Muito além de brechó

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

No Estúdio Gloria, peças de segunda mão ganham caráter especial com repaginação feita por Karina Arruda

Só o passeio já vale a pena. Em um pequeno núcleo do lado menos agitado da Granja Viana, em Cotia, placas colocadas em postes e árvores vão indicando o caminho para o Estúdio Gloria, uma propriedade em meio a algumas chácaras, em uma rua estreita de terra batida. Nos dias de semana tudo lá é bastante sossegado, mas aos sábados e domingos o lugar ganha movimento com os visitantes em busca dos móveis, luminárias e objetos restaurados pela designer de interiores e cenógrafa Karina Arruda. De quebra, pode-se almoçar no restaurante simples - com comida idem - e descansar nas redes espalhadas entre as árvores.

 

Na casa espaçosa que abriga o showroom, a família de Karina passava os fins de semana na década de 70. Depois, virou depósito dos móveis que a designer ia garimpando aqui e ali. "Em 2009, com o negócio dando certo, eu e meu marido resolvemos reformar a casa e nos mudarmos para cá", conta ela.

 

Nas várias salas de pé-direito alto e com uma iluminação natural esplêndida vinda dos janelões de vidro, dezenas de vasos de samambaias pendem das vigas aparentes. Espalhados pelos diversos ambientes, poltronas, sofás, mesas e armários de cozinha, guarda-roupas, cadeiras, bufês, fogão, geladeira. E também liquidificador, batedeira de bolo, luminárias, pequenos oratórios, jogos de xícaras, quadros. Pode parecer um brechó, mas não é. Quase tudo o que tem por lá foi criado nos anos 50, 60 e 70 e cuidadosamente restaurado. Não há peças riscadas e os tecidos dos revestimentos (alguns importados) são escolhidos a dedo por Karina.

 

Garimpo. "Faço um trabalho minucioso de garimpagem. Visito bazares beneficentes, percorro cidades do interior, recebo e-mails de pessoas", diz Karina, formada em moda e design e que sempre teve o hábito de reformar móveis para sua casa e a de amigos. E com uma peculiaridade: o uso de muita cor. "Não tenho medo do vermelho, do roxo e do amarelo. É por isso que não me interesso por móveis de antiquário."

 

A ideia de ampliar o trabalho e divulgar o estúdio - que se chama Gloria porque ela gosta de nomes antigos e também porque remete a coisas gloriosas - veio quando a casa da Granja Viana começou a ficar atulhada. "Bolei um bazar de dois meses. Vendi as mais de 300 peças que tinha e as pessoas queriam mais. Recomecei o trabalho de garimpagem e, depois de seis meses, fiz uma outra venda."

 

No ano passado, Karina optou por deixar outros trabalhos de lado e dedicar-se somente ao estúdio. "Adoro o verde e o sossego daqui, mas ir diariamente para São Paulo está ficando cansativo. Em breve vamos manter um apartamento lá e vir para cá nos fins de semana", adianta.

 

Afinal, é na cidade que está o pessoal que faz a restauração dos móveis sob a orientação de Karina: tapeceiros, laqueadores, marceneiros, pintores de serralheria. "É gente da minha confiança. Não damos um ‘tapinha’ nas peças. Refazemos os revestimentos dos armários por dentro e por fora, trocamos dobradiças, restauramos puxadores. Os estofados ganham espuma, cintas e molas novas", explica.

 

A designer diz que seu trabalho exige muita pesquisa, que vai desde ler livros a assistir a filmes e seriados de época. "Vejo ‘Jeannie é um Gênio’, por exemplo, e presto atenção nos móveis da época, nas cores que eram usadas. Quando reformo um sofá ou uma poltrona, misturo cores, padronagens e texturas. Uso seda com tear manual e veludo, listrados com estampados."

 

Por isso, cada peça é única no Estúdio Gloria. Na coleção de inverno, Karina optou por revestimentos mais quentes, como veludo, pele de vaca e adamascados. E muito marrom, preto e roxo, que aparecem nos sofás, poltronas e almofadas. "Mas, de repente, pinta um clima romântico e faço uma cadeira rosa", brinca.

 

Certa de que seu trabalho também tem um lado ecológico - "tiro o lixo da rua, reciclo e valorizo o artesão"-, Karina vai começar a fazer bulas para cada uma das suas peças. "Vão estar lá a origem, a história do móvel, o material original e a maneira como ele foi restaurado."

 

Ela também revende objetos de seis artistas conhecidos seus que têm tudo a ver com o espírito do Estúdio Gloria, entre eles o professor de esoterismo Luiz Neto, que cria pequenos altares. Mística, a designer faz defumações constantes na casa. "Muita coisa pode vir com energia negativa e meu trabalho inclui também esse tipo de limpeza."