Produtos recicláveis ganham espaço no mercado da decoração

Marcelo Lima - Especial para o Estado

Reciclar a matéria-prima tem motivado designers e grandes marcas a oferecer objetos e móveis reaproveitados

Projeto Cobogó da Mundaú, que deu novo uso às casacas de sururu, ficou entre os finalistas de prêmio de design 

Projeto Cobogó da Mundaú, que deu novo uso às casacas de sururu, ficou entre os finalistas de prêmio de design  Foto: Portobello

O destino dos resíduos plásticos tem ocupado nos últimos anos o centro das preocupações da comunidade internacional. Mais do que bem-vinda, a possibilidade de reciclar a matéria-prima tem motivado hoje experiências nas mais variadas escalas: de designers que produzem pequenas séries de objetos em seus ateliês, fundindo embalagens e garrafas pet, a grandes marcas, que oferecem móveis assinados, fabricados unicamente a partir de material reaproveitado. 

Diante da ampliação da consciência ambiental, porém, não foi apenas a oferta de reciclados que se ampliou. Também o perfil desta produção mudou sensivelmente. Ganhou novos materiais e acabamentos. Passou a integrar a lista dos objetos de desejo de consumidores de todas as idades e, como era de esperar, chega hoje a valer tanto ou mais do que artigos fabricados com materiais nunca utilizados.

Recentemente lançada pela Magis italiana (magisdesign.com), a cadeira Bell, do alemão Konstantin Grcic, ilustra bem a questão. Moldada por injeção, ela emprega como matéria-prima resíduos de polipropileno recolhidos nas diversas linhas de produção da marca. Por meio de um desenho atemporal, adaptável tanto a ambientes internos quanto externos, ela tem tudo para comemorar muitos anos de vida. “Sim, trata-se de uma cadeira plástica, 100% reciclável. Mas isso não quer dizer que ela tenha algo de descartável”, conforme bem pontuou seu criador, por ocasião do lançamento do móvel. 

A cadeira Bell, do designer Konstantin Grcic para a Magis

A cadeira Bell, do designer Konstantin Grcic para a Magis Foto: Magis

Escala industrial. Praticada às margens da Lagoa do Mundaú, a pesca do sururu é uma das atividades mais tradicionais da Comunidade do Vergel, localizada na zona metropolitana de Maceió, Alagoas. Subproduto imediato da extração do molusco, a quantidade de cascas acumulada no local chegava a atingir mais de 300 toneladas/mês. Um volume que a princípio, sem nenhuma utilidade prática, acabava ficando ao ar livre, produzindo poluição e mau cheiro. 

Isso até os designers Marcelo Rosenbaum e Rodrigo Ambrosio colocarem em marcha o projeto Cobogó da Mundaú. Uma iniciativa que hoje funciona como fonte de renda para os moradores e ainda ajudou a combater a degradação ambiental. “Inspirados pelo sururu, desenvolvemos um elemento construtivo vazado, com um furo no centro, remetendo ao formato da própria concha. Ela nos forneceu a inspiração, mas também a matéria-prima”, explica Ambrosio. 

Cascas de sururu ficavam espalhadas, sem uso

Cascas de sururu ficavam espalhadas, sem uso Foto: Portobello

“A composição da massa, que confere um brilho furta-cor à peça, ora com predominância de verde, ora do roxo, leva sururu picado e cimento, na proporção de 80% para 20%, e foi desenvolvida juntamente com o artesão Itamácio Santos, que vive no local”, complementa Rosenbaum, satisfeito com a inclusão do projeto entre os dez finalistas da edição 2020 do Human City Design Award (humancitydesignaward.or.kr) – premiação que reconhece propostas que possam contribuir para um relacionamento mais sustentável entre as pessoas e o meio ambiente. 

Produzido em escala industrial pela comunidade de Vergel do Lago, sob supervisão da Pointer (pointer.com.br) – divisão de projetos especiais da fabricante de revestimentos cerâmicos Portobello (portobello.com.br) –, o Mundaú pode ser encontrado hoje nas lojas da marca de todo Brasil. Com preço comparável ao de outros cobogós fabricados pela empresa, custa R$189,99 a unidade, sendo que o preço de custo do produto é inteiramente revertido para a comunidade alagoana. 

