Jerzy, lá. Mas aqui é Jorge

- O Estado de S.Paulo

Zalszupin trocou a Polônia pelo Brasil e fez história no design nacional com seu mobiliário moderno

Momento relax. O arquiteto Jorge Zalszupin junto de sua poltrona Dinamaquesa, de 1959.

 

 

É com dificuldade que o arquiteto e designer desce os degraus da escada que liga o piso superior ao estar da casa de 600 m², projetada por ele no Jardim América. "Velhice", brinca o polonês de origem judaica, nascido em 1922 e batizado Jerzy Zalszupin. No Brasil, onde chegou no finalzinho dos anos 40 e depois se naturalizou, virou Jorge.

 

Da Polônia, não guarda boas lembranças. É o antissemitismo percebido desde a infância, os pais separados, o clima de fuga do nazismo. De lá foi para a Romênia, depois Paris, depois o Rio, depois São Paulo. Quase nonagenário, o homem que em casa dizem ser quietíssimo parece não ter receio de expor cicatrizes - como se pode observar na entrevista publicada nas próximas páginas.

 

Figura notável na história do design nacional, Zalszupin fundou, dez anos depois de sua chegada ao Brasil, o L’Atelier. A empresa marcou época com seus móveis modernos, que hoje trazem o autor novamente à evidência por conta do interesse do mercado - nacional e internacional - pelo mobiliário brasileiro dos anos 40 aos 70. Não é só. Podem-se conhecer outras contribuições importantes do projetista no texto da professora de História do Design Ethel Leon, publicado à página 12.

 

Falar mais sobre Jorge Zalszupin, o quê? Que projetou várias arquiteturas, que está na ativa e que tem uma relação uterina coma casa e a vida. Em seus 88 anos recém-completados, uma macarronada com a mulher, as filhas e a neta deu conta da comemoração. Mais Jorge, impossível.

 

 

Conforto e história. A sala de estar do lar de Jorge Zalszupin sintetiza memórias de 88 anos. Ao fundo. a escada feita de jacarandá

 

 

 

COMEÇO DE VIDA: arquiteto quis lucrar e levou prejuízo

 

Era 1949. Antes de imigrar para o Brasil, Jorge Zalszupin tinha o equivalente a US$ 500 em Paris. Pensou em comprar algo para vender mais caro na nova terra. Então, torrou o dinheiro em perfumes franceses, mas tudo foi por água abaixo.

 

Recém-chegado ao País, tentava vender os frascos e nada. "Ninguém comprou e fiquei a zero", conta. Pior: encontrou um dito "amigo" de seu pai, que pegou a mercadoria e disse que ia vendê-la. "Estou esperando ele voltar há uns 70 anos."

 

 

 

ANÁLISE: ETHEL LEON

Arquiteto, designer e professor

 

A obra de Jorge Zalszupin ainda vai ganhar muitos volumes em bibliotecas. Sua produção tem facetas a serem estudadas e uma delas é assombrosa. Ele liderou um laboratório de design que atendia simultaneamente a uma empresa de computadores, uma de utensílios plásticos, uma de móveis e outra de ferragens!

 

Essa experiência rara em todo o mundo foi nos anos 70, quando o grupo Forsa comprou o L’Atelier, de Jorge, que fabricava móveis. Levou junto o passe dele, como diretor de desenvolvimento de produtos. São desse período ousados móveis e utensílios.

 

No L’Atelier, fundado em 1959, novas peças eram desenvolvidas o tempo todo, usando madeira maciça, como o jacarandá, em desenhos por vezes frugais e modernos, aqui e ali com lembrança do design nórdico; e às vezes exagerados, sem economia de matéria-prima, que atendia a uma clientela rica e desejosa de grandes volumes nos ambientes.

 

Jorge é reverenciado por muitos que trabalharam com ele, pois conseguia ensinar e incentivar seus colaboradores. Que o digam Oswaldo Mellone e Julio Katinsky, autores de projetos de móveis e utensílios gestados com Zalszupin. Muito me alegra ter apresentado Jorge a Etel Carmona, que reeditou vários móveis dele. Seria fantástico que uma empresa de plásticos produzisse o engenhoso balde de gelo ou os armários Putzkits, grandes projetos sem similar...

 

* Ethel Leon é editora da revista de design Agitprop (www.agitprop.com.br), professora de história do design e autora de ‘Memórias do Design Brasileiro’ (Ed. Senac)