Mistura delicada

MARISA VIEIRA DA COSTA - O Estado de S.Paulo

Com pintura e colagens, Calu Fontes cria peças de porcelana singulares

Carolina virou Calu. "Mania de baiano de pôr apelido", diverte-se a artista plástica nascida em São Paulo, mas com fortes raízes na Bahia. Desde pequena Calu passou férias em Salvador, berço da família Fontes, e ainda hoje vai pelo menos uma vez por ano para lá. "Sempre ia para ficar uns dias e acabava ficando semanas e até meses", conta, justificando o sotaque levemente arrastado dessa especialista em pintura em porcelana. "Sou arquiteta de formação. Me formei no fim dos anos 90 no Mackenzie e cheguei a fazer projetos e reformas, mas sempre estive em contato com a arte", confessa, explicando que quando menina desenhava nos cantos das folhas do caderno, colocava decalques. "Na faculdade, em vez de fazer estágio em escritório de arquitetura, preferi um ateliê."Calu se encontrou quando começou a levar a sério a pintura em porcelana. "Fui descobrindo minha arte sozinha, aos poucos, experimentando. Fiz alguns cursos no Sesc para aperfeiçoar a técnica", diz a artista, que passou a incluir em seus trabalhos colagens de ilustrações. Na fase de transição para o profissionalismo, dava as peças de presente. Até o dia em que mudou de casa e reservou um espaço maior para o ateliê. "Aí comecei a criar mais, a vender as peças, a fazer bazares."O negócio foi crescendo e, em novembro de 2007, Calu decidiu alugar uma casa numa viela da Vila Madalena só para trabalhar. Uma construção térrea, antiga, simples, cercada de piso cerâmico, "sem nenhum verdinho, nem em vaso". Ela quis transformar o que seria seu novo ateliê num espaço com a sua cara: aconchegante, com um quê de cultura hippie. Mandou descascar a pintura salmão da fachada até chegar aos tijolos, agora pintados de branco. A moldura da janela ganhou tinta preta. Dentro, tirou o forro e deixou o telhado à mostra. A decoração é simples, mas cada detalhe foi bem pensado, como a mesa de centro marchetada (a partir de R$ 280, na Feel Import) e a cortina de fios cor de vinho (R$ 117,60, na Cinerama).O amigo Gil Fialho deu vida ao lugar com um projeto de paisagismo que inclui gramado na frente, vasos com chifre-de-veado pendurados no corredor, trepadeiras, folhagens e até bananeiras no fundo da casa. Calu usou as salas para expor, em prateleiras de vidro, parte de sua produção - vasos, bowls, azulejos, fruteiras, espelhos, travessas, xícaras, copos, pratos, bandejas e moringas, entre muitos outros. Um quarto virou escritório e o ateliê ocupa uma construção nos fundos da casa. "Preciso de paz; esse é um processo único." Enquanto vai traçando (com um pincel fino molhado numa mistura de pigmento com óleo de copaíba) arabescos e outros ornamentos na porcelana virgem, Calu ouve música e deixa aceso um incenso. "Não consigo criar sem som. Amo jazz e MPB", conta a artista, cujas peças vende no seu ateliê e em lojas como Benedixt e Tok&Stok, para a qual criou a linha Mandarin.Ela própria cuida da queima da porcelana virgem. "Depois do fundo vem uma segunda etapa, que é a aplicação do decalque, e a peça volta para o forno." É nas sobreposições que se destaca a criatividade da artista, que diz ter um "olho ligado". Transfere para as peças lembranças de viagens ou simplesmente o que gosta. "Navego por um monte de coisas. Pode ser uma renda, um desenho que lembre o Oriente, pássaros, flores, conchas, mandalas, borboletas, sol, lua, céu, Iemanjá, São Jorge..." Boa parte desses elementos está num painel que toma uma parede no hall de entrada. Outros, mais delicados , dão graça à pia do lavabo. O clima zen que domina o ateliê também está presente no apartamento onde ela mora, no Sumaré. "A maioria das coisas ganhamos de presente", diz a artista, referindo-se a uma marquesa antiga vinda da fazenda da avó do marido, aos porta-travesseiros de seda bordada e à mesa de centro feita pelo cunhado. Na cozinha, Calu desenha, todas as manhãs, flores na lousa que sustenta um ramo de pimenta - "costume baiano que traz sorte", garante.