O futuro das feiras internacionais de design e decoração

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Se na era pré-covid o que se escutava era que elas tinham se tornado grandes demais e que, de fato, era difícil encontrar algo novo, a questão agora é como e, principalmente, quando elas vão voltar a ser realizadas

Uma das portas de entrada do Salão do Móvel de Milão, o maior evento mundial do setor

Uma das portas de entrada do Salão do Móvel de Milão, o maior evento mundial do setor Foto: Salone del Mobile

As feiras internacionais de design anteriores à covid-19 eram eventos gigantescos e concorridos. Um ciclo quase ininterrupto de mostras que ocorriam durante todo o ano em cidades como Milão, Paris, Londres e Nova York, para citar apenas as sedes principais, irrigando as economias locais não apenas dos setores de design e decoração, mas, igualmente, dos de turismo, alimentação e hotelaria. Veio a pandemia e com ela tudo mudou.

Diante do bloqueio de entrada a vários países, das viagens internacionais restritas, a maioria delas acabou sendo cancelada (com prejuízos evidentes para todos os envolvidos), remarcada para 2021 ou ainda realizada em formato digital. Se na era pré-covid o que mais se escutava pelos corredores era que as feiras tinham se tornado grandes demais, dispendiosas demais e que, de fato, era difícil encontrar algo novo, a questão agora é bem outra. Diz respeito a como. E, principalmente, a quando elas vão acontecer.

“Eventos como estes não são apenas reuniões de negócios. São também ponto de encontro de talentos criativos de todo o mundo em busca de algo melhor. Assim, eles são vistos por quem os frequenta e também pelos moradores das cidades onde são realizados. Acho natural que a expectativa pela volta seja grande”, afirma um empresário paulistano do setor moveleiro, que há anos frequenta o Salão do Móvel de Milão, o maior evento internacional do setor, que este ano teve de ser cancelado devido à pandemia e foi remarcado, a princípio, para ocorrer entre 13 e 18 de abril, de 2021. Uma decisão dolorosa, com perdas de milhões de euros, se considerados o setor do móvel e as receitas decorrentes do transporte e acolhimento de cerca de 500 mil visitantes a cada edição.

“O Salone está confirmado para abril. Paralelamente, estamos trabalhando em uma plataforma digital. O caminho que decidimos seguir no próximo ano combina experiência virtual e feira física”, informa, de Milão, Marco Sabetta, diretor-geral do Salão do Móvel.

Recém-saída de uma edição digital, que surgiu em substituição à mostra de setembro, também cancelada, outra das grandes feiras europeias do setor, a Maison & Objet, realizada em Paris, acaba de cancelar sua próxima data, agendada para janeiro de 2021. No momento, estão sendo realizados estudos para uma exposição presencial em março, mas, por enquanto, nada está confirmado, além da realização da mostra virtual, que já foi reprogramada.

Segundo os organizadores, embora existam sinais encorajadores de que a pandemia está começando a diminuir, há muitas incertezas em relação às condições de viagem para expositores e visitantes, o que impede planejar uma edição nos moldes tradicionais. 

Presencial, online ou mista? Apesar de toda expectativa, ainda é cedo para afirmar qual será o formato das feiras a partir de 2021. Muito dependerá da oferta de uma vacina contra a covid-19 e da flexibilização das restrições a viagens. Mas, ao que tudo indica, inevitavelmente, vamos assistir a mudanças na forma como as pessoas operam e vivenciam as mostras. 

Em resumo, se, há não muito tempo, tudo girava em torno de identificar o melhor, em meio à superoferta mundial, vivemos hoje uma realidade bem diferente. Se ao menos pudermos conferir mostras ao vivo, já no próximo ano, será um grande alívio.

MARCELO LIMA É ARQUITETO E JORNALISTA