Quando o artesanato encontra o design

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Valorização de materiais e processos artesanais aliados a formas de produção menos agressivas ao meio ambiente são cada vez mais relevantes para os designers

Após uma década de demanda explosiva, aguçando nossa curiosidade e gerando um interesse difuso por técnicas manuais de produção, o artesanato parece ter se integrado definitivamente à cena do design nacional. E isso fica evidente não só no apetite renovado que parecemos nutrir por tudo o que é feito à mão, mas na expressiva procura por cursos especializados na área. Também entre os designers é firme a disposição em continuar a criar com base em materiais e processos artesanais.

A cadeira Cobra Coral, de Sérgio Matos.

A cadeira Cobra Coral, de Sérgio Matos. Foto: Sérgio Matos

Aos olhos do consumidor, o sentido de humanização presente no móvel artesanal ganha peso, assim como a percepção de que sua produção, em diversos graus, revela-se menos agressiva ao meio ambiente. A cultura do artesão passa a ser valorizada como uma forma de design e a atenção dos profissionais se volta para regiões onde as tradições artesanais estão ainda bastante presentes, como no Nordeste brasileiro.

“Vivemos uma época de pseudo-autossuficiência e distanciamento. Acredito que os saberes artesanais nos aproximam da nossa ancestralidade e fazem nos reconhecer com a nossa natureza”, afirma o designer alagoano Rodrigo Ambrosio, que, em quase duas décadas de trabalho com comunidades de artesãos, já trabalhou a palha, a madeira e até a rapadura em suas criações. Sempre em busca de uma simbiose possível entre o fazer artesanal e os conhecimentos adquiridos na universidade.

O banco Poxim, de cestaria, criação de Rodrigo Ambrosio.

O banco Poxim, de cestaria, criação de Rodrigo Ambrosio. Foto: Rodrigo Ambrosio

Cada vez mais frequentes, colaborações do gênero estão, na prática, ajudando a abolir fronteiras e resultando em parcerias inesperadas. Caso, por exemplo, do morador de Nova Olinda (CE) Espedito Velozo de Carvalho. Conhecido como Espedito Seleiro, ele é famoso por seus artefatos de couro colorido. Após lançar uma coleção de móveis com os irmãos Fernando e Humberto Campana, Espedito retorna ao mobiliário – desta vez, com a coleção Ditos pelo Espedito, na qual revisita peças de designers ilustres. A coleção foi lançada em Teresina (PI) e, mais recentemente, na galeria Passado Composto, em São Paulo.

“Existe, claro, o interesse pelo objeto em si. Mas acredito que o apelo do artesanal vá além. Sua presença sugere nostalgia e torna qualquer ambiente mais afetuoso”, considera Sérgio Matos, designer mato-grossense radicado em Campina Grande (PB), que acaba de apresentar na feira Ambiente Fair, em Frankfurt, uma retrospectiva de seu trabalho, que explora técnicas artesanais de todo o Brasil.

A poltrona Xibô, de Sérgio Rodrigues, recriada pelo artesão Espedito Seleiro.

A poltrona Xibô, de Sérgio Rodrigues, recriada pelo artesão Espedito Seleiro. Foto: Espedito Seleiro

Peças com evidente potencial de se tornar itens de coleção, como a cadeira Cobra Coral, um móvel semiartesanal – produzido a partir do trançado de corda náutica sobre estrutura tubular metálica –, que aponta para um momento em que a indústria já se mostra apta a absorver técnicas manuais de produção. Um cenário no qual o artesanato não apenas se mostra bem vivo, mas pode se revelar vital.