Mais cor na arte inglesa

- O Estado de S.Paulo

Mostra reavalia obra do Omega Workshops, grupo fundado em 1913 que mudou a estética do design na época

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Texto de Maria Ignez Barbosa

Produção de Maria Regina Notolini

Fotos de The Coutauld Gallery e Victoria & Albert Museum

 

Radicalizando não só no campo das artes decorativas, mas também em matéria de usos e costumes, eles dominaram a cena artística nos anos pré-guerra de 1914 na Inglaterra. Faziam parte do Bloomsbury Group, artistas de vanguarda, escritores e intelectuais alternativos. Foi um deles, o pintor e crítico de arte Roger Fry quem fundou, em 1913, o Omega Workshops, em oposição à cultura e à estética eduardiana dominante.

 

A ideia era sacudir o mercado com novos produtos, refrescar o jeito de morar sisudo e tradicional de então, ousar e trazer cor para dentro de casa. E como o próprio Fry declarou à época a um jornalista: "É mais do que hora de introduzir um certo espírito de diversão a móveis e tecidos. Passamos tempo demais aguentando a mesmice e a estupidez sisuda".

 

Acima, a partir da esquerda: biombo de lareira desenhado por Duncan Grant e pintado por Lady Ottoline Morrel em 1912; tela ‘Banhistas na Paisagem’, de Vanessa Bell; e o o pintor Roger Fry, no estúdio da Omega. Abaixo, o vaso de cerâmica pintado por Duncan Grant sobre uma mesa azulejada na casa de Virginia Woolf, irmã de Vanessa Bell, retratada em 1907, e.prato com desenho de navio, de 1913

 

Roger Fry, que aos 44 anos, em 1910, retornou a Londres, depois de ter sido por quatro anos curador e consultor do departamento de pinturas do Museu Metropolitan de Arte de Nova York, estava atento ao que se passava em Paris, em matéria de novos movimentos artísticos. A seu ver, era imprescindível que a Inglaterra, ainda tão "vitoriana", sacudisse a poeira e partisse para uma revolução estética própria. Um pós-impressionista ele mesmo, achava que os jovens artistas deveriam ganhar a vida não somente com a incerta venda de suas telas, mas também trabalhando na decoração de interiores, harmonizando o design de mesas, cadeiras, biombos, potes, vasos, caixas ou o que fosse, com afrescos, mosaicos, azulejos, cortinas e estofados, de modo a obter um efeito total de grande impacto. Com seu Omega Workshops, que tinha menos a ver com o movimento Artes e Ofícios dos anos 1870 e 1880 e mais com o Wiener Werkstätte, fundado em 1903 pelos artistas e arquitetos da Viena Secession, Fry e seu grupo acabaram provocando uma explosão no mundo das artes decorativas apenas comparável ao movimento liderado por William Morris no sécul-o anterior.

 

Os Omega Workshops eram uma companhia limitada, com sócios, empregados e artesãos subcontratados, que produziam móveis, objetos e tecidos de acordo com os desenhos originais dos artistas do grupo. Entre os que contribuíram para a coleção assinada apenas com a letra grega Omega dentro de um quadrado, símbolo que estampava a fachada dos estúdios na 33 Fitzroy Square, estavam Vanessa Bell, casada com o crítico de arte Clive Bell, Duncan Grant e Wyndham Lewis, entre outros.

 

Para Fry, o anonimato dos criadores era fundamental para a coesão do movimento, cujo showroom era visitado por uma clientela que incluía desde Virginia Woolf, irmã de Vanessa Bell, George Bernard Shaw, H.G.Wells, W.B.Yeats, E.M.Forster até figuras influentes da sociedade local, como Lady Ottoline Morrell e Maud Cunard. Também a famosa Gertrude Stein deu muitas vezes o ar de sua graça nesse espaço único, sem paralelo na cidade, onde artistas e patronos endinheirados se cruzavam e onde o design ali mesmo produzido era vendido diretamente ao consumidor. Em seus escritos, Virginia Woolf descreve essa atmosfera tão animada e cheia de vida: "Havia os chintzes coloridos pintados pelos artistas jovens, havia mesas pintadas e cadeiras pintadas, e havia Roger Fry, ele mesmo fazendo mesuras, ora para uma Lady So-and-So, ou para um comerciante de Birmingham, dando voltas pelas salas e o melhor de si para persuadi-los a comprar".

