Poesia e humor de dois irmãos

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Fernando e Humberto Campana partem da trama para a escolha de objetos em mostra de Nova York

Foi com o coração - sem preocupação com ordem cronológica, intelectual ou de pedigree - que Fernando e Humberto Campana acionaram o olhar para escolher, no acervo do Museu Cooper Hewitt, os mais de 20 itens que fazem parte da mostra Manufaturando Emoções, inaugurada em 15 de fevereiro passado, em Nova York.Convidados para a curadoria da sétima exposição da série Selects, onde um artista é escolhido para fazer uma releitura da coleção do museu, o único no mundo dedicado exclusivamente ao design histórico e contemporâneo, eles conseguiram fazer um testemunho do próprio processo de criação. Com poesia e humor, e partindo da trama como fio condutor, escolheram curiosos papéis de parede, ilustrações, têxteis, jóias, cadeiras e objetos dos séculos 16 ao 20, que ali permanecem em exposição até 24 de agosto.Um processo que começou em Brotas, a terra natal dos dois, onde são tradicionais as varas de pescar de bambu e de onde, em 1983, traziam para vender em São Paulo as cestas de vime da fábrica local, que, com graça e já demonstrando talento, personalizavam. Pois, desde então, desafiando estereótipos, Fernando e Humberto, de forma low tech e artesanal, se deixam levar pelo material do dia-a-dia, como corda sintética, papel-bolha, papelão, ralos de plástico, bichos de pelúcia, garrafas plás-ticas - o que faça parte do mundo urbano e contemporâneo, para criar móveis e objetos de design que hoje fazem parte do acervo de museus, como o MoMA, em Nova York; o Victoria and Albert, em Londres, e o Vitra Design, em Weil am Rhein (Alemanha). Nessa trajetória de experimentação - em São Paulo, eles não têm um showroom, mas sim um laboratório -, passaram a ter seu design produzido por fábricas internacionais, como a Edra, a Alessi, a Artecnica e a Venini, e seus trabalhos comercializados por galerias, caso da Albion, em Londres, e da Moss, em Nova York. Para a Artecnica, por exemplo, desenvolveram um enorme bowl utilizando pneu e bambu, produzido no Vietnã, e à venda na loja do Cooper Hewitt. Para a Alessi, uma coleção, também na loja do museu, que vai de fruteira a revisteiro, passando por centro de mesa, apoio de prato e porta-guarda-chuva.As cadeiras para a sala de jantar da casa da amiga Jenette Kahn, no Harlem (um estudo em torno da vassoura, de 1998, e que a Edra produz desde 2005), e que tanto surpreenderam os convidados da dona da DC Comics, foi o embrião da série Transplastic, feita para uma exposição na Albion, em junho de 2007, e onde tudo foi vendido no ato. Misturando, tramando e tecendo palha, ferro, bambu, acrílico e policarbonato, no mais moderno espírito mixed series, Fernando e Humberto desenvolveram lustres gigantes, meteoros, nuvens de palha e luz para parede e teto, além da série de cadeiras em fibra de Apuí, com assentos múltiplos que incorporam cadeiras de plástico comuns e em formas nada convencionais. E, numa seqüência desse trabalho onde a palha se sobrepõe ao sintético, surgiu a poltrona de palha que expele objetos de plástico, criada para a recente exposição no Cooper Hewitt - peça não reproduzível, doada ao acervo do museu e que fecha a trajetória da curadoria por eles assinada.De jóias a trono de chifres Para a dupla de artistas que me faz saber que o solo do belo e azul Mar Mediterrâneo é hoje um tapete de rejeites plásticos, a coleção Transplastic poderia se chamar Detox, uma vez que prega a reciclagem, e faz, de forma lúdica, um manifesto: a palha reaparecendo no processo como um parasita que volta para expelir a poluição e desintoxicar. Sintetizam a tensão entre a natureza e a poluição, o natural e o sintético, entre a elasticidade e o calor da palha com o frio e rígido plástico. Vale dizer que, ao utilizar o Apuí para a palha, estão contribuindo para preservar e controlar a biodiversidade das florestas, pois se trata de uma fibra que vai sufocando e matando as árvores que ataca. Daí que retomar - óbvio que em nova linguagem - a prática das cadeiras de bar e de terraço de palhinha, depois destronadas pelas de fibra sintética e agora por aquelas tão banais de plástico moldado, não poderia fazer mais e maior sentido.Foi ao longo de duas demoradas visitas aos quatro departamentos do acervo do Cooper Hewitt que Fernando e Humberto puderam selecionar o que lhes pareceu melhor mostrar a natureza representada pela trama. Assim, numa curadoria que buscava uma afinidade de enfoque e de processo criativo, mas que também falasse da nossa colorida paisagem tropical, juntaram jóias do século 19 feitas com cabelos tintos de gente e de cavalo, um livro do início do 17 com capa tecida por fios de metal, contas de coral e seda e peças de porcelana do 18 com trama estilizada. Ainda um trono com ares selvagens, todo de chifres, feito por um europeu no Texas em 1890, uma poltrona inglesa em vime e marfim de 1880, e mais o que pudesse servir de exemplo do uso do objet trouvé como solução construtiva de sua criação. Na seqüência, intercalada, a já icônica cadeira da dupla, a Vermelha, de 1993, editada pela Edra desde o ano 2000, exemplo perfeito de desconstrução da trama, onde os fios de certo modo se derretem, numa "ciência" contemporânea que regeria o reciclado. Provocando emoçõesApesar de os objetos por eles escolhidos para a mostra serem de épocas e autores variados, todos parecem dotados de uma mesma qualidade intrínseca, a de provocar emoção, sentimento e lembranças. O "Cupido", ilustração tirada do livro O Templo da Flora, por exemplo, simboliza a pureza, a paixão e o amor, inerentes ao processo criativo dos designers. Já Uma Fantasia Floral Num Velho Jardim Inglês, que fala do ideal do artista em dar à figura humana a forma vegetal, teria a ver com o homem existindo como extensão da natureza. O colar e as pulseiras com cabelo representariam a habilidade do homem para reinventar as possibilidades do corpo humano. A poltrona de chifre, ao permitir formas arredondadas, chama a atenção para como, dependendo da forma de manipular o material, é possível criar um design novo. Todos os objetos têm mensagem própria, além de beleza e poesia, como tudo o que produzem esses dois artistas irmãos que tanto sucesso fazem no Exterior - onde podem, ao mesmo tempo, estar assinando uma instalação nos jardins do museu Victoria and Albert, criando para a Disney britânica a Cadeira Cartoon com Mickeys, Minnies e Plutos de pelúcia, elaborando cenários para o Balé Nacional de Marselha ou desenhando jóias, onde o ouro vira trama e se articula. Modernos cidadãos do mundo, no entanto, não abrem mão de morar no Brasil, mais precisamente em São Paulo, cidade que, na sua complexidade e poluição, é desafio e fonte sem fim de inspiração.