Perfeita imperfeição

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

À frente da Interni, designer paulistana lança linha de móveis inspirada pela etnia Iorubá

A designer Maria Cândida Machado, da Interni

A designer Maria Cândida Machado, da Interni Foto: andre nazareth / divulgação

Às vésperas de completar duas décadas de carreira – sua primeira coleção de móveis foi lançada em 1995 –, a paulistana radicada no Rio Maria Cândida Machado acaba de desembarcar de mais uma viagem. Ou, como ela costuma dizer, de uma longa imersão em uma outra cultura para dela extrair inspiração para criar. “A cerimônia do chá japonesa foi tema da linha Wabi Sabi. O folclore brasileiro, da Mitos e Lendas. Na série Muxarabi, explorei as treliças mouras”, resume Cândida, que acaba de lançar a coleção Iorubá, uma homenagem à riqueza cultural da etnia africana. “Procuro contar histórias por meio de meus móveis”, afirmou nesta entrevista ao Casa.

Como o design surgiu na sua vida?

Me formei em Arquitetura, mas iniciei minha vida profissional na Hobjeto, do artista plástico e empresário Geraldo de Barros, minha primeira e, sem dúvida, das mais definitivas influências. Depois, em São Paulo, convivi durante um bom tempo com o designer italiano Fulvio Nanni e me encantei tanto pelo seu trabalho que resolvi cursar Desenho Industrial em Florença. De volta ao Brasil, em 1989, não tinha mais dúvidas do caminho a seguir. Me transferi para o Rio e fundei minha marca, a Interni.

Mesa de centro Oró, de freijó e vidro, da Interni

Mesa de centro Oró, de freijó e vidro, da Interni Foto: andre nazareth / divulgação

Por décadas, diversos designers brasileiros, cada qual a seu modo, têm se dedicado a explorar a madeira na construção de móveis. O que acredita haver de mais particular nas suas criações?

Além do vínculo temático, acredito que a mistura de diferentes variedades em um mesmo móvel é uma referência forte. Adoro misturar madeiras e, sempre que possível, explicitar, por meio do contraste, suas diferentes características e condições de resistência. Só de uma coisa não abro mão: de preservar, ao máximo, sua aparência natural. Costumo dizer que a madeira é perfeita na sua imperfeição.

Mesa de centro Oró, de freijó e vidro, da Interni

Mesa de centro Oró, de freijó e vidro, da Interni Foto: andre nazareth / divulgação

Que histórias pretendeu contar com a coleção Iorubá?

A importância desse povo africano é evidente em quase todos os aspectos da vida brasileira. A coleção – com poltronas, sofás, mesas de diversos tamanhos e luminárias – é uma ode aos iorubanos. Não na forma de versos, mas por meio da arte aplicada. Nos móveis, o vigor da etnia aparece associado à capacidade de renovação. Por isso, as linhas estão mais leves, os cantos mais arredondados, as curvas desenhadas à mão livre. Tudo, claro, devidamente trabalhado por meus mestres artesãos.

Poltrona Obô, de freijó, da coleção Iorubá, da Interni

Poltrona Obô, de freijó, da coleção Iorubá, da Interni Foto: andre nazareth / divulgação