Morada com grife

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Fernanda Marques transforma apê em prédio de Paulo Mendes da Rocha

Higienópolis era a primeira opção da arqueóloga carioca Maria Beltrão quando decidiu ter um apartamento em São Paulo, para onde vem com certa regularidade para visitar parentes, reunir-se com amigos e curtir programas culturais. "Tinha ouvido dizer que os imóveis desse bairro são antigos e espaçosos, como gosto", diz a viúva do ex-ministro Hélio Beltrão.

Mas, por sugestão do filho, comprou um apartamento de 270 m² no Itaim, num prédio projetado por Paulo Mendes da Rocha em 1986. A reforma e a decoração ficaram por conta da arquiteta Fernanda Marques. "É um apartamento de veraneio às avessas. Só fiz duas exigências: que a varanda tivesse uma lâmina d?água e plantas e que houvesse uma estante para colocar meus livros", diz Maria.

Doutora em arqueologia e geologia, especialista em paleontologia humana, Maria dá aulas e até hoje vai a campo. Atualmente, trabalha em duas frentes na Bahia. Também escreveu um tratado de história, em que fala de seus ancestrais, entre eles Fernão Dias Paes Leme, conhecido como o Caçador de Esmeraldas. "Ele é meu 10º avô. O 9º, Garcia Rodrigues Paes, fundou, no século 18, a fazenda que é hoje minha propriedade em Paraíba do Sul, na divisa do Rio com Minas. Lá se pesava o ouro que ia para Portugal", conta.

Quando está em São Paulo, Maria promove jantares no apartamento que ganhou cara nova com o projeto de Fernanda Marques. "Quase não teve quebradeira", diz a arquiteta, que reposicionou o lavabo (então próximo à cozinha) para a área íntima e transformou a sala de jantar em home theater, integrando-o ao grande living. Outra intervenção importante foi isolar áreas social e íntima por meio de painéis de vidro acidado com moldura de carvalho (que embutem o ar-condicionado na parte superior). "Optei pelo vidro porque não queria que o corredor das suítes ficasse escuro", diz a arquiteta. No meio desse comprido painel, duas portas, uma que dá para a cozinha e outra para o corredor, onde estão a suíte master, o lavabo e as suítes de hóspedes. As portas são pivotantes para criar um efeito mimético nesse corredor revestido de carvalho, inclusive o teto.

  

PONTOS DE LUZ

Do lado social, a moldura de madeira avança até a divisa com a varanda, que não tem portas. "Fiz a divisão com o estar por meio de uma escrivaninha (da Pica Pau, R$ 5.050) usada como office", diz Fernanda. Na parede oposta ao grande painel de carvalho e vidro, a arquiteta utilizou revestimento de limestone Mont Charmont, em tom areia, abrindo um rasgo para embutir a iluminação - que foi, aliás, um problema enfrentado por Fernanda. Como o apartamento tem pé-direito baixo, ela não quis perder mais 15 cm de teto com forro de gesso e teve de mexer na alvenaria para embutir os pontos de luz.

Para criar um diálogo perfeito entre revestimentos, a arquiteta escolheu para o piso da área social tábuas de tauari com 10 cm de largura (R$ 65 o m², na Pau Pau); mármore piguês e limestone aparecem nos banheiros; ultrasuede fendi claro serve de estofamento antirruído nas paredes da suíte master (da Divanos, o projeto ficou em R$ 12 mil); e silestone branco, na cozinha e na área de serviço. Como a varanda não comportava um grande jardim, o paisagista Gil Fialho resolveu o problema do verde criando painéis colocados na vertical, que abrigam de samambaias a chifres-de-veado. Em vez de piso, um espelho d?água, um pedido da proprietária do apartamento.

Na decoração, Fernanda Marques usou tons suaves. "Não quis nada chocante, porque não condiziria com o gosto da proprietária", diz. A nobreza dos materiais também se faz presente no mobiliário, com os sofás de suede, feitos sob medida pela Micasa (R$ 17.400 e R$ 15.280)para que as almofadas ficassem um pouco mais altas, e os tapetes indianos de lã com flores esculpidas em seda, da By Kamy (R$ 30 mil).

Seguindo a parede, Fernanda criou uma bancada baixa de limestone que apoia obras de arte e embute a lareira. Estante, só no home theater. A mesa de jantar (R$ 13.400, na Varuzza) talvez seja uma das mais valiosas peças do apartamento de Maria Beltrão. "Atendendo ao pedido da proprietária, trata-se é uma autêntica peça de Sergio Rodrigues, de jacarandá. Em torno dela, 12 cadeiras com assento de couro, releituras do Sergio feitas pela Dpot", diz a arquiteta. Para completar o décor sofisticado e ao mesmo tempo discreto, um lustre de oito braços da Filter (R$ 2.100).