Marca de um estilo

Beto Abolafio - O Estado de S.Paulo

Janete Costa, morta em 2008, deixou projeto como legado para casal de primos

Um dos últimos projetos residenciais de Janete Costa, este apartamento na Praia de Boa Viagem, no Recife, teve envolvimento especial por parte da arquiteta. É que o imóvel pertencia a um casal de primos. "Ela era muito alegre e positiva", lembra-se a proprietária, Oneida de Barros Costa, de 76 anos, que divide o imóvel de 320 m² com o marido. Ali se encontram algumas marcas da profissional, como os espaços integrados, pinceladas de cor, móveis desenhados especialmente para o local, além da valorização da arte popular e brasileira.

"Janete compreendia o espaço não só do ponto de vista estético, mas levava em conta a funcionalidade", afirma Carmen Roberta Gil Borsoi, filha arquiteta que acompanhou de perto a reforma e a decoração. Para adaptar melhor o layout às necessidades dos moradores, por exemplo, dois dos quatro quartos passaram a se interligar e a despensa foi aumentada.

O living exemplifica a preferência por uma arquitetura de interiores mais limpa, deixando o rebuscamento para obras, peças e objetos. O piso de porcelanato branco, mesma cor das paredes, forma a base neutra em que apenas uma das paredes - a da entrada - foi tingida de verde, para dar identidade ao lugar. Os cerca de 80 m² formam um L, dividido entre o home theater, a sala de jantar e o estar de apoio, próximo à varanda, onde figura o piano do proprietário. "Um dos pontos de discussão foi em que local colocar o instrumento", lembra Lavínia Costa, filha do casal, que admirava a percepção espacial da tia. "Ficou perfeito."

 

Poltrona Gaivota na varanda com vista para o mar

Ao abrir a porta branca, feita pelo artista pernambucano Eudes Mota, dá-se no espaço da TV, que mescla estofados de linhas contemporâneas com um antigo baú sobreposto por potes chineses de porcelana, além de telas de Zé Claudio, Gil Vicente e João Câmara na parede. A marcenaria tem desenho da profissional. Como o tal baú, vários elementos da antiga casa dos donos foram reutilizados na ambientação. É o caso das espreguiçadeiras de Ray e Charles Eames e da poltrona orgânica de Warren Platner - prova de que no "caldeirão" de Janete, marcadamente brasileiro, também cabiam ícones do design internacional. O azul que predomina na tela de José Guedes remete ao mar observado da varanda ao lado. Ali, o paisagismo caseiro e a poltrona Gaivota, de Reno Bonzon, convidam a deixar o tempo passar.

Os proprietários têm cinco filhos, todos casados, e vários netos. Por isso, a sala de jantar para 10 pessoas costuma ser insuficiente quando todo mundo se encontra. O espaço é delimitado por um antigo tapete persa, com mesa de linhas retas desenhada pelo arquiteto Acácio Gil Borsoi, marido de Janete, e confortáveis poltronas estofadas de off-white. Dois aparadores de ferro com vidro, de autoria dela, dão apoio às refeições. Na parede, a escultura de Marcelo Filgueira enfatiza a horizontalidade da composição. Mas o que chama atenção, mesmo, é o lustre meio déco, outra criação da arquiteta. "Foi um presente dela, que formou o pendente a partir de peças compradas de um antigo navio", lembra Lavínia.

É o jeito de Janete Costa trabalhar e lidar com a vida que parece deixar saudade em quem a conhecia. Uma das primeiras profissionais a dar importância à arte popular tanto quanto à acadêmica, quebrou preconceitos, para muitos, ao valorizar a beleza do simples. Durante quase três anos a mulher lutou contra um câncer no estômago, que resultou em sua morte, ao 76 anos, no ano passado. "Ficou uma lacuna difícil de ser preenchida", opina Oneida, que se comove ao lembrar da prima, cujo escritório agora é tocado pelo marido e pelos filhos.