 

CHARLESTON

Na típica casa Omega, a arquitetura e o design não eram o mais importante na decoração. Não como em Charleston, casa de campo onde viveu a bela pintora Vanessa Bell. Ali nenhum canto ficaria sem alguma estampa tecida ou pintura feita por ela mesma, Roger Fry ou Duncan Grant. Vida, obra e amores pareciam fluir juntos. Paredes, portas, lareiras, biombos, vasos, cúpulas de abajur, pés e tampos de mesa, tapetes, as roupas que vestiam, tudo ganhava desenho e cor. O look geral era de um só grande quadro pintado, daí a produção Omega ser vista hoje menos como um estilo e mais como uma instalação no universo das artes decorativas.

 

Apesar da eclosão da guerra em 1914 e de dissidências entre os artistas, os workshoppers conseguiram se manter ativos até 1919. Foram seis anos de uma intensa e impressionante produção de um design ousado, singularmente criativo e que a Courtauld Gallery, em Londres, resolveu expor em mostra inaugurada em junho que vai até 20 de setembro. Além de reunir móveis, tecidos e objetos do período, e uma grande quantidade de desenhos de projetos, a mostra faz uma reavaliação desse momento tão experimental da história do design modernista inglês. Pretende sobretudo – daí o titulo dado à exposição, Beyond Bloomsbury: Designs of the Omega Workshops 1913-19 – retirar o Omega Workshops do contexto de boemia dos artistas e intelectuais do Bloomsbury Group e fazer com que seja visto como um experimento ousado, ambicioso e que muito influenciou o design inglês.

 

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Muitas das peças expostas, como pedaços de linho estampado, tapetes feitos à mão, lãs tricotadas e sedas esplendorosamente pintadas foram doadas à Courtauld Gallery pela filha de Roger Fry, Pamela Diamand, em 1958. Muito concentrada em tecidos e desenhos para tecidos, a exposição mostra como os artistas Omega conseguiam transpor uma ideia em forma de pintura para um objeto acabado. Há exemplos espetaculares de tecidos com desenhos abstratos como o geométrico Mechtilde e o fluido Pamela, batizado com o nome da filha de Fry. Fica-nos demonstrado também como muitos desses tecidos estampados alcançavam uma liberdade de expressão como se fossem telas de artistas plásticos.

 

Um dos highlights da exposição é a estola Pavão. Bem longa, de chiffon de seda pura pintada em cores primárias, nunca chegou a ser vendida e ficou guardada e desconhecida do público por 50 anos. Também presente na mostra a famosa tela de Vanessa Bell, Banhistas na Paisagem, obra que transita entre as artes plásticas e as artes decorativas, pois, apesar de ser uma pintura sobre tela, a linguagem tem muito a ver com as estampas abstratas dos tecidos. São atração na mostra dois tapetes desenhados no ateliê Omega e fabricados pela Wilton Royal Carpet Factory. Ali está também um outro menor, desenhado por Vanessa Bell para o apartamento de Lady Ian Hamilton em 1 Hyde Park Gardens. Todos têm em comum o nó intencionalmente frouxo, um aspecto informal próprio da estética Omega.

 

Fica ali evidente a diversidade dos meios de fabricação daquilo que era feito e vendido no estúdio Omega. Fora a tecelagem e a produção com madeira, destacam-se a cerâmica esmaltada em serviços de mesa, pratos e travessas coloridos, além de esculturas de terracota esmaltadas, como os gatos de Henri-Gaudier-Brzeska.

 

Um belo catálogo totalmente ilustrado acompanha a exposição e apresenta uma pesquisa que estuda a fundo o modo de trabalhar dos artistas do Omega, seu legado e sua importância em relação à produção têxtil, à cerâmica e ao design moderno do início do século 20. (http://www.mariaignezbarbosa.com/).