O jardim de Charles

Charles Elliott - O Estado de S.Paulo

Em Highgrove, o herdeiro do trono da Inglaterra exercita o cultivo orgânico

Pessoas comuns geralmente não são convidadas a Highgrove. Como muitas coisas associadas à realeza britânica, o lugar é totalmente privado. Lar do príncipe Charles e sua mulher, Camilla, foi nas cercanias da cidade de Tetbury que ele passou 26 anos criando o que deveria ser o mais belo jardim baseado em estritos princípios orgânicos. É preciso ser alguém muito especial, ou esperar pelo menos três anos para receber um convite em favor de sua organização de caridade ou clube de jardinagem, para cruzar seus portões.Mas o príncipe Charles é também um escritor, com um livro lançado sobre Highgrove, o que explica porque ofereceu a uma meia dúzia de jornalistas um tour pela propriedade. Eu estava deliciado em poder me juntar a eles, porque teria chance de aprender o que fazer com os fungos dos meus pés de batatas.O livro do príncipe, The Elements of Organic Gardening (Kales Press), escrito com Stephanie Donaldson, apresenta sua filosofia horticultural e a reforça com esplêndidas fotos, muitas tiradas por Charles e sua mulher. No todo, a obra é uma defesa do orgânico - sem pesticidas ou fertilizantes químicos - e um duradouro respeito por processos naturais, compostos e esterco de cavalo. Mas não é nada comparado ao argumento que representa Highgrove por si mesmo. No dia da visita, em agosto, via-se claramente que a propriedade não tinha sofrido com o verão úmido. Tudo estava verdejante.David Howard, o jardineiro-chefe - um homem áspero de 49 anos, com bigodes bem aparados e cabelo cortado à César -, mostrou-nos os jardins na ausência do príncipe (se ele não estivesse na Escócia em férias, não poderíamos ser recebidos; estranhos não podem visitar a propriedade quando o casal está na residência). Howard está em Highgrove há nove anos, período em que ocorreram as principais mudanças. E, por mais que ele enfatize que é o príncipe quem toma as decisões, parece ter intimidade com cada árvore, planta ou topiaria.Highgrove reúne uma série de 6 hectares de jardins separados, mais ou menos rodeando um pequeno e elegante palacete com balaustradas, construído por volta de 1790. Oito jardineiros trabalham em tempo integral sob as ordens do jardineiro-chefe. Poderiam parecer muitos, até alguém se dar conta da quantidade de trabalho envolvido. Apenas a topiaria, que compreende dezenas de formas que se estendem não apenas pela aléia ao longo da casa, mas se espalham por todos os lados - cones, espirais, cogumelos e até figuras geométricas platônicas e arquimedianas -, deve requerer centenas de horas de poda.E há o pomar, o herbário, o imenso Walled Garden, recheado de legumes, ervas e flores; os jardins Stumpery e Woodland, com todos os tipos de samambaias (incluindo da Austrália e Nova Zelândia), e muito mais. Tão pequenos e sofisticados quanto o murado Sundial Garden - plantado com sempre-vivas brancas e quase negras por Howard, que florescem por 10 meses -, ou o Azalea Walk - com bulbos sempre replantados e as clematis que dão o ano inteiro -, os jardins não podem cuidar de si mesmos. Até no Wildflower Meadow (prado de ervas selvagens) é preciso replantar 500 bulbos de jacintos-da-índia por ano.O príncipe Charles tem forte reputação de conservacionista e Highgrove foi projetada para ilustrar como isto funciona na prática. Daí a ênfase nas medidas antipoluição e desperdício, que se estende até a reciclagem da água por um sistema de purificação através de um leito de caniços e, naturalmente, na restrição ao uso de qualquer tipo de planta que resulte de engenharia genética.A imprensa britânica não tem sido simpática com Charles, reclamando, por exemplo, do dinheiro gasto nos jardins e outros de seus hobbies. Apesar disso, não se pode negar que Highgrove representa um caso brilhante de jardinagem orgânica, ou pelo menos de jardinagem de um modo mais simples e natural. Gostaria de dizer que aprendi um modo de me livrar dos fungos das minhas batatas, mas tudo o que Howard pôde sugerir foi o que eu já havia feito: cortar as pontas ao primeiro sinal, replantar as batatas e confiar em Deus.