Novo jeito de exibir

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Na esteira dos produtores italianos, lojas brasileiras adotam abordagem sensorial nos showrooms

Você entra em um espaço que representa uma noite de tempestade. A entrada é tensa e dramática: é o local onde se assiste o despertar da vida. Em seguida, depois da chuva, atravessa-se uma espécie de portal e a noite se abre para o dia - claro e luminoso, em meio ao frescor da natureza. Assim o designer holandês Tord Boontje, autor de The Little Wild Garden of Love, descreve a instalação que transformou o showroom da Moroso, em Milão, em um luxuriante jardim tropical, em abril último. Insuperáveis na manipulação das poderosas técnicas do allestimento - que, no mundo do design, refere-se não apenas ao projeto, mas também a todas as dimensões perceptíveis do espaço expositivo -, os produtores italianos, há muito conscientes do diferencial que a cenografia pode fazer aos olhos do consumidor, não se cansam de inebriar o mundo com montagens que a cada ano encantam o público da Semana do Design de Milão.Ao que parece, no entanto, veicular produtos hoje pressupõe bem mais do que simplesmente apresentar as coleções de maneira atraente e contextualizada: é preciso proporcionar aos clientes uma experiência sensorial ampliada - e sem intermediários - com seus objetos de desejo. Sejam eles poltronas, sofás, tapetes ou simples almofadas. Espécie de "bola da vez" entre os empresários de lá, a aborda-gem plurisensorial dos pontos de venda, lojas e showrooms já começa a fazer escola por aqui. "Tocar os produtos é um gesto espontâneo de nossos clientes. Não por acaso, é um dos principais fatores que levamos em conta na hora de expor nossas peças", revela Zeco Beraldin, do Empório Beraldin, ao comentar a disposição de sua nova coleção, In-Fluências - móveis e acessórios em fibras naturais e peles, que têm no apelo tátil um de seus pontos altos. Logo na entrada da loja, por exemplo, pastilhas de cabaça surgem como revestimento para paredes, ao lado de painéis de videira, refugo de plantações de uva que foram apenas submetidos a tratamento antipragas. Bandejas em osso tingido completam a coleção, que traz ainda cadeira em crochê de Eulália de Souza e tapete de pele bovina com relevo gravado a laser. "Sempre se pergunta como as grandes marcas internacionais acabam por ditar tendências. Para mim, é alto investimento no desenvolvimento de produtos e altas doses de experimentalismo", diz Rafael Lettiére, diretor da Avanti, produtora de tapetes e carpetes que acaba de inaugurar uma ala em seu showroom voltada às modalidades alternativas de apresentação.Para a exposição inaugural, a Avanti apresenta - com curadoria da designer Baba Vacaro e cenografia de José Martone - a instalação "5ª Estação", que introduz um novo tipo de revestimento num ambiente que intensifica as possibilidades de interação com o produto. "Muito mais do que ver, aqui nos sentimos livres para tocar, experimentar... ", diz Baba. Partindo da coleção de carpetes "Natureza Urbana", a montagem apresenta as quatro estações em um percurso que começa no inverno, repleto de branco, e se encerra diante das cores quentes da primavera. Ao longo dos ambientes, os tapetes assumem diferentes personalidades para se ajustar a cada época do ano. "A 5ª Estação é resultado do impacto vivenciado no conjunto. Para isso, procuramos estimular os sentidos por meio de diversas nuances de textura e cor", realça a designer.Já Lettiére avalia: "Em qualquer composição, questões técnicas, mas também intuitivas, devem ser levadas em consideração. Uma não deve anular a outra, e sim complementá-la". E acrescenta: "As sensações proporcionadas pela exposição ampliam os horizontes de uso dos tapetes, que podem passar assim de coadjuvantes a personagens principais da decoração." (marcelo.lima.antena@estadao.com.br)