Móveis de Lina Bo Bardi, das décadas de 1940 e 1950, ganham reedição

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Icônicos, móveis desenhados pela arquiteta e designer ítalo-brasileira são reeditados pela Etel

A arquiteta Lina Bo Bardi, na biblioteca de sua casa no Morumbi, em poltrona de sua autoria

A arquiteta Lina Bo Bardi, na biblioteca de sua casa no Morumbi, em poltrona de sua autoria Foto: Divulgação

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi teve papel decisivo na renovação do cenário cultural brasileiro. Atuando em diferentes áreas – cinema, moda, teatro –, à sua curiosidade natural nada passava despercebido. “Sua contribuição ultrapassou, muito, os estreitos limites do desenho industrial”, conforme bem pontuou a professora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos na sua obra referência "Móvel Moderno no Brasil".

Além de dois marcos arquitetônicos apenas na cidade de São Paulo, o Masp e o Sesc Pompeia – há pouco reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como bem cultural da nação –, o modernismo radical expresso por Lina em seus edifícios deitou raízes profundas em um setor da criação até então incipiente quando da sua chegada ao Brasil: o desenho de mobiliário. A ponto de a arquiteta revelar em suas memórias que, por mais que procurasse, não encontrava móveis em condições de “habitar” os seus projetos.

“Lina inovou não apenas na escolha das matérias-primas e formas, mas também ao propor mudanças relacionadas ao próprio ato de sentar”, conta a empresária Lissa Carmona, da Etel, que, após um ano mergulhada nos arquivos do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, acaba de reeditar para sua marca parte do mobiliário desenhado pela arquiteta entre as décadas de 1940 e 1950. “Ao desenhar móveis Lina atuava com o mesmo sentido de liberdade com o qual afrontava as questões próprias da arquitetura”, pontua. 

Nessa primeira fase, a marca paulistana optou por reeditar duas peças: a poltrona com bolas de latão e estrutura tubular e a cadeira Tripé, projeto de 1948, feita de conduíte metálico e couro-sola. Sob todos os aspectos, uma total ousadia para os padrões de gosto da época. Duas outras criações – uma delas desenhada para a casa da arquiteta – foram pela primeira vez editadas: um modelo dobrável, criado para o auditório da primeira sede do Masp, na Rua 7 de Abril, em 1947, e a inédita poltrona de balanço. “Ela ocupava posição de destaque na biblioteca de Lina”, conta a proprietária da marca, Etel Carmona, que escolheu a célebre Casa de Vidro, o antigo lar dos Bardis no bairro do Morumbi, como cenário para o lançamento da nova coleção, na semana passada.

Construída em 1951 para ser a residência da arquiteta e de seu marido, Pietro Maria Bardi, a casa, suspensa sobre pilotis em meio a uma colina de vegetação exuberante, abriga obras de arte, móveis e documentos que pertenceram ao casal, e hoje está aberto à visitação pública. Desde 1990, o edifício funciona também como sede do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, que detém os direitos de produção sobre o mobiliário em questão.

O histórico da marca, que já reedita, com exclusividade, móveis criados por Anna Maria e Oscar Niemeyer, além de manter em catálogo peças de Jorge Zalszupin, Carlos Motta e Claudia Moreira Sales, entre outros, sem dúvida pesou na decisão do instituto em conceder à Etel a exclusividade sobre a produção e comercialização do mobiliário da arquiteta. Outra ponto favorável, o potencial de difusão da marca também contou pontos: além de um endereço na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, os móveis produzidos pela movelaria paulista contam com pontos de vendas em diversas capitais do mundo.

Como acontece com as demais criações Etel, os móveis da coleção Lina são feitos à mão e têm uma sequência numérica que identifica as características de origem, matéria-prima e fabricação do produto, bem como o nome do artesão responsável por sua confecção. “Nosso objetivo maior é preservar a história do design brasileiro. Nesse sentido, produzir hoje o mobiliário de Lina representa a consagração de nossos ideias”, explica Lissa.

Segundo a empresária, mesmo pensados para serem produzidos como peças únicas ou, no máximo, em tiragem limitada, por sua racionalidade, os móveis da arquiteta reúnem todas as características necessárias para viabilizar sua possível industrialização. O que, provavelmente, vai servir de estímulo para outras reedições. Durante a fase de pesquisa, tive a grata surpresa de deparar com croquis e imagens de projetos inéditos. Nesse primeiro momento, focamos nosso olhar só no período inicial da produção dela”, declara a empresária, antecipando que, ao que tudo indica, em se tratando de Lina, muito ainda está por vir.

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