No universo da fábula

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

O design também pode ser exagerado, fantástico e fora de escala, como propôs Lewis Carroll em ‘Alice no País das Maravilhas’

Pobre Alice, lutando em vão para encontrar algum sentido naquele país, onde, ao que tudo indica, qualquer padrão lógico parece ter sido banido para sempre. "Eu não quero me envolver com gente maluca", pontua ela. "Mas não há o que fazer! Nós somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca", retruca o Gato, um dos mais populares personagens da célebre fábula de Lewis Carroll, revisitada agora, em três dimensões, pelo cineasta americano Tim Burton.

 

Mais uma vez, portanto, que ninguém ouse buscar algum tipo de ordem nesse mundo fantástico onde reina a desproporção, o nonsense, o ilusório. Que ninguém ignore o poder das alegorias presentes nos detalhes mais óbvios. Mas, também, que ninguém menospreze o potencial design do universo de Carroll. A começar pela evidente falta de proporção da personagem central em relação aos objetos que a cercam - fator que os faz ainda mais presentes e enigmáticos.

 

"Por que não se pensar em algo fabuloso?", desafia o designer holandês Marcel Wanders, adepto incondicional do cenário fora de medida proposto pelo livro. Que o diga, por exemplo, Wonder Wanders (Maravilhoso Wanders), mostra que reuniu sua coleção inédita de abajures, com altura média de módicos 2,5 metros. "O número de pessoas que aprecia design está crescendo exponencialmente e sinto que existe hoje uma real necessidade por objetos espetaculares, fantásticos", arrisca.

 

O design exige detalhamento, parcimônia no uso dos materiais, precisão de medidas. Eventuais erros de julgamento rapidamente são convertidos em situações embaraçosas ou, pior, em pesados prejuízos financeiros. Nada disso, no entanto, se aplica às criações de Wanders. Exageradas, fora de escala, por vezes decoradas demais. Tal qual as criaturas que habitam o País das Maravilhas, para ele os excessos se tornam norma. E todas as regras anteriores se foram. Como o sorriso sem o Gato.

 

Na contramão de tudo o que se convencionou como correto no mundo do design, é curioso notar que alguns projetos recentemente apresentados por ele (assim como por Tord Boontje, Tom Dixon e Philippe Starck) teriam tudo para figurar, com brilho, nos extravagantes cenários imaginados por Burton. E ele parece não ser o único interessado nesse tipo de produção.

 

Outra perspectiva. "Esse tipo de móvel, tanto o produzido por gigantes como Moooi, Cappellini ou Kartell, como fabricados em edições limitadas, parte de coisas que você já conhece: um material, um padrão decorativo, uma forma. Mas sempre trazem algo de novo", explica a decoradora Neza Cesar, que, toda vez que o orçamento permite, incorpora peças menos convencionais a seus projetos. "Elas obrigam você a olhar ao redor sob outra perspectiva", afirma.

 

Mentor de toda uma geração de designers que, como a heroína de Carroll, não teme se aventurar no outro lado do espelho, o italiano Gaetano Pesce nutre, há décadas, uma notória aversão a padrões abstratos de expressão. Sua mais recente coleção, por exemplo, a série Gli Amici, para a Meritalia, apresentada no ano passado no Salão do Móvel de Milão, investe no potencial narrativo do design, ao apresentar uma família completa de animais e pessoas metamorfoseada em módulos estofados.

 

"Em um mundo inundado de imagens como o nosso, é inútil tentar se expressar por meio de abstrações geométricas", provoca ele, que traz entre suas criações os sofás Boca e Pé, reproduzindo partes do corpo humano com resina. Criados entre os anos 60 e 70, período de intensa produção do designer, os inusitados móveis assinalam também a fase áurea da Gufram, empresa que liderou a vanguarda do design italiano da época, editando clássicos como os bancos Capitello e o Siedi Tee.

 

"Goste-se ou não dessas peças, o que não dá é para ficar indiferente a elas", afirma Neza, para quem uma certa desproporção e a possibilidade de permanente transformação - duas características enfatizadas pelo imaginário de Alice no País das Maravilhas - são qualidades mais do que bem-vindas no espaço doméstico. "Eles causam uma confusão agradável na casa. Vale a pena arriscar", aconselha a decoradora.

 

marcelo.lima.antena@estadao.com.br