Trituradas, as sobras depois viram cobogós

Trituradas, as sobras depois viram cobogós Foto: Portobello

Nova estética. Para o designer catarinense Lucas Recchia, o interesse em conhecer em maior profundidade as técnicas de fusão artesanal do vidro precedeu o próprio desejo de criar móveis a partir do material. Antes, Recchia já havia trabalhado com ele. Mas apenas quando se sentiu seguro resolveu partir para sua versão reciclada. “Ao contrário do que possa parecer, o processo comporta muitos desafios. Da logística, passando pelo transporte do material, manuseio, até a fundição. Tudo tem de ser considerado”, conta ele.

“O vidro ‘virgem’ oferece uma série de atrativos, como a variedade de cores, transparência e refração da luz. Já o reciclado, por conter muitas impurezas, impõe uma série de limitações. Mas o interessante é contornar esses obstáculos e usá-los a seu favor”, afirma Recchia, que aponta as mesas da série Cacos, feitas a partir do reaproveitamento e fusão de retalhos de vidro transparente, como uma de suas mais bem-sucedidas experiências na área. 

Mesa da série Cacos, de Lucas Recchia, com retalhos de vidro

Mesa da série Cacos, de Lucas Recchia, com retalhos de vidro Foto: Rômulo Fialdini

“Sem dúvida que o fato de ser vidro reciclado aumenta o interesse pelo produto. Meus clientes comentam não só a satisfação de adquirir uma peça que incorpora a questão da sustentabilidade, mas também pelo efeito estético que o material oferece”, afirma o designer, que, em São Paulo, é representado pela Firma Casa, (firmacasa.com.br) da empresária Sônia Diniz. E, na Europa, tem sua produção comercializada pela galerista milanesa Rossana Orlandi (rossanaorlandi.com) uma das maiores incentivadoras globais da reciclagem aplicada ao design. 

Alfaiataria Ambiental. Se viver de forma mais sustentável passa, necessariamente, por reduzir o consumo, não é menos verdade que pesquisar antes de comprar pode também contar pontos. Além de render boas surpresas. “Não queríamos nos desfazer do patrimônio que ia se acumulando a cada reparo ou ajuste realizado. Eram sobras que não podiam ser descartadas e, assim, tudo começou”, conta Kiko Maldonado, diretor de arte da By Kamy Verde, (bykamy.com.br/bykamyverde) – o estúdio de criação da By Kamy, segmento da tradicional loja paulistana de tapetes, By Kamy, voltado para o desenvolvimento de novos produtos a partir da reciclagem de material descartado. “Com o tempo fomos combinando fragmentos, peças do nosso acervo, produtos têxteis. Já realizamos as mais diversas experimentações. Produzimos tapetes, acessórios, objetos utilitários. Mas o resultado é sempre único e exclusivo. No máximo dez peças. Não mais que isso”, afirma Maldonado.

Tapete Gemas, desenvolvido pela By Kamy Verde a partir de retalhos e partes de tapetes

Tapete Gemas, desenvolvido pela By Kamy Verde a partir de retalhos e partes de tapetes Foto: Emerson Alves

Segundo o designer, idealmente, a Verde tem como proposta oferecer produtos por preços mais em conta. Mas, por conta do nível de elaboração de algumas peças ou da preciosidade de um fragmento – até partes de tapetes persas podem vir a compor um trabalho –, nem sempre isso é possível. “Ainda assim, na maioria das vezes, o valor é, em média, menor que o de um produto novo. Em torno de 20% a 30%. 

Por fim, ainda que alguns modelos produzidos pelo estúdio sejam assinados por designers convidados, Kiko prefere definir o trabalho desenvolvido por sua equipe como uma espécie de alfaiataria com consciência ambiental. “O conceito de sustentabilidade está na base de tudo. É o fragmento, com sua história, que direciona o produto final. Ele chega a ser mais importante do que a própria assinatura.”