Natureza pessoal e criativa

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Os jardins impressionam: hortas de mesa e palmeiras convivem com espaços feitos com resíduos

Antes, os jardins eram aqueles espaços, na entrada ou nos fundos das casas, com roseiras, pequenos arbustos, alguns vasinhos e um banco para sentar-se nos melancólicos fins de tarde. O conceito mudou e, hoje, projetos para eles ganham cada vez mais sofisticação. Viraram locais para descansar, dar festas, passar o dia com a família, colecionar espécies ou simplesmente contemplar a natureza. A imaginação dos paisagistas não tem limites.

 

Roberto Riscala, por exemplo, na sua 18ª participação na Casa Cor, imaginou uma área de convívio em que a grande vedete é a mesa de teca maciça, de 2,60 m de comprimento por 1,20 m de largura, desenhada por ele, onde a comida já vem plantada. Nas duas extremidades e no centro, ele colocou floreiras com alfaces, nabos, cenourinhas e temperos. No meio, passa um riozinho, que deságua em um espelho d’água.

 

"A pessoa pode fazer sua salada ali mesmo", justifica o paisagista, que escolheu cadeiras de fibra da Armando Cerello para os convidados. No pátio central, com piso Solarium para áreas externas, bases elevadas sustentam vasos (da Jardi) que parecem tonéis de vinho e nos quais estão colocadas uvas. Fácil de cuidar, o jardim de formas geométricas tem topiaria moderna, murtas, gardênias, azáleas, viburnos e capins de coloração variadas nas bordas. "Não é um jardim de contemplação, mas para a família toda usar. Dá para andar descalço, relaxar no spa, comer e até namorar na cama da Tidelli de 2 metros por 2."

 

Um conceito totalmente diverso foi pensado por Ricardo Pessuto no seu Jardim do Colecionador, na entrada do prédio da Casa Cor. No espaço retangular de 350 m², o paisagista distribuiu 80 palmeiras de 17 espécies e tamanhos diferentes, vindas da produtora Palmeiras & Co, de Louveira. A fachada, toda revestida com réguas de jatobá, ganha destaque com os dois painéis de cerâmica de cor e formas diferentes. "É um desenho anos 60. Me inspirei em Burle Marx", diz.

 

Mosaicos portugueses formam os caminhos entre as palmeiras (de 80 cm até 4,5 m) plantadas no piso ou colocadas em floreiras. "São espécies exóticas e nativas, que aparecem também em cachepôs nas janelas", conta ele.

 

Pessuto ainda colocou no espaço esculturas de Bia Doria e da Galeria Nova André, inclusive dentro do espelho d’água onde nadam carpas (da Ecovale) de até R$ 15 mil.

 

Espaço em L. Mais tradicional, Daniela Sedo concebeu em 500 m² o Jardim do Bosque. Dani dividiu a área em duas partes: uma para os anfitriões receberem os convidados, com móveis sob as copas das árvores, e outra com paisagismo voltado para residências. "Meu espaço faz um L, o que facilitou as divisões", diz ela, que espalhou 30 vasos (da Simon Vasos) de pó de quartzo com diversas espécies - de palmeiras a minigardênias, renda portuguesa e ninfeas. Há ainda viburno, murta, buxinhos e gardênias topiados. Não faltaram espelho d’água iluminado, mesa de apoio, duas hortas e churrasqueira. "A salada para comer com o churrasco já está à mão", brinca.

 

Já as frutas estão no jardim do mesmo nome, de Silvia Figueiró. "Aqui no Jockey já tinha amoreira e mangueira e o que fiz foi tentar criar em 120 m² um espaço em que o grande mote é a sustentabilidade", explica. Silvia foi buscar materiais em aterros e brechós. Conseguiu tijolos usados, fez o piso com entulho triturado, montou um painel com refugos de cerâmica e espelhos e fez uma escultura com um pedaço de ferro encontrado no lixo. A madeira que aparece no jardim (deck e bancos) é de reflorestamento e junto aos guaimbês e costelas-de-adão estão cascas de vários tipos de castanhas.

 

Quem termina a visita à Casa Cor vai poder descansar no Jardim dos Encontros, de Mônica Rio Verde. "Quis fazer um lugar para uma pausa", avisa. A paisagista dividiu seus 96 m² em três ambientes de estar, para conversar e relaxar antes de ir embora. Pensando nas noites frias, colocou lareira, deck de madeira, poltronas e futon. Oito vasos da L’Oeil foram espalhados por ali e três bacias vietnamitas guardam orquídeas brancas. "É algo delicado. Um lugar para não ser esquecido", espera.

 

 

 

Entulho triturado virou piso no Jardim das Frutas, de Silvia Figueiró, onde quase tudo veio de um aterro. À dir., vasos em forma de tonéis de vinho no Jardim da Família, de Roberto Riscala