Internet é meu décor

Penelope Green, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Escritora encontra no site craigslist.org peças e móveis para sua casa de fim de semana e, de quebra, recolhe histórias de quem vende suas peças

Brenda Cullerton, redatora de publicidade e escritora, é fanática por histórias, uma leitora tão voraz a ponto de esconder o hábito do marido, Richard DeLigter, diretor de filmes comerciais, entocando sacolas de novos livros nos cantos de seu loft, em Manhattan. Isso explica por que, em março, quando Brenda e Richard compraram uma casa dos anos 30 em Cape Cod, sudoeste de Connecticut, para refúgio de fim de semana da família (há ainda os filhos Jack, 18 anos, e Nora, 13), atopetaram o lugar de histórias. Na verdade, histórias de outras pessoas, encontradas no craigslist.org, um bazar online. Sem sótão ou porão recheados com heranças de família, comprar móveis por meio do craiglist foi um modo de encher os cômodos da casa (que custou US$ 500 mil), de forma barata e rápida. Uma vez que o site é um mercado no velho modelo - caótico, desregrado e vividamente humano (você pode achar alguém para um encontro para o almoço tão facilmente quanto um sofá) -, cada transação, segundo Brenda, vem com uma novela. Diferentemente das transações no eBay, as do craigslist normalmente requerem encontros cara-a-cara. Assim, em cada uma de suas compras (ela gastou menos de US$ 4 mil) concedeu um momento para alguém ansioso para dividir sua história com outro. Quanto maior o objeto, mais dramático o conto. Foi a venda da mobília de uma mulher, listada online como "meu namorado é um trapaceiro mentiroso", que atraiu Brenda para as caçadas noturnas (além de viciada em livros, ela é uma insone). Ela entrava no craigslist às 3 horas - a maioria das inserções aparecem entre as 22h30 e 1 hora - e poderia estar na soleira da porta de alguém às 10 da mesma manhã, pronta para ouvir muito. "Eles mal podiam esperar para fazer confidências, ou porque estavam muito deprimidos ou muito contentes", conta. Brenda comprou um jogo de delicados pratos Wedgwood, em azul e dourado, com amores-perfeitos estampados (oito por US$ 60) de uma cantora de ópera, no Upper West Side. Ela morava num apartamento clássico ("ah, o teto!", admira-se ainda Brenda. "Eu nunca tinha visto um apartamento clássico") com seu ex-namorado. "Eles viviam em espaços bem divididos. Acho que foram muito felizes uma época." Um bule kilim turco veio de uma jovem que disse a Brenda estar pronta para se reinventar em Los Angeles. Ela vinha fazendo embrulhos de presentes para festas há 10 anos. "A festa acabou", disse. Uma mulher em processo de divórcio litigioso estava se desembaraçando de todos os presentes que seu marido, um homem com gosto por mobília européia antiga, havia lhe dado. Brenda comprou uma moldura dourada (US$ 90) e uma banqueta com pequenos pés dourados, com almofada de seda bordada (US$ 40). "Vou me tornar totalmente moderna", afirmou a ex-esposa. "Livrar-me de qualquer traço dele." Um sofá molambento-chique foi o primeiro artigo que Brenda comprou por meio do craigslist, de um jovem banqueiro que estava se mudando para o exterior. "Foi meu pecado", diz ela, explicando por quê. Em 2005, Sam Swope, um colega escritor, mandou-lhe um e-mail com um link para a foto de um sofá para sua aprovação estética. Acontece que ele não tinha dinheiro (US$ 900) para comprá-lo. Brenda tinha e queria. Por decoro, esperou uma semana e então arrematou-o sem contar a Swope."Foi a primeira peça que encapei, para esconder meu pecado", diz. " Naturalmente, na primeira vez que o viu ele o reconheceu. Toda vez que sento nele, me sinto culpada." Uma manhã, o livro mais recente de Swope, I Am a Pencil: A Teacher, His Kids and Their World of Stories (Henry Holt, 2004) apareceu sobre a mesinha defronte ao sofá (agora forrado de um algodão pesado, com listras coloridas). Brenda procurou espalhar cores ricas e quentes nas capas dos móveis e na pintura das paredes, como um meio barato de dar personalidade à sua nova casa. O quarto do casal é púrpura; o de Nora, um rosa de bordel quebrado por muito branco; o de Jack ganhou azul-real com listras brancas e vermelho brilhante, a óleo, nas portas. A sala de TV, azul Tiffany, com alguns detalhes mínimos em preto. Como Richard quer uma piscina, ela pintou o chão de concreto de uma varanda de azul-piscina como um prêmio de consolação a seu desejo. "Eu preferia uma de verdade e estou pensando em jogar na loto", diz o marido.