Namoro que vem de longe

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

A estética e a cultura dos franceses sempre encantaram os brasileiros. E eles foram seduzidos pelo nosso país

Na nossa cabeça, chique e refinado era ser francês. Até os Estados Unidos chegarem, no fim da 2ª Guerra, para se impor e espalhar pelo mundo o seu american way of life, havia sido a França e sua cultura a nos ditar as regras em matéria de estética e costumes. País que, por sua vez, nos admirava, pois os franceses, que nos consideravam exóticos, sempre se deixaram seduzir por nossas riquezas naturais e por nosso povo, que veem como musical, sensual e colorido.

É bem pretérito esse namoro entre as duas culturas. Mais do que qualquer artista português, à época do descobrimento e, mais tarde, durante o Império, os pintores viajantes franceses se interessaram em retratar o Brasil. Vide Debret, Taunay e tantos outros. A família real portuguesa, quando aqui chegou fugida, trouxe hábitos e costumes franceses. Francesa era a língua diplomática, a da gastronomia, a da cultura e a da moda. Como se pode perceber na exposição Palavras sem Fronteiras, baseada no livro de mesmo nome de Sérgio Corrêa da Costa, aberta até o dia 14 de junho no Museu da Língua Portuguesa, nesses velhos idos já era comum entremearmos a fala com expressões e palavras francesas como rendez-vous, croissants, brioches, mille-feuilles, bechamel e coq au vin.

Muitos dos nomes de edifícios de apartamentos no Rio de Janeiro e São Paulo eram franceses. O paulista Bretagne já foi louvado na revista Wallpaper. O belo Biarritz, prédio déco dos anos 40, ainda hoje impõe sua elegância na Praia do Flamengo, no Rio. É de autoria de um arquiteto francês, Henri Sajou, que usou a mesma planta de um edifício que havia feito na Avenue Montaigne, em Paris. Outro bem conhecido é o Chopin, projeto do francês radicado no Brasil Jacques Pilon, situado ao lado do Hotel Copacabana Palace, que, por sua vez, é de outro francês, o neoclássico Joseph Gire. Isso sem falar na influência sobre nossa arquitetura do famoso Grandjean de Montigny na época do Império e, mais tarde, na de Le Corbusier, no período modernista.

Inúmeros fotógrafos franceses deixaram belos retratos de nossas paisagens urbanas. Um foi Pierre Verger, que na década de 40 fotografou o Vale do Anhangabaú e o Viaduto do Chá, obra do francês Jules Martin; o outro, Jean Mazon, que clicou o país de norte a sul, nos anos 50.

Por outro lado, encantado com a França, o prefeito Francisco Pereira Passos, que estudou em Paris, quis não só copiar no Rio de Janeiro o Boulevard Haussman como fazer do Campo de Santana um Bois de Boulogne. Teria havido mesmo um sonho, nessa época, de se fazer do Rio uma Paris à beira-mar.

Há quem ainda se lembre da passagem de Charlotte Perriand pelo Brasil quando o marido representava a Air France no Rio de Janeiro. Os móveis que projetou para o apartamento carioca, de jacarandá e palhinha, são hoje peças de museu e foram comercializados a peso de ouro por sua filha na França.

E há também quem possa nos contar, como o marchand de antiguidades Jan Schultz, sobre Madame Journelle, a francesa que havia sido sócia, em Paris, de Pierre Balmain e que nos anos 40 e 50 tinha uma loja de decoração atrás do Copabacana Palace. Ali eram vendidos lindos biombos feitos com lombadas de livros encadernados, móveis laqueados com estampas e luminárias com abacaxis e ramas de trigo em metal. Quem quiser conhecer ou mesmo adquirir algo precioso de Mme. Journelle pode visitar o antiquário Schultz-Boldrini, na Alameda Lorena.

