Meu olhar

André Rodrigues - O Estado de S.Paulo

A Casa Cor São Paulo, segundo o crítico de moda André Rodrigues

Sempre achei que as pessoas se expressam de um jeito mais verdadeiro dentro de suas casas do que por meio de suas roupas. Existem tantas regras sobre o que vale no vestuário que acaba sendo raro encontrar gente disposta a transgredir no visual do dia a dia. Dentro de casa, como somos os donos do pedaço, há uma regra implícita que dita exatamente o oposto: quanto mais personalidade, melhor! Uma casa só pode ser chamada de lar se ela tiver a sua cara – e a de mais ninguém.

Por essas e outras Sig Bergamin me emocionou em minha visita à Casa Cor. Fosse um estilista, acredito eu, Sig seria nossa versão ultracolorida de John Galliano (em seus bons tempos de Dior). Explico: cosmopolita até o tutano, Sig não tem medo de ser regional, folclórico até. Aposta todas as fichas na mistureba que afugenta a maioria dos outros decoradores, dados ao cartesianismo. Ele, incendiário, usa o imponderável como ingrediente principal em sua caldeirada de referências brasileiríssimas, originalíssimas, finérrimas. Sua casa de inverno poderia estar tanto nos Alpes Suíços como em Campos do Jordão. Me perdi naquele espaço, apenas para me encontrar minutos depois, estarrecido em meio ao garimpo quase incontável de obras de arte, texturas, cores, colagens e… uma horta orgânica vertical (sim, tinha alface na parede!). É o tipo de lugar com tanta personalidade que quando você entra, não pergunta quem fez: mas quem mora ali. E sente vontade de morar também. 

A Casa de Campo de Sig Bergamin

A Casa de Campo de Sig Bergamin Foto: Zeca Wittner/Estadão

Servindo pencas de ousadia, Guilherme Torres dá um soco no estômago dos visitantes com seu espaço criado sob encomenda para a marca Deca. Ele é nosso Rick Owens. Na verdade, já temos por aqui um estilista que traduz a essência de Guilherme: Alexandre Herchcovitch. O vazio da entrada, rasgado por uma lareira em filete de muitos metros posicionada sobre um espelho d’água recheado com seixos brasileiros verde-jade serve como detox para os olhos, que são, na sequência, intoxicados pelo living, cozinha e suíte com um chuveiro que parece uma represa a transbordar. Tem algo de fetiche e transgressão na nudez do concreto, nos pelos de animais, nas fotos de cavalos e nas linhas de Guilherme, que aqui parece evocar um pouco do mexicano Luis Barragán. Tudo na medida certa, sem assustar. Tipo Herchcovitch. 

Fabrizio Rollo, talvez por sua proximidade com o universo da moda (foi editor da Vogue Brasil durante anos, depois ocupou o mesmo posto na versão brasileira da Harper’s Bazaar), é o que mais visivelmente traduz a estética fashion em seu ambiente retrô, batizado de “Chixties”, feito sob medida para os dias de ontem, hoje e amanhã. Ele seria, naturalmente, Yves Saint Laurent. Sua paixão pelo colecionismo e pelo garimpo de arte, sua imensa habilidade de mesclar épocas e etnias em um mesmo espaço, sem conflitos, e, obviamente, sua persona inconfundível, impecável, fashion-wise, ligado não a marcas ou tendências, mas íntima e furiosamente ao seu estilo pessoal e intransferível, merecem aplausos. De pé.

Ambiente de Fabrizio Rollo

Ambiente de Fabrizio Rollo Foto: Divulgação

Fechando esse desfile, assim como Sig, Murilo Lomas, seu pupilo e parceiro, também entrega uma visão verdadeira, livre de regras. Sob a minha ótica, Murilo fica com o papel de Tom Ford. No dia em que o encontrei por lá, inclusive, ele vestia um terno cortado à perfeição, no melhor estilo Ford. O arquiteto apresenta um olhar que, na moda, chamaríamos de “mais comercial.” O que não é ruim: afinal, vender é preciso. Seu espaço me parece mais sóbrio, arrisco dizer até mais masculino (ou talvez andrógino), com uma lareira monumental que faz a gente se sentir pequeno, porém acalentado. O statement vem mesmo por meio do par de retratos da artista Marina Abramovic escoltando a cama, formando uma cena que parece ser um altar. Dramático, melancólico – e muito plástico.

O quarto de Murilo Lomas

O quarto de Murilo Lomas Foto: Zeca Wittner/Estadão

As analogias seguem com Antonio Ferreira Junior e Mario Celso Bernardes, com seu charmoso chalé do golfista à la Ralph Lauren ou com o elegantérrimo Ari Lyra com seu loft à la Karl Lagerfeld. Em muitos aspectos, a Casa Cor faz lembrar os eventos de moda no Brasil. Do ponto de vista organizacional, tipo a SPFW, a Casa Cor tem um papel fundamental para o mercado de arquitetura e design, apresentando tendências, formatos, propostas, materiais, ideias, soluções. Mas, assim como no caso da SPFW, fica a pergunta: até onde o evento fortalece os nomes que fazem parte dele (quase 80) em vez de somente fortalecer a si próprio? 

Ambiente de Ari Lyra

Ambiente de Ari Lyra Foto: Zeca Wittner/Estadão

A Casa Cor São Paulo fica aberta até 20 de julho, no Jockey Club.