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Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Derrubada por questões de segurança, árvore da fazenda do avô do designer inglês Max Lamb dá origem a coleção de móveis

O designer inglês Max Lamb na Somerset House, em Londres

O designer inglês Max Lamb na Somerset House, em Londres Foto: Divulgação

É consenso geral que o pós-vida de uma árvore de grande porte, esteja ela onde estiver, não costuma ser tão glorioso quanto seus dias de existência. De tão altos, os custos envolvidos em seu corte e transporte, na maior parte dos casos, acabam por inviabilizar qualquer tipo de aproveitamento posterior. 

Via de regra, após cada derrubada, tronco e galhos são reduzidos a toras que, quando secos o suficiente, acabam sendo simplesmente queimados. Um final não totalmente inútil, por certo. Mas rápido e triste demais para essas verdadeiras estruturas de madeira, milimetricamente desenhadas pela natureza. 

“Ainda mais quando a árvore em questão te acompanhou por toda a sua vida”, diz o designer inglês Max Lamb. “Passei a maioria das férias à sombra daquele freixo, que dominava a paisagem na fazenda de meu avô. Quando ele morreu e começou a apodrecer, em 2008, fiquei realmente muito triste. E achei mais do que justo tentar lhe oferecer uma sobrevida.”

Nascia assim My Grandfather’s Tree (em português, árvore do meu avô), um projeto de sete anos em que Lamb se empenhou para preservar – e prolongar – o legado do gigantesco freixo, que por quase dois séculos reinou soberano na Monckton Walk, fazenda onde seu avô ainda vive, em North Newbald, em Yorkshire. “Com seus 187 anéis de crescimento claramente visíveis em seu interior, me pareceu que aquele tronco era precioso demais para ser descartado”, afirma.

Segundo o designer, a árvore era de fato tão grande que em dias claros podia ser avistada a quilômetros de distância da localidade. Infelizmente, sua idade começou a pesar e após sua morte constatada grande parte de seus galhos começou a apodrecer. “Para não colocar em risco a segurança de meu avô, nem das casas ao redor, não tivemos outra opção a não ser derrubá-la”, conta o designer, que de imediato contemplou a ideia de aproveitar os resíduos do corte.

Isso, no entender de Lamb, desde que a identidade da árvore fosse preservada. “Quando você lapida um tronco em uma serraria para dar origem a uma mesa, banco ou cadeira, sua idade já não pode mais ser lida. A madeira pode até ter sido preservada, mas a história da árvore desapareceu sem deixar maiores vestígios, levando muito de seu valor. Mesmo que os veios permaneçam, trata-se agora apenas de um pedaço de madeira. Não de um pedaço de árvore”, considera.

Sendo assim, ao pensar em reaproveitar o material na construção de móveis, a ideia de serrar troncos e galhos preservando a conformação natural de cada trecho deles se tornou uma obsessão para o designer. “Eu queria obter seções de tora que pudessem originar móveis, mas desde que eu interferisse o mínimo possível em seus formatos. A ponto de que se elas fossem reagrupadas pudessem reconstituir a totalidade da árvore. Sem perdas.”

Feito, aliás, que ele admite só ter transformado em realidade a partir da efetiva colaboração do amigo apaixonado pelo universo natural e especializado em manejo florestal Jon Turnbull, junto a quem ele dissecou o desenho da secular árvore, de cima a baixo.

“Aprender por meio de parceria é a essência do que faço”, comenta Lamb, um híbrido muito contemporâneo de designer e artesão, que ao longo de toda sua carreira, iniciada no Royal College de Londres, vem trabalhado materiais em estado bruto, como pedra, cerâmica e metal. Sempre em estreita colaboração com outros profissionais. “Turnbull me ajudou a compreender a essência do material que eu tinha em mãos. Ele me mostrou como tratar de maneira respeitosa cada ramo, bifurcação ou nó”, relata Lamb.

E foi assim que, como em um conto de fadas com final feliz, o secular freixo, outrora enraizado na fazenda do avô do designer inglês, ganhou uma segunda chance. E muito mais: uma nova vida, uma nova função e, surpreendentemente, um novo endereço. No caso, em uma espécie de caverna, situada no subsolo da imponente Somerset House, centro cultural em Londres, onde ele reapareceu, na última edição do London Design Festival, em setembro do ano passado, no formato de uma coleção de móveis poeticamente concebidos e naturalmente recortados por Lamb, sob patrocínio da galeria britânica Fumi.

Trata-se de um conjunto de 131 peças – todas assinadas e com seus anéis de crescimento claramente visíveis – nas quais a árvore que coloriu os sonhos de infância do designer revive na forma de mesas, bancos e cadeiras. “Procurei processar cada pedaço o mínimo possível, basicamente para criar uma base de apoio e outra para nivelar a peça em relação ao solo. Tudo o que eu queria era que a árvore permanecesse parte integrante dos móveis. Felizmente, acho que cheguei lá”, comemora, com propriedade, Lamb.