Invenções de arteira

Jennifer Gonzales - O Estado de S.Paulo

Neta de artistas plásticos, a arquiteta Carolina Maluhy explora a irreverência em sua casa

Miudinha, sorriso doce, a arquiteta Carolina Maluhy tornou-se rapidamente um dos nomes mais cotados da nova geração, com projetos para grifes badaladas e residências nos Jardins. "A loja que fizemos para a Cris Barros deu visibilidade", diz Carolina, que, junto com a sócia Isis Chaulon, abriu um escritório de arquitetura em 2004, após trabalhar com Isay Weinfeld. Não raro, a profissional figura em colunas sociais, mas é fácil perceber o lado sério dessa paulistana de 33 anos. "É um pouco do meu caráter, mas também tem o peso da responsabilidade - o escritório cresceu e hoje somos oito arquitetos", conta. Vinda de uma família de artistas e empresários (a mãe, a americana Candy Brown, é estilista, e os avós foram artistas plásticos), Carolina tem um gosto incomum para sua idade em matéria de arte e mobiliário. Um refinamento que se exprime na casa de 350 m², no Jardim Paulistano, e mescla toques de irreverência - como a geladeira verde-pastel, instalada logo na entrada do living. "Era da minha bisavó. Mandei restaurá-la e hoje coloco bebidas para os convidados se servirem", revela a arquiteta. Que defende, aliás, uma teoria sobre a arte de morar: "Não gosto de casa com cara de decoração. Ela deve refletir a personalidade do dono, sem se preocupar em combinar objetos", opina. "Objetos criam harmonia por si só."A tese de Carolina é demonstrada na própria casa. Próximas à geladeira, estantes de aço (Tok&Stok, modelo Ultradur, a partir de R$ 498) convivem com o aparador de madeira dos anos 60, herança de família. No mesmo am-biente, a poltrona art déco ("...paguei, anos atrás, cerca de R$ 2 mil, na Antiguidades Privilégio") divide espaço com as poltronas capitonê e a mesa de centro com tampo de mármore travertino (Marmoraria Clodomar), cujos pés foram improvisados com livros de arte. Sobre o móvel, mais livros e um vaso de Murano amarelo e verde (em torno de R$ 2,5 mil, no Antiquário Ivy), uma das peças favoritas da arquiteta.Enquanto observa Alec, o filho de três anos, Carolina recorda que gostava de desenhar desde menina. "Nos anos 50, meu bisavô paterno encomendou uma casa ao arquiteto modernista Gregori Warchavchik, onde, mais tarde, cresci. Lembro de prestar atenção na divisão de espaços e nos móveis de madeira, desenhados também por ele", conta. Arquitetura nos EUAVocação natural e ambiente artístico estimularam a adolescente de 16 anos a mudar-se para Boston, cidade natal da mãe, onde completou o ensino médio e estudou Arquitetura na Universidade Northeastern, formando-se em 1998. No mesmo ano, rumou para Florença e fez pós-graduação. "Na Itália aprendi a pensar a arquitetura na vida das pessoas. Nosso trabalho é inserir os projetos dentro desse conjunto importante que é a cidade, com harmonia", afirma. "Uma construção não é para ser um monumento isolado da obra do arquiteto."Carolina fala então do seu avô, o pintor espanhol Ivan Mosca, que a influenciou no apreço pela arte moderna. Há duas telas dele na sala de jantar, com mesa desenhada pela arquiteta em ferro (da Swat Serralheria, orçamento sob consulta) e tampo de espelho (da Casa dos Vidros), e as cadeiras de jacarandá e assento de veludo, da Juliana Benfatti (poltrona de mesma madeira, com braço, custa R$ 1.900). "Sempre adorei o quadro de uma borboleta que meu avô fez nos anos 50 em Nova York, onde morou", lembra Carolina. "Ele gostava de pintar insetos e eu curto borboletas..."