Quadro para o príncipe

Jennifer Gonzales - O Estado de S.Paulo

Uma tela exibida a Naruhito é a homenagem de Takashi Fukushima a um povo que ele vê com olhos ocidentais

O pintor Takashi Fukushima, de nome e feições japonesas, é "completamente brasileiro", faz questão de dizer. Nascido em 1950, esse paulistano formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP foi católico dos 10 aos 16 anos, mas é corintiano roxo desde sempre. Quando vai ao Japão (já visitou o país oito vezes), vê tudo "com olhos de ocidental", ainda que sejam puxados. "O japonês é inescrutável e tem dificuldade de se comunicar", observa Takashi, que adora falar - talvez por força do ofício, já que também é professor de desenho na FAU.   Veja Também: Alimento para os sentidos Peixe voador Boas compras no nosso japão Arte que vem de Hiroshima Refúgio de um mestre O país que ensina design Harmonia natural Seu ateliê, no bairro da Saúde, vive dias movimentados, com um entra-e-sai de telas devido às exposições que ocorrem na cidade em homenagem ao centenário da imigração japonesa (entre elas, Arte Brasil-Japão -Moderno e Atual, em cartaz até 7 de setembro no Museu de Arte Contemporânea da USP). Enquanto recebia a reportagem do Casa&, um caminhão chegou para levar a tela Gótico (2002), exibida durante a recepção do príncipe Naruhito, no Palácio dos Bandeirantes, sexta-feira. "Vou ter de colocar outro quadro aqui", diz Takashi, olhando para uma das paredes do antigo estar da casa em que morou com a família e seus dois filhos pequenos. No living, móveis de design, como a poltrona da italiana Cassina, o banco ripado Bertoia (R$ 820, na Artesian) e a cadeira LC1, de Le Corbusier (de couro liso, custa R$ 2.180, idem) convivem com telas do artista e de seu pai, o também pintor Tikashi Fukushima, morto em 2001. Tikashi chegou ao Brasil quando tinha 20 anos, em 1940, vindo da aldeia de Kashima. Foi trabalhar em um entreposto de secos e molhados em Lins, no interior de São Paulo, de propriedade de seu tio, que o convidou para vir ao Brasil. Quando o dia-a-dia no armazém ficava sossegado, ele desenhava. Até que, em 1946, recebeu convite para trabalhar em uma oficina de molduras no Rio, do pintor Tadashi Kaminagai. Os dois saíam juntos para pintar a cidade e, na oficina da loja, Tikashi aprendeu a esculpir molduras em madeira. Três anos depois, mudou-se para São Paulo, casou-se com Ruth Ai e abriu uma molduraria no Paraíso, onde o filho Takashi cresceu vendo o pai conviver com artistas - e também clientes - , caso de Arcângelo Ianelli, Lasar Segall e Manabu Mabe. "Mabe era muito ligado ao meu pai e foi meu padrinho de casamento. Quando ele comprou uma casa enorme no Jabaquara, todos os amigos iam para lá aos sábados. Parecia um cassino: os mais velhos jogavam mah-jone, um jogo chinês de mesa, e os jovens ficavam na piscina", lembra Takashi. Nessa época, Tikashi havia não só se tornado um pintor destacado na comunidade japonesa, mas também participava de mostras importantes, como a Bienal de São Paulo. "Meu pai se adaptou bem ao Brasil, fazia o que gostava", diz o pintor, que desde menino freqüentava exposições. "Como não tinham com quem me deixar, meus pais me levavam junto", conta. Desde cedo, portanto, a arte fez parte do cotidiano desse artista de 58 anos, embora ressalte que a influência japonesa seja indireta em sua obra. "Meu trabalho sempre foi ligado à corrente impressionista, à diluição da paisagem, à relação do tempo com o espaço", sintetiza (no mercado de arte, suas obras valem de R$ 3 mil a R$ 20 mil). A primeira viagem ao Japão foi em 1973 com a família. Na volta, fizeram escala no Taiti, onde o pintor Paul Gauguin viveu no final do século 19. "O lugar onde você está influencia seu trabalho. Meu pai foi tocado pelas cores tropicais do Brasil; ele não pintava o Japão", revela. Só a partir dos anos 80 que o país de origem de Tikashi começou a surgir em suas telas, com imagens de caligrafia japonesa e montanhas. O jovem Takashi, por sua vez, ficou fascinado com os templos de madeira de Kashima. "A cada 30 anos eles trocam o madeirame, o que significa que a construção é exatamente como há mil anos. Eles têm outra consciência do que é permanente; o que dura não é a obra de arte, mas sim a sua essência", explica. A experiência de estudar no Japão o convenceu da importância de conhecer a origem. "De um jeito ou de outro ela vai aparecer, está no seu DNA", diz.