O que é que o Brasil tem?

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Grupo do Forming Ideas chega para ver o melhor do artesanato e do design

Para não poucos, o futuro da paisagem doméstica estaria na sua diversidade; na convivência mais ou menos harmoniosa entre objetos produzidos pela indústria e outros de manufatura artesanal, exclusivos, ou confeccionados em pequenas séries. Sinal verde, portanto, para aquela cadeira futurista, moldada em resina de última geração. Mas também para aquela poltrona de desenho retrô, feita de palha, com assento e encosto trançados à mão.

 

De fato, algo mais do que uma simples questão de estilo parece justificar o atual interesse mundial por móveis e objetos de matriz artesanal: além de mais ricos de significados - algo relativamente raro na produção em larga escala -, eles são, via de regra, mais sustentáveis, o que, sem dúvida, os coloca no topo das prioridades do consumidor consciente - preocupado com a qualidade global dos produtos que leva para casa.

 

Cotidiano enriquecido

 

"Me agrada sentir que o objeto com o qual vou compartilhar minha vida tenha sido feito diretamente por outro ser humano. Que alguém dedicou horas para uma peça que vai enriquecer meu cotidiano e me fazer pensar de maneira diferente. Essa singularidade é algo difícil de se alcançar na produção industrial", declara Ann Jones, pesquisadora baseada em Londres, que acaba de desembarcar no Brasil em mais uma de suas muitas missões de exploração pelo mundo.

 

Na sua primeira visita ao país, Ann Jones, à frente do Forming Ideas - programa mantido pelo Arts Council britânico para difundir o artesanato contemporâneo em escala global -, traz com ela, além de mais de 20 anos de experiência no setor das artes visuais, uma equipe de 12 curadores, entre eles Martina Margetts, do conceituado Royal College of Art londrino. Como objetivo imediato, o grupo quer expandir o conhecimento sobre a produção brasileira. Em um segundo estágio, construir laços de intercâmbio.

 

Paralela Gift

 

"À parte sua diversidade, sabemos muito pouco ainda sobre o artesanato brasileiro. Diante do pouco que encontramos no nosso país, estamos conscientes da capacidade de inovação e da preocupação sustentável dos produtos brasileiros. No entanto, o que buscamos é detectar aquilo que é realmente excepcional e, a partir daí, trocar ideias", explica a curadora, que começa seu giro com uma visita à feira Paralela Gift, da empresária Marisa Ota, aberta sexta-feira, agora em novo endereço, o Shopping Iguatemi.

 

"O Brasil foi incluído no roteiro deles por nossa particular habilidade em unir técnicas tradicionais dos artesãos com programas de inclusão social e regeneração econômica. Eles estão ansiosos tanto para conferir o resultados dessas iniciativas quanto para observar os laços entre o artesanato e a arquitetura e o design produzidos no país", afirma Marisa, que apresenta a 17ª edição do evento.

 

Criado em outubro de 2008, em sua primeira missão, o Forming Ideas já levou dez curadores ao Cairo. Entre maio a setembro de 2009, em viagem pelo norte da Europa, 13 pesquisadores percorreram a Dinamarca, a Suécia, a Finlândia, a Noruega e a Islândia. No Brasil, a visita se realiza durante todo o mês de março e tem objetivos ambiciosos. "Vamos analisar como podemos trabalhar em conjunto com fabricantes, designers e artistas brasileiros", antecipa Ann.

 

Segundo ela, a partir das visitas anteriores - ao Egito e aos cinco países nórdicos -, o Forming criou uma viva e dinâmica rede de relacionamento entre galeristas e artistas britânicos com os profissionais locais, além de fomentar a formação de parcerias que conduzirão a projetos coletivos futuros. A estada no Cairo, por exemplo, resultou em uma conferência em Londres. O mesmo se pretende alcançar em relação ao Brasil.

 

Como exemplo do raio de ação do Forming, a curadora aponta o trabalho desenvolvido em Fiskars, a 90 minutos de Helsinque, que, após a passagem do grupo, resolveu oferecer casas a preços mais baixos para jovens artistas e artesãos se instalarem e trabalharem por lá. "Uma antiga fábrica foi convertida em galeria e o local ganhou lojas. Hoje é um lugar maravilhoso para se visitar, onde se pode conferir o melhor do design finlandês."