Margem de ação

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Lançamentos apresentados na Semana de Design de Milão ampliam a interação entre usuário e móvel

Landscape Panda, sistema de assentos criado por Giulio Cappellini e Paola Navone, para a Cappellini

Landscape Panda, sistema de assentos criado por Giulio Cappellini e Paola Navone, para a Cappellini Foto: Marcelo Lima

Poucas vezes a vocação internacional da Semana de Design de Milão se manifestou com tanta intensidade quanto em sua última edição, encerrada na semana passada. Apenas no Salão do Móvel, que este ano ancorou a bienal de iluminação Euroluce, a presença de expositores não italianos foi de 69%. Proporção verificada, segundo os organizadores, também nos quase 400 eventos “fuorisalone”, que aconteceram em sete zonas: Tortona, Brera, Ventura/Lambrate, Porta Venezia, Sant’Ambrogio, San Gregorio e Le 5 Vie. 

Mais do que um evento localizado, uma imensa quermesse que se espalha pelos quatro cantos da cidade e que coloca, lado a lado, o produto industrial e o feito à mão; a produção voltada para o largo consumo e o milionário mercado das peças únicas. Condições que fazem da capital lombarda um ponto de observação privilegiado para os interessados nos rumos da criação contemporânea. 

“Vivemos em um mundo povoado de sofás. Não acho que seja o caso de produzir apenas mais um”, sentenciou o empresário italiano Giulio Cappellini, um entusiasta da exclusividade aplicada ao design, hoje às voltas com um projeto de conteúdo mais amplo. 

“Dessa vez me pareceu que era o momento de propor uma paisagem completa. Um elemento forte que agregasse a seu entorno uma série de complementos capazes de criar um cenário. Uma geografia doméstica completa”, sintetizou ele, durante o lançamento de Landscape Panda, projeto produzido em parceria com a designer italiana Paola Navone.

À primeira vista, um simples sistema de assentos, mas que, combinado a uma luminária em formato de panda, assinala o firme propósito da dupla de deixar parte da interpretação do móvel ao alcance de seu usuário. De fazer dele um agente ativo não apenas no momento da compra, mas durante toda a vida do produto.

Como acontece com Landscape Panda, os lançamentos de Milão 2015 nos falam de uma casa menos afeita a transgressões e mais interessada em captar o essencial. De móveis criados para atender a necessidades individuais, aos habitantes dos pequenos apartamentos, aos trabalhadores domésticos. Um público ávido por produtos atemporais, de base neutra e, justamente por isso, mais fáceis de customizar.

Assim, poltronas ganham contornos mais enxutos. Cadeiras exibem estruturas aparentes. Mesas são reduzidas a simples lâminas. Um cenário doméstico menos autoral e mais aberto à personalização se descortina diante dos visitantes da Semana de Design de Milão. Excesso de simplificação? Reflexo de um momento de contenção econômica? Também, mas não apenas. 

Para o observador atento, toda a neutralidade preconizada por Milão pode servir de base para a criação de interiores mais personalizados e não menos inspiradores. Desde, claro, que se tenha em conta que o estilo nasce muito mais da diversidade do que de uma simples relação de correspondência.

Marcelo Lima
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