Novo luxo para todos

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

A busca de uma existência mais simples invade a casa e traz um valor essencial: o ser em lugar do ter em lugar do ter

Você pode não ter notado, mas provavelmente seu comportamento em relação à casa - e à vida - passa por uma revolução. É o que indicam empresas de estudo de tendências. O fenômeno mundial tem nome: novo luxo. Seria, em última instância, a busca de uma existência mais simples e, portanto, menos ostentatória. "O valor de um móvel ou acessório fashion, hoje, tem mais a ver com o significado embutido nele que com a quantidade de dinheiro gasto", afirma Andrea Bisker, diretora da WGSN (um site de pesquisa de tendências) na América do Sul. Conforto, personalização, sustentabilidade, memória e sensorialismo também contam nesse ninho particular. Para Sabina Deweik, representante da Future Concept Lab no Brasil, não se trata só de uma onda. "É alteração de valores, e em plena transição."

Fatores sócios-econômicos, por exemplo, podem explicar a mudança. É o caso da globalização ou da informação democratizada pela tecnologia, responsável por levar a um maior número de consumidores conteúdos antes restritos. Questões ambientais também são relevantes, incentivando a postura ecofriendly. Sem contar as guerras e a crise, que pedem acolhimento.

Além de uma expressão essencial, há outros vetores para a vivência doméstica nos próximos anos. As especialistas, além do arquiteto René Fernandes Filho, da designer Baba Vacaro e do decorador Fábio Galeazzo, comentam os dez fundamentos do lar em mutação.

 

 

1 - Quando as velharias familiares assumem seu lado vintage

Todo mundo tem história. Trazê-las para casa por meio de fotos, presentes, lembranças de lugares conhecidos ou ícones religiosos torna-se porto seguro emocional. Quem há de repetir um repertório tão pessoal? A preferência por marcas e produtos velhos conhecidos, que transmitem segurança, também tem a ver com esse fundamento. O mesmo ocorre com a adoção do vintage. É comum ver donos de uma peça assim gostarem dela porque, por exemplo, lembra a casa de uma tia. E mais: "Referências ao passado interferem no design de hoje, que não deixa de lado uma visão de futuro", constata Baba Vacaro.

(Luminária anos 50, da Filter)

 

 

 

2 - Seu estilo está acima de qualquer coisa (até do vizinho de cima)

Em meio a tanta informação, podemos, às vezes, esquecer quem realmente somos. Pouco importa se o vizinho ou um amigo compraram uma máscara étnica. Se seu jeito é eminentemente urbano, essa peça pode ter pouco significado para você. Descobrir do que se gosta e apostar nisso dá personalidade aos ambientes. Bom é perceber que ninguém é uma coisa só, que isso interessa, mas também aquilo. "A decoração e, se possível, a arquitetura, têm de ser pensadas sob medida para os moradores, fugindo de modismos", opina René Fernandes Filho. (Cadeado de Adriana Barra, da Papaiz, à venda no Pão de Açúcar)

 

 

3 - Quantos metros quadrados tem sua criatividade?

Quem mora em um lugar pequeno sabe quanto os espaços tendem cada vez mais a ter multiuso, daí a necessidade de móveis versáteis. "É a flexibilização", conceitua Sabina. A mesa da sala de jantar, por exemplo, vira local de estudo ou um pequeno escritório fica no living. Os integrantes de uma família que vive em locais maiores podem querer fazer cada qual uma atividade compartilhando a mesma parte da casa. Não existe regra. Esse contexto também se abre à criatividade, refletida na customização - ao melhor estilo faça-você-mesmo ou não -, que resulta em peças exclusivas.

 

(Tapete de sisal do Empório Beraldin)

 

 

4 - A importância de ser sustentável

"Sustentabilidade não é tendência, é emergência", afirma Sabina. Não dá mais para passar batido pelo desmatamento, a escassez de água, a poluição. O mínimo a fazer é reciclar o lixo, preferir produtos com embalagens renováveis e certificar-se de que a madeira empregada no móvel que se vai comprar teve extração ecologicamente correta. E nada de, quando trocar a decoração, se livrar de tudo. Quase sempre dá para reutilizar móveis, como um sofá que renasce com outro revestimento. Mais uma ideia é dar outra função a determinado item: o banquinho da cozinha, com o visual turbinado, pode virar mesa de apoio na sala. (Mesa lateral Quadra, de fibra de coco polido, do Empório Beraldin)

 

 

 

