O jeito bom do Brasil

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

Arthur Casas mescla arte popular e design nacionais na Cabana do Xamã

Quer ser global? Seja local. Ao observar a Cabana do Xamã, até parece ser assim que Arthur Casas responderia à questão. De cara, a construção de 112 m² lembra um estúdio californiano - mas não se engane. Praticamente tudo ali é brasileiro. O ponto de partida foi a grande foto de um indígena, feita por Orlando Villas Boas, que o arquiteto já tinha e está exposta no local.

Com porta de correr envidraçada, a caixa com paredes revestidas de madeira, vinda de antigas cruzetas, e piso de granito branco, em lascas, abre espaço para a arte popular e o design nacionais. Não se trata de homenagem ao Brasil. "É apenas para mostrar como é possível fazer, sim, um lugar com coisas daqui", argumenta o profissional.

Para ele, é comum - sobretudo em São Paulo - constatar certo desprezo pela arte popular brasileira. "As pessoas consideram pobre", diz. Pois Arthur vai na direção oposta. Quase de ponta a ponta, no espaço, um nicho com rasgo de vidro serve de galeria para expor produções de terracota de Fernando Rodrigues, Miramar, Irinéia e Antonio Poteiro, entre outros artistas - alguns anônimos - de diversas partes do Brasil.

Boa parte dos móveis foi especialmente desenhada pelo arquiteto. Repare no sofá de linhas retas, forrado com lona branca, ou nas mesas de inox. Uma delas tem azulejos de desenho geométrico. Também compõe o estar um antigo catre, além da poltrona do argentino Martin Eisler. "No retângulo, o living integra-se ao restante", explica o autor. A mesa de jantar, cujo tampo usa uma fatia de pequiá certificado, tem cadeiras dos anos 50. Já a cozinha revela um balcão feito da mesma madeira das paredes.

Fazia seis edições que Arthur Casas estava afastado de Casa Cor. "É que nem sempre tenho o que dizer", explica, com uma ponta de modéstia. "Meu trabalho é quase sempre o mesmo, com uma oitava acima ou abaixo."