Livro tratado como arte

Maria Ignez Barbosa. Produção de Maria Regina Noto - O Estado de S.Paulo

Maria Correa do Lago é mestra de encadernação manual, técnica iniciada há séculos e valorizadíssima hoje

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No princípio, era o rolo guardado em caixas, cestas ou cilindros de metal; depois, o códice com folhas de pergaminho atadas com nervos duplos de animal e espremido entre duas tábuas de madeira, marfim ou metal e amarrados com tiras de couro e fechos contra a umidade, além de protetores de segredos. Ou decorados como no Império Bizantino, com pedras, esmalte e metais preciosos. Após o advento da tipografia, veio o livro, sempre encadernado manualmente, mas com lombadas retas ou arredondadas, em couro de porco, cervo ou carneiro. Mais tarde, passou a ser encadernado industrialmente como o conhecemos hoje. E, mais recentemente, nos caiu no colo o kindle, produto da revolução do mundo web, sob a fachada de uma encadernação eletrônica.

 

Em tempos bem pretéritos, eram os escravos romanos, chamados ligatores librorum, os encarregados de copiar os livros e encaderná-los. Isso antes do advento dos elaborados livros sacros, que, por se destinarem a valorizar a palavra divina, eram elevados à categoria de arte. Tinham de ser belos e luxuosos, feitos por exímios artesãos e joalheiros, que, com rolos, dobradeiras, réguas de metal e estiletes, desenhavam no couro, douravam, incrustavam, esmaltavam e transformavam suas capas em verdadeira ourivesaria.

 

 

Pois a arte da encadernação manual, que ganhou as características mais diversas de acordo com a cultura de cada país e o período em que era praticada, parece sobreviver impávida, encantando e se renovando, embora restrita a poucos e pacientes apaixonados por essa ocupação milenar. Ouve-se menos hoje, para definir algum tipo de encadernação, expressões como dentelle, fanfarre, aldina, byzantina, brasonada, padeloup, em mosaico ou mudejar. Segue-se, no entanto, ao menos entre jovens e tarimbados artesãos da encadernação moderna e criativa como Maria Correa do Lago, proprietária da pequena empresa Família Enquadernacion Artística. Brasileira, neta de avó baiana e avô diplomata espanhol, que vive entre Rio e Madri, onde mora sua mãe, Maria usa termos como cabeceado, tesourão, nervo falso, cortes, a seco, guarda e cercadura.

 

 

Formada em Comunicação, Maria é uma designer gráfica que entrou no mundo da encadernação por amor aos livros. Além de um tio bibliófilo e livreiro, seu pai, um economista, é também um amante da encadernação antiga e um assíduo frequentador de sebos – "Como escapar desse contágio?" Daí a empresa chamar-se Família, uma homenagem ao amor do seu clã pelos livros antigos.

 

TÉCNICAS TRADICIONAIS

Durante quatro anos, Maria, que nasceu, foi criada e fez faculdade no Rio de Janeiro, estudou em Madri com o conhecido artista gráfico Joaquin Gallegos, depois no ateliê de Beatriz Moreno Borbó, também em Madri, e fez diversos cursos de especialização, entre eles o de douração, com a francesa Helène Jolis. Aprendeu as técnicas tradicionais e dedicou-se também à papelaria, uma maneira mais dinâmica de associar design e criação à arte da encadernação. Sentindo que o mercado espanhol carecia de papéis com estampas mais modernas, tratou de produzi-los – sempre manualmente. Além de revestirem as capas de seus álbuns e cadernos, eles podem ser vendidos em folhas soltas.

 

Os cadernos pequenos são encadernados à holandesa; já os grandes, elaborados como na encadernação japonesa. Três das estampas dos papéis que decoram as capas foram primeiro impressas em um ateliê de serigrafia. Têm nomes poéticos, como "ruído", "mi calle" e "perdición", e foram inspiradas no barulho dos pneus, nos letreiros da rua onde mora e nas garrafas de bebida dos bares que frequenta com amigos nas longas noites madrilenhas.

 

As cordas que usa para costurar os cadernos grandes à japonesa são em geral de juta e tingidas à mão por ela mesma, com tinta acrílica de cores variadas e cuidadosamente escolhidas de acordo com cada trabalho. Seus cabeceados são também feitos à mão, em geral de couro, em tiras coloridas ou não. Jamais usa os industriais.

 

SEM REPETIÇÕES

Uma segunda linha de produtos são os caderninhos tipo moleskine, com imagens antigas de mapas, tipografias, temas de cultura de outras épocas e cuja técnica principal é o transfer sobre o couro. São exclusivos, como tudo o que Maria faz. A encadernadora, que não cessa de pesquisar imagens infográficas de catálogos antigos, revistas e livros garimpados em sebos e nas bibliotecas da família, jamais repete as combinações. Segundo ela, trata-se de uma técnica simples, mas pouco comum, e são um sucesso entre os amigos e clientes. Seus álbuns e cadernos já chamam a atenção de colecionadores da encadernação. Peças extremamente decorativas, e que podem agregar tradição e modernidade a um ambiente, também vêm sendo procuradas por decoradores.

 

Em época de uma festa tão tradicional como o Natal, oferecer um bloco, um álbum porta- retrato, um caderno com folhas de papel reciclado encadernados de forma clássica, mas com linguagem contemporânea e criativa, certamente há de agradar. Suas folhas de papel, se estiverem embalando algum pacote, por si só já valerão como presente.

 

Álbuns de fotos e livros de ouro para casamentos e bebês, Maria faz geralmente sob encomenda. Em uma de suas vindas ao Brasil, deu numa loja com plástico rendado e teve a ideia de com ele fazer a capa de um livro de cozinha. Usou para atar suas páginas a corda de juta que serve para amarrar carne. Em São Paulo, por enquanto, apenas na Loja do Bispo, na Rua Melo Alves, é possível encontrar algumas peças feitas por Maria Correa do Lago, que pode também ser contatada por meio do site www.familiaencuadernacion.com ou pelo e-mail familiaencuadernacion@gmail.com.  (www.mariaignezbarbosa.com).

 

FOTOS | 1. Maria Correa do Lago em seu ateliê em Madri. 2. Álbum de fotos em que foi usada a técnica de encadernação japonesa, com corda de juta. 3. As folhas de papel com estampas inspiradas na vivência de Maria em Madri. E os cadernos tipo moleskine com imagens que são fruto de pesquisa infográfica