Lição seguida à risca

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Tropicalismo de Burle Marx serviu de inspiração para o time de paisagistas

Se fosse vivo, Burle Marx, arquiteto, artista plástico e considerado o maior paisagista do século 20, provavelmente teria aprovado o trabalho dos seus discípulos nesta edição da Casa Cor, que teve 25% da área total reservada aos jardins. Apaixonado pela vegetação nativa brasileira e por formas sinuosas, ele rompeu com os jardins clássicos, lição seguida à risca pelo time responsável pelos paisagismo da mostra. Na maioria dos espaços, explodem as espécies tropicais - folhagens, palmeiras, samambaias, helicônias, bromélias, bambus e capins. Sabiamente, os paisagistas tiraram partido das sexagenárias árvores do Jockey Club , como sibipirunas, jatobás e frutíferas, para criar sob suas copas.

Mas unânime mesmo foi o emprego de recursos sustentáveis. A madeira de decks, gazebos, mobiliário e treliças é de reflorestamento ou de demolição. Marcelo Faisal, por exemplo, organizou suas plantas como num viveiro para reduzir o consumo de água, luz e adubo. Luiz Carlos Orsini projetou um bosque tropical asiático. Gica Mesiara reverenciou Burle Marx com um enorme mapa do Brasil na entrada do Jockey. Em nenhum dos jardins faltaram espelhos d?água, bancos, grandes vasos e ornamentos.

Jardim da Vila

Uma piscina com borda infinita revestida externamente de pedra vulcânica preta e internamente de pedra vulcânica verde originárias da Indonésia é a vedete do Jardim da Vila, de Gilberto Elkis. "É como uma grande escultura", diz. Ele lançou mão de espécies tropicais, como uma fênix trazida das Canárias, o amazônico abricó-de-macaco (uma das espécies preferidas de Burle Marx), guaimbês, capins-azuis e murta. Outro destaque é o uso do ladrilho hidráulico, que cria uma variação de claros e escuros, multiplicados em seus desenhos caleidoscópicos.

Jardim da Entrada

Desta vez, a suntuosa entrada do Jockey virou um grande jardim vertical, com direito a mapa do Brasil feito de plantas e flores, colunas e paredes revestidas de verde, bolas de metal cobertas de renda-francesa e manequins com "cabelos" de ripsális. A paisagista Gica Mesiara diz que procurou unir vegetação e arte na homenagem a Burle Marx. "Quero que as pessoas que veem esse mapa do Brasil lembrem de como era nosso país", diz ela. Gica criou efeitos com iluminação, uma bola que flutua sobre pedriscos de cristal e espelhos.

Boulevard Casa Cor

Um espaço ingrato - um caminho - acabou se tornando um desafio para Mônica Lauretti. Por tendência e gosto pessoal, a paisagista optou pelo uso de várias espécies de capim para bordar a margem do caminho na frente da Cabana do Xamã, de Arthur Casas. Delimitou espaços com cerca de madeira de reflorestamento e cerca viva de tuias-maçãs sem a conífera. E aproveitou a figueira nativa para fazer sombra a um banco de madeira.

Bosque da Tenda

Num projeto simbiótico com a Tenda de João Armentano, Luiz Carlos Orsini concebeu uma mata nativa indonésia, um jardim denso, com clima de mistério. "Procurei traduzir a magia daquelas florestas, onde o clima muda com o decorrer do dia. De um espaço ralo, com algumas sibipirunas, criei um bosque usando espécies de grandes folhas, como licualas, além de palmeira de tronco vermelho, frutíferas - como ameixeiras e mangueiras - e forração de pleomeles, agapantos e variegatas. Trata-se de um jardim intimista", explica Orsini. Estátuas de deusas asiáticas, grandes vasos trazidos da Indonésia e sofá de fibra natural para descanso e contemplação completam o espaço.

Jardim do Bem Estar

Maier Gilbert e Alexandre Braga foram fiéis à lição de Burle Max, criando um jardim onde explodem as espécies tropicais e a sustentabilidade é observada com o uso de madeira ecológica. A dupla de paisagistas usou helicônias, bromélias, pleomeles, dracenas, patas-de-elefante, samambaias, marantas, alpínias e forração de variegatas, além de diferentes tipos de palmeiras, para fazer traçados expressivos, com cores e texturas diferentes.

Praça Casa Cor

Em 1.100 m2, uma praça ampla, aberta, projetada por Alexandre Furcolin, que homenageou Burle Marx com uma linguagem contemporânea no traçado e no uso de espécies que, segundo ele, estavam esquecidas ou em desuso. Em meio a canteiros coloridos que acompanham o desenho e a cor do piso de argila expandida (da Braston), ele distribuiu 20 yucas elephantipes. Lá estão também a dracena-fogo, descoberta por Burle Marx, e plantas que Furcolin trouxe da África do Sul. Com jeito interiorano, o jardim terá um palco onde os visitantes poderão dançar, bancos de armação de ferro e até uma caixa d''água de uma antiga estação de trem.

Praça do Viveiro

Marcelo Faisal, de volta à Casa Cor depois de oito anos, apostou na sustentabilidade para desenvolver a Praça do Viveiro. "Fiz um jardim de baixo impacto porque não houve quebradeira. Coloquei em jardineiras transformadas em grandes cachepôs espécies que consomem pouca água como pandanus, agaves, dasylirium e palmeiras-leque de tronco vermelho, de forma organizada, como num viveiro. Essa organização diminui a competição entre as espécies e o consumo de água e adubo." Faisal ainda construiu um bangalô e fez sua homenagem a Burle Marx com um canteiro em que duas espécies de grama formam ondas como a calçada de Copacabana.