Leve e moderna

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Antonio Ferreira Júnior projeta casa de blocos aparentes inspirada em conceito visto na Austrália

O arquiteto Antonio Ferreira Júnior procurava um apartamento em São Paulo para a atriz Marília Pêra quando conheceu o corretor de imóveis Celso de Mello, que mais tarde intermediaria a compra de um imóvel para o próprio Ferreira. Passado algum tempo, em 2005, foi a vez de o corretor procurar o arquiteto para um projeto particular. "Ele tinha adquirido um terreno meio esquisito, de 6 m x 46 m, com aclive, mas muitíssimo bem localizado, no Pacaembu. Só tinha uma edícula no fundo e uma fundação na entrada, feita pelo dono anterior", diz Ferreira.

Vindo, na época, de uma viagem de um mês pela Austrália, o arquiteto decidiu aplicar no projeto, feito em parceria com seu sócio na AMC Arquitetura, Mario Celso Bernardes, o conceito de casa de praia que havia visto lá, com grandes aberturas em um único volume e uso de blocos aparentes. "Esse tipo de casa que é chamado de ?caixa pura?. Fizemos o projeto de uma morada leve e moderna", conta Ferreira. Dentro do mesmo conceito, a dupla optou pela técnica de alvenaria autoportante, sem vigas nem pilares, amplas janelas de vidro, branco nos acabamentos (alumínio anodizado nos gradis e na escada com piso de chapa de ônibus), ambientes abertos integrados e pé-direito que chega a 6 metros na construção de três andares. "É um loft, tem um quê industrial. E o projeto prevê a construção de futuros ambientes caso a família aumente", explica Ferreira.

Embora simples, os materiais usados exigiram técnicas específicas. Para serem usados com aparência bruta, os blocos de concreto (da Exactomm, com 14 cm x 19 cm x 39 cm, custa R$ 2,08 a peça) receberam uma camada de resina incolor Acqüella (R$ 250 a lata com 18 litros na Comercial Rafael) que os protege das intempéries do lado externo e do esfarelamente do interno. No térreo, em vez de piso cerâmico ou cimento queimado, Ferreira aplicou o que se chama de ?laje zero?. "Não se faz contrapiso; o concreto é aplicado diretamente no chão e alisado por uma máquina."

A área vazia da entrada virou garagem e ganhou um jardim. "Usamos uma base de alvenaria para nivelar o pequeno aclive do terreno. Assim, o piso térreo da casa fica a 1,10 m acima da garagem. Ganhamos uma paisagem muito bonita e a construção ficou isolada das vizinhas", explica o arquiteto.

 

A casa, com 196 m², é toda integrada. O térreo, por exemplo, reúne living, sala de jantar, lavabo e cozinha. Desta, duas portas de correr de vidro (da Zeloart, preço sob consulta) levam a uma varandinha com pérgula de alvenaria, a um jardim projetado pelo proprietário e à edícula nos fundos. O segundo andar também é enxuto, com sala íntima, closet, banheiro e quarto do casal. O último piso, lugar para relaxamento, junta um cômodo com ducha, sala de leitura e solário.

Estilo retrô

Júnior conta que o décor da casa foi feito em conjunto com o proprietário, um fã do estilo retrô. "Juntamos algumas peças que ele tinha com outras contemporâneas", diz Júnior. O mix inclui cadeiras Luís XVI em volta da mesa de jantar de jacarandá anos 60, poltronas da Filter da mesma década, duas outras de Rino Levi e móvel do L?Atelier. No meio do living, se destacam um grande pufe com estampa da cidade de São Paulo, de Paulo von Poser (R$ 8 mil na Galeria Mônica Filgueiras), uma tela figurativa de acrílico de Isabelle Ribot e a enorme porta de ferro enferrujado desenhada pelo arquiteto.

A cozinha em ilha tem balcão com base de cimento queimado e tampo de granito preto. Os armários foram executados pela Ornare. Para contrastar, os bancos seguem o estilo retrô. "Nada aqui sobra", resume Júnior.