5 - Ostentando solidariedade, em vez de logomarcas

Vale optar só pelo necessário, mas com peças confortáveis e de qualidade, algumas das quais marcadas pela simplificação da estética. "Mesmo que sejam caras, o padrão de compra atual não reflete - ou não aparenta refletir - o status sócio-econômico do consumidor", diz Andrea Bisker. O luxo é percebido por quem conhece, sem necessidade de ostentar logomarcas. Se o valor está no conteúdo, importa mais saber se determinado móvel foi feito por uma ONG que trabalha com comunidades carentes do que o preço pago por ele. (Mi Ming Chair, de Philippe Starck, à venda na Micasa)

 

 

 

6 - É hora de ser mais ‘glocal’

A globalização, em vez de tudo pasteurizar, tem tido efeito reverso: a produção de regiões antes relegadas, o Brasil inclusive, ganha evidência porque se torna mais conhecida. Tão grande é o mundo e nele há tantas expressões culturais que vale a pena notar o que é genuíno em outros países, mas também nas demais regiões brasileiras. "O Brasil é multicultural por natureza", diz Baba Vacaro. Por isso, se for viajar para dentro ou fora do país, fique de olho: você pode trazer para a casa coisas bem legais, que nem sempre são encontradas em lojas de grandes centros. É o "glocal", que contribui para a não estandardização dos ambientes. (Almofada Elefant, do Empório Beraldin)

 

 

 

 

7 - Conviver é palavra-chave

Outro viés é ficar mais em casa, mas não enclausurado. À parte questões de segurança, importa mesmo é interagir com a família e os amigos para além da mesa de um restaurante estrelado - programa que pode ser, diga-se, mais barato. A cozinha deixa de ser mera área de serviço e integra-se ao setor social, virando centro das atenções. É um prato cheio para anfitriões e convidados relaxarem ao preparar a comida juntos. Há ainda entretenimentos como assistir a um bom filme, ouvir música ou navegar pela internet. "Em países como Brasil, Argentina e França, três quartos das pessoas se divertem em casa", aponta Andrea Bisker. (Mesa Camelo, com base de imbuia e tampo de vidro, da Dpot)

 

 

 

8 - Faça da tecnologia uma aliada

Os avanços tecnológicos aos poucos incorporados ao lar oferecem bem-estar, segurança e economia. Quem adora ver TV pode comprar um modelo enorme de LCD. Se a questão é segurança, câmeras cuja imagem têm acesso remoto ajudam. Dá até para gastar menos energia com sensores de presença que acendem e apagam as luzes automaticamente. São exemplos bem básicos do que o high tech pode oferecer. Algumas surpresas da automação residencial podem ser úteis a sua realidade. Do ponto de vista do design, surgem materiais tecnológicos, mas assemelhados aos artesanais. "É como se fosse uma tecnologia escondida", explica Baba Vacaro. (Batedeira Stand Mixer, da Kitchenaid)

 

 

 

 

9 - Traga a arte, a natureza e o artesanal para a intimidade

Obras de arte permitem fruição estética. Não precisa nem ter um Picasso: toy art e grafite são exemplos de manifestações artísticas contemporâneas mais acessíveis. "Esta última veio das ruas para a casa, o que sinaliza uma contaminação de mão dupla entre urbano e doméstico", argumenta Sabina Deweik. O verde faz a gente escapar do caos da cidade. Se não tem jardim, flores de corte ajudam. E o carinho dos bichos, então? Por outro lado, escolher o artesanal pode evocar técnicas a que nossas avós se dedicavam, como o bordado. Parece haver algo de redentor nisso. (Vaso de polipropileno com fícus, na A Estufa).

 

 

 

 

10 - Minha casa é meu lugar no mundo

Quando se está em casa - de homewear, claro -, é preciso aproveitar o tempo, cada vez mais escasso. Vale equipar-se para, nessas horas, poder fazer bonito e de maneira prática algo que é pura curtição. Não vive sem café? Talvez seja o caso de investir em uma cafeteira poderosa. "São os prazeres cotidianos", explica Fábio Galeazzo. O sensorialismo também conta. O cheiro bom de um perfume para ambientes ou de uma planta pode ser estimulante tanto quanto o toque macio de uma almofada ou a luz de velas. Despertar os cinco sentidos de maneira particular é que vai criar aquela sensação boa, após um dia de trabalho, de chegar em casa. Em casa, não. No seu ninho. (Xícara de chá da Cecília Dale)