O tempo e a casa

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O escritor Luis Fernando Verissimo conserva até nos detalhes a morada onde seu pai, Érico, passou quase toda a vida

O escritor Erico Veríssimo era figura familiar aos moradores de Petrópolis, tranqüilo e arborizado bairro de Porto Alegre, onde viveu por 35 anos, no número 1.415, da Rua Felipe de Oliveira. E ainda é: "Olha, é só passar a caixa d?água, atravessar a rua e seguir em frente - é a terceira casa à direita", informa de imediato um rapaz. Seguro o bastante para acrescentar: "Se não achar, é só perguntar: todos sabem onde fica a casa dos Verissimos." De fato, a rua mudou um pouco. O reservatório há tempos foi desativado e a calma de outros tempos se ressente do trânsito da Protásio Alves, a principal artéria da vizinhança. Mas, como que imune à passagem do tempo, a casa avarandada, de arcos pronunciados e rodeada por pencas de azaléias, continua lá, mais viva do que nunca. "Meu pai adquiriu esta casa em 1942. Foi aqui que ele passou a maior parte da sua vida, que eu me criei e onde foram criados meus três filhos", conta o filho e escritor Luis Fernando, ao receber a equipe do Casa& na sala decorada por seus pais e conservada em detalhe - dos móveis aos adereços, em sua maioria de origem indígena, coleção garimpada por Érico em viagens. Um ambiente pequeno, modesto até, mas com inúmeras histórias para contar: "Era aqui, à beira da lareira, que ele recebia os escritores e jornalistas... dá para imaginar?", atiça Lúcia, mulher de Luis Fernando e testemunha fiel da passagem do sogro pela casa de Petrópolis. Memórias, lugares, rituais: tudo o que ela vivenciou e tem se encarregado de cultivar ao longo dos anos. Bistrô e escritório "Lembro-me dele sentado nessa poltrona, revisando seus textos, usando uma tábua como apoio. Era sempre assim: ele conferindo escrupulosamente seus escritos e dona Mafalda, ao lado, vigilante, tricotando no sofá", relembra Lúcia. "Eram momentos de concentração e silêncio profundos. Algo impossível de se esquecer." Mas, como sempre acontece, chega um dia em que tudo muda. "A família cresce e não tem jeito: a casa teve de crescer", acrescenta ela, ao apresentar três confortáveis salas, que ocupam agora a área antes destinada à cozinha. Uma funcionando como espaço de refeições, revestida em vermelho profundo (da Suvinil, tintas acrílicas preparadas na tonalidade custam a partir de R$ 170, o galão com 3,6l), tendo ao fundo um silkscreen, de Aldemir Martins. "É o nosso pequeno bistrô", brinca Lúcia. E as outras salas, servindo como espaços de convivência, concentram os quadros, esculturas e objetos da família. Como, por exemplo, o ambiente de estar que conta com gravuras e pinturas dos principais artistas que viveram na terra gaúcha nos anos 40, caso de Haar - que retrata Erico em óleo, disposto logo acima da lareira -, e do trabalho de Glauco Rodrigues, que representa a nova geração. "Na verdade, esse quadro recebeu duas versões: a primeira, em 1969, e a outra, em 71, quando meu filho mais novo, após anos de insistência, foi finalmente agregado à tela pelo pintor", revela Lúcia. Já o escritório de "Seu Erico", como ela se refere ao patriarca, ficava vizinho ao espaço onde Luis Fernando trabalha hoje. Foi nele que a maioria dos 34 livros de Erico Veríssimo tomou corpo e forma, mais especificamente em sua escrivaninha, móvel hoje deslocado para uma das novas salas. Avançar a construção para os fundos, no entanto, não foi suficiente para acomodar o ritmo da expansão familiar. "Partimos então para a escavação do subterrâneo", conta Lúcia, sinalizando a intervenção mais radical sofrida pela residência - a abertura de um espaço de lazer no pavimento inferior, com ambientes para leitura, música e televisão. Como toda a casa gaúcha que se preza, a dos Veríssimos dispõe de um amplo quintal, área coberta para refeições (no Depósito São Martinho, modelo similar de mesa de madeira de demolição, a partir de R$ 4.900), um bem cuidado jardim e claro, a potente churrasqueira. "Este quintal, no verão, é tão importante quanto a sala com lareira, no inverno", diz Lúcia. "Porque algo que a maioria não sabe é que, em Porto Alegre, faz muito calor."