Posto de observação urbana

Marcelo Lima - O Estado de S. Paulo

Novos donos de apartamento de 260 m² na Paulista querem ser parte integrante da cidade

A cozinha foi inteiramente reformulada e recebeu piso de porcelanato e marcenaria revestida de fórmica

A cozinha foi inteiramente reformulada e recebeu piso de porcelanato e marcenaria revestida de fórmica Foto: Zeca Wittner/Estadão

Se, há menos de um ano, alguém perguntasse ao arquiteto Caio Andreazza Morbin se ele contemplava, em algum momento, mudar de endereço, a resposta seria imediata. “Não passa pela minha cabeça. Viver aqui tem muito mais vantagens do que inconvenientes. E os poucos que existem, talvez um pouco de barulho e alguma poeira, são bem contornáveis”, afirmava ele, à época. Morador por quase uma década de um apartamento de 260 m² no icônico edifício Três Marias, projeto finalizado em 1956 pelo modernista Abelardo de Souza, na esquina da Avenida Paulista com a Rua Haddock Lobo, Caio se assume um apaixonado pela mais paulistana das avenidas. E pelo edifício, em particular.

“Em São Paulo, tudo é instável, a começar pelo tempo. Queiramos ou não, se adaptar faz parte da vida deste lugar, e acho que chegou a minha hora. Vou experimentar uma nova forma de viver a cidade. Mas, apesar de não ser mais o proprietário, continuo muito ligado a este apartamento”, conta o arquiteto que acaba de concluir sua segunda intervenção no imóvel. Desta vez, não para fazer dele sua morada. Mas para adequá-lo aos sonhos de seus mais novos donos: um casal de colecionadores italianos que o comprou no ano passado e que pretende se mudar para a capital ainda neste semestre.

“Tudo aconteceu de forma muito rápida. Nosso encontro na Itália, onde eu estava fazendo um curso na área de artes, a visita deles a São Paulo, a paixão do casal pelo apartamento e, sob todos os aspectos, a oferta irrecusável”, conta ele, deixando para o fim a cereja do bolo. “Eles fizeram absoluta questão que eu conduzisse o que preferem chamar de ‘readaptação’ do imóvel ao estilo de vida deles, já que não admitiam a ideia de falar em reforma. Para eles, estruturalmente, o apartamento está perfeito como está, o que, confesso, me encheu de orgulho”, declara. 

Veja imagens da reforma

Zeca Wittner/Estadão
Ver Galeria 7

7 imagens

Um dos edifícios mais bem conservados de sua geração, o Três Marias impressionou Caio desde o primeiro encontro: suas pastilhas rosas e azuis marcando presença em meio ao cinza da paisagem. O hall de entrada, todo de mármore, praticamente intacto desde o dia de sua inauguração. A qualidade construtiva. Daí sua preocupação absoluta, desde o início, de atualizar os espaços, mas sem descaracterizá-los. “Substituí as esquadrias por modelos antirruído de alumínio, no mesmo padrão e formato das originais, restaurei as pastilhas da varanda e, por meio de um elemento vazado de concreto, procurei trazer luz natural para a sala de jantar. No mais, recuperei algumas luminárias de gesso original e procurei utilizar tons de rosa e azul nos interiores”, resume.

Coincidência de ideais também deram o tom aos encontros de trabalho para discutir o capítulo interiores. “O casal partilhava da ideia de fazer do apartamento um posto de observação privilegiado sobre a cidade, mas, ainda assim, parte integrante dela. Não um corpo estranho”, pontua Caio. Daí, segundo ele, o esquema de cores austero, construído, basicamente, em torno do preto e do branco, a leveza das cortinas e persianas. A declarada opção minimalista revelada na distribuição e escolha dos poucos móveis e acessórios. “Existe algo de ornamental, diria até de art déco, em algumas peças, como nas poltronas do living e na mesa e cadeiras da sala de jantar. Mas, em sua maioria, elas são neutras, como as espreguiçadeiras do home theater”, comenta o arquiteto, que, em última análise, procurou construir interiores funcionais, mas capazes de realçar a herança modernista do edifício. 

Feito sob medida para agradar aos atuais proprietários, o projeto de iluminação, elaborado com base em trilhos aparentes e spots direcionáveis, como em uma galeria, foi concebido para destacar as obras de arte que, com certeza, não tardarão a ocupar as paredes da casa. “A proximidade do circuito cultural e, sobretudo, do mercado de arte da cidade, foi outro fator que aumentou o interesse deles pelo imóvel”, admite o arquiteto, que atualmente está dando os últimos retoques em seu mais novo projeto. “Acabo de me mudar para uma casa. Casa, mesmo. Com direito a quintal, plantas, passarinhos. É tudo muito novo para mim e acho que o projeto está ficando muito interessante. Mas isso é assunto para uma próxima matéria, não é mesmo?”, brinca ele.