'Quis criar um ninho'

- O Estado de S.Paulo

Sig Bergamin fala sobre inverno e explica como decorou a casa de campo

Considerado por muitos o maior decorador do Brasil, Sig Bergamin tem truques ao usar revestimentos de vários tipos. Ele desconversa quando perguntado sobre o tal título. "Estou no meio do caminho", diz, ao receber a reportagem do Casa& em seu escritório. No bate-papo a seguir, o arquiteto, de 56 anos, discorre sobre a concepção deste projeto, suas predileções no inverno e como combinar bem tecidos em casa.

Como foi decorar esta casa?

Uma delícia porque os proprietários são decididos. Eles pediram que eu trouxesse para dentro as cores do jardim, como brique e musgo, e não tons muito fortes ou vibrantes. O resultado tinha de ser aconchegante e bom para receber, que é uma coisa de que eles gostam bastante.

Como é interferir numa arquitetura que não é sua?

Neste caso era uma arquitetura bem neutra, que foi complementada pelo jardim e por toldos que eu coloquei. Dentro, forrei os quartos com tecidos, usei cortinas, madeira na biblioteca, papel de parede na sala de jantar...

Por que você explorou tanto os revestimentos neste caso?

Para chegar a um aconchego, já que a casa era um pouco fria no conjunto. Quis criar um ninho, que ficou com cara mais invernal, com o uso daqueles e de outros tons, como o mostarda, o mel, o vinho...

O projeto parece estar numa paragem europeia, não fossem dois quadros do living, que fazem referência a certa tropicalidade. O contraponto foi intencional?

Trouxe um pouco disso para dentro, sim, porque, caso contrário, ia ficar muito com jeito de casa de campo inglesa, por exemplo.

Você gosta do inverno?

Eu amo. Gosto porque você curte a casa por dentro, fica mais em casa. É como os bichos: eles hibernam. Esta estação é gostosa também para trabalhar, viajar e se arrumar mais. Adoro as cores do inverno e as comidas.

Quando você recebe no frio, gosta de servir o quê?

Gosto de sopa - inclusive a de cebola, que parece que está de novo na moda -, risotos e bacalhau no forno.

Qual a sua cor para o inverno 2009?

Faria um laranja mais queimado, meio rouge de fer.

Como a gente aquece a casa para receber o inverno?

Olha, eu começo colocando mantas nos sofás e nas poltronas porque todo mundo gosta de ver filme enrolado. Você pode usar umas almofadas de lã, cashmere ou flanela. Também pode usar muito mais velas, porque, no verão, elas dão uma sensação um pouco aflitiva. As velas aromáticas, por sinal, são mais gostosas para o inverno porque, com o tempo quente, ficam enjoativas. Outra coisa é aproveitar bem a lareira e usar mais tapetes, já que a gente tende a tirá-los de casa no verão. Que mais? Usar bastante as flores do inverno, que são tulipas, galhos de macieira, hortênsias. E pode-se usar melhor as rosas, que ficam mais perenes com os dias frios.

Você costuma fazer interessantes misturas de tecidos. Qual o segredo para chegar a um bom mix?

Aí que está, é difícil explicar... Mas quem é leigo pode começar amarrando as combinações não pelas padronagens, mas pelas tonalidades. Assim, você pode misturar xadrez com flor, paisagem e até estampa de pássaros. Se tiver em mente as cores semelhantes, não tem erro. Inclusive as texturas podem ser outras, sem problema nenhum.

Além dos tecidos, os papéis de parede podem transmitir ideia de calor por causa das estampas?

Podem. Nesse projeto, por exemplo, a sala de jantar dá essa sensação com o papel de parede meio cashmere, em vinho e musgo.

Como foi criar sua coleção de tecidos?

Sempre colecionei panos e tenho várias combinações na cabeça. Foi só a primeira experiência. Depois de fazer modelos em fio tinto, em breve será a vez dos jacquards. Aí, em vez de só ter xadrezes e listras, por exemplo, vou poder também explorar outros desenhos.

Afinal, você se considera o maior decorador do Brasil?

Não. Estou no meio do caminho...