqui, pouco havia da construção original. A planta estava toda desfigurada em função dos muitos ‘puxadinhos’ que a casa recebeu”, conta Roberta Moura, coautora deste projeto de reforma, ao lado das sócias e também arquitetas Paula Faria e Luciana Mambrini. “Com o aval dos proprietários – um jovem casal de advogados a quem agrada muito o contemporâneo –, optamos por uma mudança radical, a começar pela fachada”, resume Luciana. 

Assim, após um ano de trabalho, a configuração do sobrado foi inteiramente alterada, no sentido de dotar o imóvel de maior fluidez e leveza. A rigor, da construção existente, ficaram apenas a volumetria original e a distribuição em dois pavimentos. Todos os muitos anexos a ele incorporados ao longo do tempo foram devidamente eliminados. 

“Como bons cariocas, o casal queria viver em uma residência com mais transparência, com cômodos amplos. Menos paredes e mais vista”, pontua Paula. Desenhada sob medida para atender aos desejos de seus moradores, a casa exibe hoje uma porta de acesso com medidas generosas, confeccionada de peroba-mica, além de uma ampla fachada de vidro, que se prolonga por seus dois pavimentos. “Eles faziam questão de deixar o espaço externo o mais ao alcance dos olhos possível. Disso não abriam mão”, lembra Luciana. 

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Com circulação e funcionamento independentes, o andar inferior conta com sala de TV e quarto de hóspedes, totalizando 70 m². A decoração por ali é leve e despretensiosa. O sofá amplo e espaçoso, pertencente ao acervo do casal, recebeu novo revestimento. Fácil de deslocar, a mesa de madeira, com visual vintage, da Desmobilia, atende bem aos momentos de jogos e às pequenas refeições.

No superior, onde se concentra o centro da vida familiar, a fórmula se mantém: simplicidade e bom design aparecem no desenho da saleta íntima – mobiliada apenas com uma estante de madeira de laca branca, banqueta e poltrona Costela, da Desmobilia –, das salas de estar e jantar, da cozinha e também dos dois dormitórios. Com mobiliário reduzido ao essencial, o quarto do casal recebeu uma espartana cabeceira de peroba-do-campo com microrranhuras, executada pela Marcenaria Brumatti.

O ambiente de estar se liga à área externa por dois grandes vãos, fechados com esquadrias deslizantes de alumínio e vidro transparente. Na área externa, a principal intervenção foi o rebaixamento da área da piscina, que ficava um metro acima do nível do estar. Ao redor dela, o terraço ganhou novo piso, de placa cimentícia, além de um muro baixo, sobre o qual os moradores cultivam uma horta de temperos.

Em solução de continuidade, os revestimentos de piso e parede se repetem nos dois andares da casa: tacos de madeira cumaru paginados como tabuleiro de dama no piso e tijolinhos maciços aplicados sem rejunte diretamente sobre as paredes. “Desde o início eles deixaram bastante claro para nós que queriam morar em uma casa compacta e prática, que não exigisse muita manutenção”, lembra Luciana. Nesse sentido, todas as janelas e portas de madeira do imóvel foram substituídas por esquadrias de alumínio e a antiga escada em caracol que ligava os dois pavimentos, por um modelo mais atual, com estrutura de ferro e pintada com tinta epóxi azul. “Ela se destaca na composição, rompendo um pouco com a rusticidade da madeira e da cerâmica”, conclui Roberta.

Andre Nazareth/Divulgação
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