Novo estilo de morar

Marcelo Lima, marcelo.lima.antena@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Referência no universo do design, a mostra Abitare Il Tempo exalta objetos eficientes e de desenho limpo

A mostra Abitare Il Tempo, que acontece anualmente em Verona, durante o segundo semestre, é muito provavelmente a mais completa síntese do estilo italiano de morar. Apresentando móveis, acessórios e equipamentos de forma contextualizada - tal como estariam dispostos no espaço doméstico -, a mostra do Vêneto vem se firmando, a cada edição, como importante referencial para arquitetos e designers de interiores de todo o mundo. Qual seria, então, o cenário ideal para representar o atual viver italiano aplicado aos interiores domésticos? A julgar pelo que foi apresentado em setembro último, do ponto de vista conceitual ele é definitivamente avesso a qualquer excesso. Do estético? Arejado, claro e esparsamente mobiliado. "Daí a importância de se contar com móveis e objetos cada vez mais eficientes", diz Ana Maria Vigilante, diretora da feira. Caso, por exemplo, da área do banho, onde os lançamentos apontam para móveis e equipamentos preciosos em seu desenho - e turbinados no seu desempenho. Tratado com o mesmo cuidado dispensado ao desenho de móveis, os lavatórios e gabinetes se transformam em atração à parte no contexto da casa, tanto pela beleza aerodinâmica de suas formas, como pela precisão de acabamento. Na matriz das transformações, o uso de resinas sintéticas ainda mais aprimoradas. Materiais de última geração, capazes de produzir peças em formatos quadrados ou retangulares, mas sem arestas internas visíveis - um componente que, além de permitir maior versatilidade nos formatos dos gabinetes (em geral octogonal), oferece melhores condições de limpeza, evitando a proliferação de bactérias. Sinal dos tempos, a consciência ambiental acabou por se tornar estímulo aos designers. Mais do que bem-vinda, a natureza volta a integrar os interiores da casa, mas, desta vez, não por meio da presença explícita de plantas e flores, escalando paredes, mas sim da delicadeza de armários que incorporam às portas finas lâminas magnéticas, revestidas de madeira e pedra. "Trata-se de um novo olhar para o natural, não aquele que se preocupa apenas em reproduzir a natureza, mas também que possibilita a intervenção do morador", explica Luciano Biscontin, diretor da Pressotto, empresa especializada na construção de armários e estantes ao apresentar a nova coleção de produtos, onde portas e painéis ganham revestimentos de lâminas removíveis, permitindo múltiplas combinações entre os materiais. A atmosfera comedida, quase austera de Verona 2008, ainda se revela na eliminação dos excessos de brilho e de reflexos na montagem dos ambientes, além do uso parcimonioso da cor - elemento-chave, por certo, mas que nos atuais projetos aparece de forma apenas pontual, sobretudo em móveis como sofás e poltronas, onde funcionam como contraponto à neutralidade quase total dos atuais revestimentos. Lançando mão da criatividade como antídoto contra a crise, no campo dos acessórios, a aposta se faz também notar nos objetos de matriz étnica: não apresentados de forma literal, mas sim como pretexto para novas experiências estéticas. Algo perceptível - ou apenas insinuado -, por exemplo, na coleção de vasos plásticos da Memento: objetos de formulação simples, mas capazes de imprimir vigor e autenticidade aos interiores.