Observadores de plantas

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O olhar original do estúdio Dossofiorito que subverte o conceito de vasos, colocando as necessidades das plantas na órbita do design

Os italianos Gianluca Giabardo e Livia Rossi, do estúdio italiano Dossofiorito

Os italianos Gianluca Giabardo e Livia Rossi, do estúdio italiano Dossofiorito Foto: Elisa Testori / Divulgação

A necessidade de conviver com as plantas e o ideal de fazer delas parte integrante da paisagem doméstica são duas necessidades humanas, compartilhadas por diferentes culturas. Por meio do contato diário, humanos e plantas desenvolvem um tipo de relacionamento espontâneo, mas que, como qualquer outro, demanda trocas. 

"As plantas são seres sensíveis, reagem a estímulos. Podem se transformar a partir do estado das coisas a seu redor. E, apesar de não se movimentarem como os animais e de manifestarem uma sensibilidade mais contida, não podem ser vistas como elementos meramente decorativos”, argumenta a designer italiana Livia Rossi, sócia do também italiano Gianluca Giabardo, no estúdio de design Dossofiorito, em livre tradução, Monte Florido, em Verona. 

“A presença de plantas em nossos espaços é importante para nosso bem-estar. Convivendo com elas, nós humanos aprendemos a respeitar necessidades alheias às nossas. Melhoramos como pessoas”, afirma Giabardo, que partilha com Livia, além do espaço de trabalho, a paternidade do projeto The Phytophiler – ou, Observador de Plantas –, apresentado pela primeira vez durante a Semana de Design de Milão, em abril deste ano, e que, desde então, já passou por Helsinque, Londres e Paris.

À primeira vista, é apenas mais uma coleção de vasos, produzida com terracota no ateliê da dupla, mas que, ao contrário de outros modelos convencionais, oferece diversos apêndices – pequenos vasos, suportes metálicos, espelhos e lentes – que podem, ou não, ser conectados a eles por meio de furos. Isso, claro, a julgar apenas por sua aparência. 

Do ponto de vista conceitual, porém, os objetivos da dupla parecem ter sido bem mais audaciosos e abrangentes.Baseados em uma relação que se pretende de justa troca, os vasos do Dossofiorito cumprem dupla função: aprimoram a experiência humana, mas também a da planta.

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“Pesquisas têm demonstrado que, ainda que não possuam um cérebro, as plantas são organismos inteligentes. Nosso projeto nasce dessa constatação”, explica Livia. Por isso, segundo ela, a ideia foi ir mais além do que simplesmente oferecer uma plataforma de contemplação do mundo vegetal. O que estava em jogo é ampliar as possibilidades de comunicação entre ele e os humanos. 

“Não nos interessa produzir vasos bonitos, mas propor ferramentas capazes de ampliar nossa interação com as plantas. Paralelamente, pretendemos oferecer a elas a oportunidade de se mostrar de forma mais abrangente, de exercer melhor suas potencialidades. Continua sendo uma relação de troca”, resume Giabardo, por natureza, o mais prático e mais analítico da dupla. Já Livia prefere um enfoque mais intuitivo.“Amo a desorientação que leva à descoberta”, diz ela. Razão pela qual procura observar tudo, em todos seus detalhes.

“Apesar de realizado de forma artesanal e de fazer uso de uma tecnologia quase primitiva, o trabalho do Dossofiorito é prova do despertar de uma nova consciência frente a outros seres também sensíveis, mas que pertencem a um mundo outro, diferente do nosso”, pontua a curadora italiana – e mentora da dupla – Marva Griffin Wilshire, responsável pela participação inaugural da dupla em seu celebrado Salão Satélite. “E, em se tratando de design, sensibilidade é tudo”, chancela.

Tiago Queiróz/AE
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