O poder da geometria

ulia Contier REPORTAGEM / Ângela Caçapava PRODUÇÃO - O Estado de S.Paulo

Isay Weinfeld projeta casa de 1.000 m2 no interior de São Paulo explorando o desnível do terreno em módulos de linhas retas

Projeto. Na fachada da casa uma rampa de 36 metros e o brise-soleil de concreto

 

Idealizada para servir como refúgio da cidade grande e como ponto de encontro da família, a casa no interior de São Paulo ganhou em simplicidade e elegância com o projeto arquitetônico de Isay Weinfeld. O trabalho deu tão certo que, desde que a casa ficou pronta, em meados de 2009, os donos prolongam a estadia tanto quanto é possível e os visitantes não pensam em ir embora tão cedo. Entre os pontos mais disputados da casa estão o deck da piscina - que mistura os traços de Isay com o paisagismo de Isabel Duprat - e a sala íntima do piso superior, com outro deck, de 140 m².

 

Marcada pela horizontalidade, a casa de linhas contemporâneas é organizada em três pavimentos dispostos em eixos perpendiculares. Detalhe esse que vence o desnível do terreno com naturalidade e permite que se acesse, de qualquer andar, o jardim. Encaixada no espaço resultante do L formado pelas áreas sociais e de serviço, e o talude que sobe em direção à área mais alta do terreno, está a piscina.

 

Para ter acesso à casa, pode-se entrar pela garagem, no piso inferior, ou, subir uma impactante rampa de 36 metros, de concreto aparente. Por aqui, o visitante passa por uma porta pivotante de ipê natural e é acolhido por uma sala com lareira em torno da qual estão quatro poltronas Mole, de Sergio Rodrigues, e uma luminária Arco, de Achille Castiglioni. Quem se senta em uma dessas poltronas revestidas de camurça tem a garantia da brisa propiciada pela ventilação cruzada e da bela vista do jardim.

 

No decorrer do imóvel de 1.000 m², arquitetura e decoração fundem-se em um trabalho que Isay considera único. "As duas coisas estão sempre muito ligadas. O mobiliário é básico, de bom desenho, e visa atender às necessidades do cliente", pontua o arquiteto. Detalhe que se nota na composição da sala inteiramente envidraçada que ganha, como complemento, um banco de madeira de Jorge Zalszupin. Obras. Isay Weinfeld diz que dois dados importantes marcaram o início da obra. O primeiro foi a orientação da casa, voltada para o norte, a fim de favorecer os quartos e as áreas sociais com a melhor insolação possível. O segundo foi o desnível do terreno. Em resposta à conformação natural e de modo a garantir o máximo de privacidade à família, "a área social foi projetada para dentro do terreno", explica o arquiteto.

 

A preocupação com a privacidade também se evidencia na fachada. A construção é protegida do sol e dos olhares curiosos por um extenso brise-soleil, formado por grandes aletas verticais de concreto dispostas irregularmente. Isabel Duprat complementou o conceito ao inserir o jardim de tal forma que todo o entorno da casa ficasse protegido pelas plantas.

 

Para vencer o desnível do terreno, Isay projetou o depósito, a casa de máquinas e a garagem no pavimento inferior, que fica semienterrado. No térreo, disposto em L e acessível da rua pela rampa em forma de S, estão as áreas de serviço e a sala de estar/jantar- esta, de um lado volta-se para os fundos do terreno e se integra ao deck da piscina por grandes portas de correr; de outro, é limitada pelo brise-soleil.

 

Uma grande escada de madeira peroba-mica dá acesso ao piso superior, onde estão os quartos e a sala de TV. Uma decoração marcada por clássicos do design contemporâneo compõe o home theater, com poltronas de Florence Knoll, uma lounge chair e uma cadeira de escritório soft pad, de Charles Eames. Uma janela de vidro circunda o ambiente que se abre para o grande deck de madeira. Segundo Isay, "esse é um privilégio de todos que usam a casa". Lá de cima, observa-se a piscina, revestida com vidrotil verde.

 

Para chegar aos quartos, é preciso passar por um grande corredor que dá forte personalidade à casa. Durante o dia, ele recebe iluminação natural por meio de uma fenda de vidro na parte de cima da parede e, à noite, balizadores marcam o caminho.

 

Na sequência dos três quartos foi instalada a suíte principal, que ganhou saída para um jardim particular. Nesse espaço privativo, uma jabuticabeira é contornada por um banco de madeira - mais um lugar para relaxar. Os outros dormitórios estão voltados para a piscina, que também garante uma bela vista ao acordar, sem pressa. O difícil mesmo é ir embora.

 

 

ENTREVISTA Isay Weinfeld:

No meio de sua agenda ele nos recebe para...

 

Quem são os novos expoentes da arquitetura brasileira? Vem vindo uma geração interessante e tenho fé que a arquitetura da cidade melhore. O que se produz aqui é muito fraco, então desejo que a população reivindique espaços melhores.

 

Existe uma personalidade na nossa arquitetura? Não vejo dessa forma. Apesar de existirem trabalhos semelhantes, há várias maneiras de ver a arquitetura.

 

O Brasil não é um país com a tradição de restaurar sua memória arquitetônica. Como vê a preservação da sua própria obra? Não me preocupo com isso. Podem derrubar, destruir.

 

Não pensa no seu legado? Não. Além do que, não acho que tenha essa importância.

 

Mas sua assinatura está entre as mais valiosas de São Paulo... Só assino cheque.

 

O que desejaria ter feito na arquitetura? E o que jamais faria? Posso pensar um pouco?