Outro que passou pelo Brasil deixando seu rastro foi o hoje tão na moda Jean Royère, o designer francês que, além de moderno, tinha tino comercial. Em meio ao otimismo do pós-guerra, com humor, acreditando que era possível ser moderno sem ser puritano, e que funcionalidade e estilo eram expressões vazias, previu o móvel em série, de madeira com metal dourado, latão laqueado com cores vivas, ferro ondulado e serpentes metálicas. Com sucesso, se lançou no mercado externo, Líbano, Irã, Peru e Brasil, fazendo hotéis, bancos, agências de empresas francesas e mesmo abrindo fábricas e lojas. Em nosso País, com sócios brasileiros, teve fábrica no Paraná e loja na Praça Roosevelt, em São Paulo, no fim dos anos 50. O curador francês Jacques Lacoste, que está organizando uma mostra de Jean Royère em Nova York, acredita que a maioria dos móveis e luminárias JR fora da França estejam no Brasil.

Traço refinado

Outro que esteve em São Paulo nos anos 50 foi o refinado Stéphane Boudin, da famosa Maison Jansen, o decorador dos Kennedys na Casa Branca. Chamado pelo milionário carioca Antonio Larragoiti para fazer sua casa no Rio, considerou seriamente abrir uma filial da Jansen em São Paulo, onde o decorador carioca Antonio Liberal, que até então representava a maison francesa no Brasil, tinha escritório. A ideia não vingou e o decorador francês Jean-Claude Bailly, despachado de Paris para cuidar do empreendimento, acabou ficando aqui e abrindo seu próprio negócio. Por meio dele, muitos móveis Jansen, originais ou cópias feitas aqui, mobiliaram casas de paulistas e cariocas.

Para esta reportagem, descobrimos no Jardim Europa uma preciosidade: uma casa ainda intacta e toda feita por Stéphane Boudin no fim dos anos 50. Ao contrário de Philippe Starck, que aqui jamais vinha durante a obra do Hotel Fasano no Rio, Stéphane Boudin esteve duas vezes no Brasil. São dele, e minuciosamente estudados, os planos de arquitetura dessa mansão paulistana de janelas verdes e molduras brancas, cujo estilo, como explica sua dona, ali há 50 anos, "é um Luís XVI, bem simples, como as casas de campo do sul da França".

Para que não houvesse dúvidas quanto ao projeto, Boudin elaborou preciosas maquetes que a proprietária hoje se arrepende de ter jogado fora, depois de guardá-las por muitos anos. Há boiseries em todas as salas, em misturas de madeira natural com frisos dourados junto a pinturas decorativas em tons de cinza cáqui, bege e abricó. No hall de entrada, o mármore branco tem pois na cor brique e as molduras das portas têm trabalho em trompe l?oeil, dando a impressão de serem de porcelana wedgewood. Com pé-direito de 3,80 metros e em rigorosa simetria, todas as salas têm duas portas na mesma parede, ainda que para isso sejam falsas. Todas as lareiras, móveis, tecidos e papéis de parede, como o Zuber da sala de almoço, vieram de Paris.

Relação afetiva

Se formos continuar a busca, serão infinitas as histórias e anedotas de nossas relações estéticas e afetivas com a França. Pouca gente talvez saiba que foi um francês, Darius Milhaud, secretário particular do poeta e escritor Paul Claudel, embaixador da França no Brasil em 1936, quem traduziu para o francês a canção O Boi no Telhado, que depois inspirou o nome do famoso bar Boeuf sur le Toit que Jean Cocteau abriu em Paris nos anos 30. Ou que Donata Meirelles tem em casa uma mesa com tampo pintado por Cocteau, e que o enorme tapete savonnerie que decora o apartamento de Gloria Kalil foi herdado da avó e esteve exposto na Grande Exposição Internacional de 1925, em Paris.

Sabe-se que Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Victor Brecheret ganharam bolsas do governo para estudar em Paris. Que Tarsila foi amiga de Fernand Léger e que expôs na Academie Julien, na capital francesa. E que mesmo que o compositor Villa-Lobos, quando lá morou, se preocupasse em manter a brasilidade de sua música, haveria em seus choros uma leve influência do fauvismo. Consta que em Barbacena viveu durante alguns anos o escritor George Bernanos. E que o pintor Édouard Manet, que fez parte da tripulação de um navio francês, costumava dizer que a luz da Baía da Guanabara influenciou para sempre sua retina.

Mesmo que a influência da China avance, os Estados Unidos retomem o rumo e que o mundo globalizado nos permita desfrutar das mais variadas culturas e estéticas, asiáticas, árabes ou africanas, o que é francês ou venha da França, parafraseando Manet, há de estar sempre orientando o nosso olhar. (www.mariaignez.com)