Obra aberta

PENELOPE GREEN - O Estado de S.Paulo

Casa de 103 anos no meio de baía está em constante restauro

Esta casa sempre terá detalhes inacabados, disse Henry Wood, repousando os tênis gastos sobre um pilar lascado. "Nunca vai ficar parecida com Breakers." Era mais um dia de estonteante beleza em Clingstone - uma mansão de 103 anos, revestida de ripas de madeira e instalada em uma ilhota na baía de Narrangansett, no norte de Rhode Island - e Wood, o proprietário, estava sendo irônico, comparando-a com o palácio de calcário e dourado de 1895, uma extravagância construída por um Vanderbilt perto de Newport.Na verdade, são os detalhes inacabados e as superfícies incrustadas de sal que Wood, arquiteto de Boston de 79 anos, mais valoriza em Clingstone. Durante quase meio século ele os manteve (mais ou menos) intactos - e, ao lado da família e amigos, vem dedicando tempo e habilidade para impedir que a construção escorregue para a água e lá se perca para sempre.Em 1961, quando comprou a casa com a ex-mulher e também arquiteta Joan, por US$ 3.600, a construção estava vazia havia duas décadas. As 65 janelas estavam quebradas e o telhado de ardósia, escancarado para o céu.Clingstone foi construída por um primo distante de Wood, J. S. Lovering Wharton, que tinha uma casa de veraneio na área do Forte Wetherill, ao sul de Jamestown. Quando o forte foi ampliado, no fim do século 19, o governo tomou a terra dele e Clingstone foi a resposta. "Vou construir onde eles não possam me incomodar", disse Wharton. Projetada com telhas de madeira e repleta de janelas, a casa tinha 23 cômodos dispostos em três andares, irradiando a partir de um vasto hall central. Tiros de canhão"Ele a construiu como um moinho", diz Wood, destacando as vigas de carvalho, o revestimento em diagonal e um ornamento peculiar: o interior ?vestido? com ripas de madeira, porque os canhões do Forte Wetherill eram disparados com tanta regularidade em treinamentos que rachavam o gesso das casas vizinhas.Depois da morte dos Whartons, a casa ficou vazia até ser encontrada por Wood. Transformar o que fora o brinquedo de um ricaço no refúgio de uma família de classe média foi muito mais trabalhoso do que os Woods seriam capazes de administrar. Clingstone e sua manutenção evoluíram para um estilo de vida comunal e, finalmente, uma espécie de "religião".Wood tornou-se especialista em reaproveitar coisas descartadas e um habilidoso negociante. De graça, conseguiu 60 maçanetas de porcelana preta de casas que estavam sendo demolidas em Boston; a iluminação, de um matadouro em Roxbury; a madeira, de um antigo supermercado também em Boston. No começo, a energia para as ferramentas vinha de um gerador portátil propenso a falhas e a iluminação era feita por velas. A água potável era - e ainda é - trazida de Jamestown. Os banheiros tinham a tubulação ligada diretamente ao mar. Hoje, painéis solares aquecem a água e uma turbina eólica no telhado gera eletricidade. A água da chuva é coletada numa cisterna e usada na limpeza. E agora Clingstone tem banheiros orgânicos de última geração.A manutenção ainda é trabalhosa. Por isso, em todo início de verão, Wood reúne 70 amigos e amantes de Clingstone para lidar com tarefas como lavar janelas e pintar molduras e parapeitos. John Benson é um dos voluntários mais leais. "A casa manteve sua honestidade através das gerações, desde as pessoas bem de vida que a construíram até as que precisam trabalhar para mantê-la." Ele a descreve como um lugar que "tomou um segundo fôlego e foi mantido vivo".