Jardins em seqüência

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Espécies nativas conferem sensações e movimentos ao projeto desenvolvido pelo paisagista Raul Pereira, em parceria com o arquiteto Henrique Reinach

Uma seqüência de sensações e movimentos, como um filme. Essa idéia pautou o trabalho de Raul Pereira no projeto paisagístico de uma casa no Itaim, no início dos anos 2000. A residência era objeto de uma reforma completa, conduzida pelo arquiteto Henrique Reinach, e os dois profissionais atuaram juntos em todas as fases da obra. "Foi um trabalho singular. Dei seqüência à criação de vários jardins à medida que o Henrique fazia as intervenções", recorda Raul, doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP. Reinach conta que transformou o imóvel dos anos 40/50, erguido no terreno de 1.100 m², numa casa contemporânea, invertendo cômodos e funções. "Como quase todas as residências da metade do século 20, havia um jardim com gradil baixo voltado para a rua. Nos fundos ficavam a garagem e as dependências de serviço", conta. "Na reforma, a garagem veio para a frente e a casa passou a abrigar, no fundo, um espaço de lazer, com piscina, churrasqueira e área verde, aproveitando um bosque lateral que já existia."Raul explica o diálogo entre arquitetura e paisagismo, apontando para as pérgolas de alvenaria criadas por Reinach no lado direito da casa, a partir da rua. "Meu projeto fez foco na densidade da vegetação, que sugere uma seqüência de sensações ao longo do percurso. Parti de uma linguagem escultórica para outra mais livre, nos fundos, onde já havia uma área verde", conta. O escultórico se traduz em canteiros com bromélias, bambu, glicínias e patas-de-elefante (entre 1 m e 1,20 m, R$ 250, na Promoverd) em oposição a um espelho d?água (onde estão mergulhadas vitórias-régias de cerâmica, trabalho de Lygia Reinach) cercado por estrelítzias-lança, alpínias vermelhas, ixoras e outra pata-de-elefante plantada em vaso, "como um totem para sinalizar a entrada".O extenso caminho reserva uma surpresa: o jardim que "abraça" a casa e que tem, como vedete, o bosque com pés de uvaia, abacate, amora e goiaba; guaimbê, seafortias, sibipiruna, ipê e arecas. Raul ainda plantou romãzeira (mudas de 2 m, por R$ 180, na Promoverd), jabuticabeira, pitangueira, um pé de laranja kinkã (de 50 cm a 1 m, custa cerca de R$ 31,50, na Tatuapé Garden) e uma imponente fênix (de 2 m, R$ 600, na Promoverd). Nas laterais, maciços de arecas, alpínias, camedórea e rododendros e, na forração, singônio (caixa com 15 mudas, R$ 7,30, na Natus Verde) de um verde mais claro, que vai se tornando mais escuro à medida em que vão surgindo costelas-de-adão, pacovas e ráfias em vasos, na área do deck.Do lado oposto ao bosque, em um dos pátios internos, surgem as orquídeas e as licualas com folhas largas como leques, junto à parede de canjiquinha. Um corredor da casa de máquinas faz união com a área da piscina, onde reina a ravenala com 6 metros de altura (de 1,20 m a 1,50 m, R$ 70, na Natus Verde). A espécie típica de Madagascar, conhecida também como árvore-do-viajante, disputa em beleza com a trepadeira-jade (muda de 1 m, R$ 70, sob encomenda, na Natus Verde), cujos cachos turquesa cobrem a viga de concreto. Raul se entusiasma quando fala do jardim. "Em grandes espaços, sempre procuro usar esse tipo de vegetação, pois sua beleza está na rebeldia."