Ponto de mutação

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

A simbiose de ângulos retos e formas da natureza de Fernanda Marques instiga a pensar

Repare na estante geométrica e reflexiva de aço inox aí ao lado. Baseada na forma de fractais, é uma das peças bacanas projetadas por Fernanda Marques para seu Loft Sustentável. Lá estão, como era de se esperar, os traços ortogonais característicos das obras da arquiteta. Mas não só. Há algo de diferente no projeto. "É que as linhas orgânicas estão me cutucando", explica.

 

O que isso significa? É só observar, por exemplo, o desenho solto do piso riscado por ela para o pátio de 237 m². Ali há a piscina com borda infinita emoldurada por lareira e uma marquise sinuosa coberta de verde pela paisagista Gigi Botelho. A estrutura serpenteia para cima até encontrar os ângulos retos do volume revestido de peroba reciclada, mesma madeira do exterior. Ou seria o contrário?

 

Outro aspecto importante vem da permeabilidade entre o interior e o exterior, mais radical. "É uma relação menos contemplativa e mais interativa", opina a arquiteta. O que poderia ser apenas um diálogo entre dentro e fora parece beirar certa simbiose.

 

O tal loft - com living, cozinha gourmet também de inox e megatelão com imagens interativas - tem a metade do tamanho do projeto anterior de Fernanda Marques para a mostra: 207 m² de área construída. De área externa, são 237 m². O principal motivo da redução, segundo ela, é seu compromisso efetivo com a sustentabilidade. Dá para entender. Espaços maiores despendem mais recursos e energia. "É para ligar o lé com o cré e mostrar que sei também fazer algo menor."

 

 

 

 

Detalhe da estante feita de aço inox da Arcelor Mittal

 

O natural continua no interior da caixa de madeira. Pendentes tubulares metálicos exibem uma vegetação caindo, como se invadisse o espaço. Troncos de quariquara funcionam como pilares. Há ainda a organicidade de peças criadas pela profissional com o designer Hugo França, conhecido por sua produção com pequi descartado pela natureza. "Eu e ele recolhemos restos de árvores num galpão da prefeitura, fizemos um pot-pourri e daí nasceram os móveis." A profissional estabelece harmonia ao justapô-las com a poltrona feita de pedaços de couro por Fernando e Humberto Campana. Por outro lado, parece fazer questão de enfatizar o contraste que as peças geram junto do aço e dos estofados enxutos.

 

O mesmo ocorre com a ideia do primitivo e do tecnológico em bancos projetados por ela para o exterior, de resina reciclável e pedra. Pode-se dizer que têm uma pegada "flintstoneana-futurista". Design, aliás, interessa, e muito, à profissional: "Quero investir nessa área de expressão". Um trabalho que ela gosta de comparar a uma espécie de joalheria.

 

Aos 44 anos, Fernanda diz estar mais segura e aberta a experimentações. Agora, se o particular costuma afetar a profissão, que mudanças a arquiteta pode ter tido na vida pessoal a ponto de fazer surgir o frescor de novas possibilidades estéticas em sua lida? "É uma pergunta que tenho me feito ultimamente", confessa.

 

A resposta, cá entre nós, só ela saberá mesmo. Ou não. Quem sabe seja tão-só uma questão de ciclo. Afinal, como lembra o sábio preceito oriental do yin-yang, "o extremo de uma situação traz a semente de seu oposto".

 

 

A ilustração revela a marquise verde - junto da qual haverá bar e banco de acrílico. No living, abaixo, o sofá da Casamatriz é de veludo molhado. Telão da Taag