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Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

As novas exigências de conforto inspiram os designers franceses presentes à mostra VIA 2015, em Paris

Vista geral da mostra VIA 2015, este ano tendo como locação a feira Maison & Objet

Vista geral da mostra VIA 2015, este ano tendo como locação a feira Maison & Objet Foto: Colombe Clier

A questão do conforto surge como princípio motriz das inovações apresentadas este ano pela Valorização da Inovação no Móvel (VIA), em Paris: mostra que elenca os projetos selecionados pelo programa de incentivo ao design de mesmo nome, que conta com o apoio do governo francês. Desde sua criação, já foram 479 os protótipos financiados pela entidade. 

Na prática, são três as modalidades de incentivo: a Carta Branca e o Programa Móvel, nos quais o designer, ou sua equipe, é financiado para desenvolver um projeto relacionado a uma área específica; e o Programa de Ajuda, que subsidia, a cada ano, sete estudantes para desenvolver seus protótipos. O conjunto dessa produção é depois apresentado em duas mostras anuais, uma em Paris e outra em Milão.

Nesta edição, tendo como locação o pavilhão 8 da Maison & Objet – tradicional feira francesa de artigos de decoração e design, que terminou na última terça-feira – a exposição apresentou 14 protótipos, entre móveis, luminárias e equipamentos voltados para o conforto ambiental. Como pontos em comum, a preocupação em estimular a interatividade e o desejo de reduzir o impacto ambiental.

Apresentando a casa como um organismo vivo, que precisa negociar permanentemente sua existência com o meio ambiente, Jean-François Dingjian e Eloi Chafaï receberam carta branca para desenvolver o projeto Atmosphères. Um habitat interativo onde a dupla integra móveis e mecanismos de controle para produzir energia, modular a temperatura, absorver ruídos ou delimitar perímetros de acesso a dados digitais. 

Ao contrário, porém, de desenhar equipamentos para atender a essas finalidades, o que a dupla propôs foi agregar performance a objetos já existentes – móveis, iluminação, espelho e parede –, capacitando-os para colaborar no aprimoramento das condições de conforto ambiental. Uma maneira não só original de economizar espaço, mas de, igualmente, diminuir o consumo de energia. 

Oferecidos em dois modelos, painéis de terracota, por exemplo, acabam por criar uma área de ar-condicionado a seu redor, por simples evaporação. “Sob a influência do vento e do calor, a umidade contida nas cavidades internas do material se evapora e atravessa sua parede porosa. Para ampliar seu raio de ação, tudo o que fizemos foi acrescentar um pequeno ventilador ao produto”, afirmou Dingjian.

Além de paredes “refrigeradas”, a série traz uma luminária que transmite dados digitais por meio de luz; um armário revestido com espuma que amortece sons; além de uma espécie de totem de espelhos, equipado com células fotoelétricas impressas em placas de vidro, capaz de capturar todos os tipos de luz (natural ou artificial, direta ou indireta) e produzir corrente suficiente para recarregar celulares e tablets.

Dentro do Programa Móvel, o francês Benjamin Graindorge apresentou Corpus: um sistema anatômico de mobiliário e iluminação pensado para atender às necessidades contemporâneas de utilização. Assim, guiado basicamente pela anatomia, Graindorge projeta peças de madeira com articulações sofisticadas, nos quais a junção entre os componentes se dá unicamente por meio do couro, sem qualquer outro tipo de conector.

A ideia do corpo tomado como princípio ativo na geração do conforto ganha destaque também na maioria das sete propostas selecionadas na categoria Programa de Ajuda. No sofá Mellow, de Océane Delain, em especial: nele, é o usuário que modela o assento do sofá de acordo com sua conveniência. Revestido com espuma, o móvel é inteiramente atravessado por cordões que, uma vez tencionados, mudam integralmente o formato do assento.

Por fim, a Mesa Climática de Jean-Sébastian Lagrange e Raphaël Ménard retoma a questão da economia de energia e do conforto térmico aplicados ao desenho do mobiliário. Constituída por uma fina folha de alumínio dobrado, repleta de grânulos com propriedades térmicas, ela retém – e restitui – o calor do ambiente com grande eficiência, sem consumir energia e, o que é melhor, aumentando, substancialmente, o conforto de utilização do móvel.