O estilo teatral de um mestre

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Tony Duquette viveu na Hollywood dos anos dourados e fez sucesso com seu décor extravagante

No fim dos anos 1940 e início dos 1950, enquanto o mundo internacional das artes tendia para o modernismo, a elite glamourosa de Hollywood, que, incólume, sobrevivera às dificuldades da guerra, mantinha-se fiel a uma estética de fantasia, brilho, pastiche e escapismo. Pois foi no auge desse ambiente de paraíso na Terra, de atores estrelados e festas extravagantes, que surgiu Tony Duquette, em 1941, aos 27 anos, com sorte, talento e atração por tudo o que fosse teatral e cenográfico.

Uma carreira de sucesso, cuja partida se deu num jantar, em Los Angeles, na casa de James Pendleton, para o qual Duquette não estava convidado, mas era o autor do impressionante centro de mesa neobarroco com figuras de gesso representando os quatro continentes e incrustado com vidros, joias e falsas pedrarias. Entre os presentes, a septuagenária Elsie de Wolfe, a famosa designer americana que acabara de deixar para trás uma Europa em guerra e a Paris onde vivia para se refugiar em Beverly Hills.

Encantada com a decoração da mesa, não só encomendou de Tony Duquette um móvel para a sua própria casa como o apresentou a quem pudesse, como ela, se deixar seduzir pelo charme e talento desse seu mais novo e jovem "protegé". Não demorou para que Tony passasse a ter como amigos e clientes os mais famosos personagens da então chamada realeza americana: Elizabeth Arden, Doris Duke, Vincente Minnelli, Herb Alpert, Gloria Swanson, Greta Garbo e Mary Pickford.

Para a casa do ator James Coburn fez um extraordinário décor baseado no orientalismo. Instalou no salão uma gigantesca lanterna chinesa e a ela adicionou terminações e objetos curiosos. Uma enorme ave do paraíso entalhada e policromada, vigas no teto incrustadas de conchas ou braçadeiras de cortinas feitas com espremedores de limão podiam tranquilamente fazer parte de um décor Tony Duquette.

INSPIRAÇÃO NO ANTIGO

Inspirava-se em Veneza, no barroco, na arquitetura renascentista, nas lendas do Rei Arthur, no cinema antigo. Fantasiava clientes imaginários e piamente acreditava que insetos tinham estilo. Em seu estúdio em West Hollywood, recebia os clientes e amigos para belas, alegres e sofisticadas festas temáticas e à fantasia. Sem parar, caíam-lhe do céu pedidos para criar sets de filmagens, costumes, cenários para musicais e até mesmo joias para a Duquesa de Windsor e "altos" costureiros como Gucci e Balmain. Tony Duquette ganhou individuais de seus trabalhos em diversos museus nos Estados Unidos e, por obra e graça de Elsie de Wolfe - ou Lady Mendl, como ele a chamava -, chegou a expor no Louvre, em 1951, um ano após sua morte. Esse papel de "madre protetora" por ela até então exercido foi em seguida assumido por outra cliente e admiradora, a milionária americana Cobina Wright.

Tony Duquette foi homem de sorte também no casamento. Num Valentine Day, em 1949, levou ao altar a aluna e artista plástica Elizabeth Johnstone, uma geminiana como ele. Apelidou-a Beegle, pois teria o traço poético da águia e a capacidade criativa de uma abelha. Era o início de uma afinada parceria que durou 40 anos, e de uma vida a dois em diferentes propriedades sempre decoradas de forma extravagante. Nas suas próprias casas, era onde mais ousava, permitia-se o inimaginável e se superava, aproveitando e reciclando tudo o que sobrava dos sets e cenários que criava. Gostava de usar e abusar da malaquita, dos corais, chifres, conchas e peles de animal. Nenhuma superfície ficaria sem revestimento. Ou qualquer canto intocado ou sem o brilho de sua imaginação. Era um comprador voraz. Costumava dizer que fazia apenas "desencavar" o que estava perdido em baús e porões.

Apesar de morar no sul da Califórnia, de possuir um rancho em Malibu e uma pequena casa com paredes verde-escuro e revestidas de treliça branca no bairro de Neuilly-sur-Seine, na Grande Paris, o casal não hesitou em adquirir uma segunda residência, vitoriana, em São Francisco, onde passava boa parte do tempo. A entrada ganhou forma de gruta e elementos asiáticos foram adicionados e se somaram às janelas com vidro Tiffany soprado e colorido, tão típicas do estilo vitoriano made in USA no século 19. Para os jardins, criou belos pavilhões que um incêndio destruiria em 1989 e que o decorador, sem se deixar intimidar, reconstruiu sob um novo e mais extravagante décor.

Tony Duquette morreu em 1999, aos 85 anos. De alma leve, sem dor ou medo. Do mesmo modo como sempre viveu, com a clara consciência de que a vida de suas decorações, tal como a dos sonhos e das fantasias, não haveria de ser eterna. Foi-se do cenário terrestre deixando aos aficionados do décor a lição de que

"decorar não é uma tarefa de superfície, é um impulso espiritual inato e primordial".

ESTILO DIVINO

Sorte para nós e para a história do décor que seu sócio de mais de 30 anos, Hutton Wilkinson, fiel guardião dos arquivos, das casas e dos pertences do casal, tratou, com Wendy Goodman, de produzir o livro Tony Duquette, a Strange Eden, que não só nos mostra, com belas fotografias, as extravagâncias criadas por Duquette ao longo da vida como nos conta a história, desde a infância, desse Merlin do mundo estrelado do design. Um dos trechos: " Tony era um ingênuo e dono de um estilo divino. Era capaz de, em poucos segundos, transformar completamente a paisagem à nossa frente".

Lendo o livro, ficamos sabendo que um tio-bisavô de Tony foi sócio de William Morris, famoso pintor e um dos principais fundadores do Movimento das Artes e Ofícios britânico, em Londres, no século 19. Que sua família tinha inclinações musicais; que seus pais nunca se opuseram ao jeitão excêntrico do filho e, bem ao contrário, sempre estimularam os dotes teatrais manifestados, ainda criança, na montagem de pequenos shows de marionetes. Foi inclusive uma iniciativa do pai conseguir um primeiro encontro do filho com William Haines, o ator que virou designer, já foi tema desta coluna e é considerado o grande precursor desse décor hollywoodiano do qual Tony Duquette seria um de seus maiores expoentes. (http://www.mariaignezbarbosa.com).