Inspiração na decoração e na arquitetura que vem do Japão

Ana Lourenço - O Estado de S.Paulo

Tradição, simbologia e espaço de transição: eis, em resumo, a regra para aplicar o estilo dentro de casa

Projeto de Cristiane Schiavoni com inspiração japonesa: porta de correr e origamis

Projeto de Cristiane Schiavoni com inspiração japonesa: porta de correr e origamis Foto: Carlos Piratininga

De um lado Tóquio, com seus arranha-céus gigantescos, tecnologia, vida frenética. De outro Kyoto, com seus templos, casas de chá tradicionais, forte presença da natureza e minimalismo. O Japão tem um pouco de tudo: por lá, o tradicional e o contemporâneo andam lado a lado – como foi visto na abertura da Olimpíada

Isso se aplica também em relação à decoração. Porém, ao importarmos seus elementos para o Brasil, os moldes do passado serviram como base para a criação de uma arquitetura e design que levam a simbologia e o minimalismo muito a sério.

A imigração japonesa para o Brasil, que começou em 1908, fez com que o País se tornasse o local com a maior população de descendentes e japoneses fora do Japão. Por isso mesmo, as trocas entre as nações foram grandes. Enquanto lá vemos inspirações de Oscar Niemeyer (como no Museu de Arte de Teshima, do arquiteto Ryue Nishizawa), aqui construções de madeira, elementos de decoração e a otimização de espaço são algumas das influências que herdamos.

“No Japão, as escolhas precisam ser muito certeiras. Não existe uma ostentação de espaço que nem aqui. Lá é restrito, então as coisas precisam ser muito cheias de significado para que você possa trazer alguma para sua casa”, conta a designer Nara Ota, que carrega essa característica em suas produções.

Mas se aqui o vazio remete à falta e à ausência de algo, para os japoneses ele é uma possibilidade do que está por vir. “O que explica isso é o conceito do Ma, que é essa ideia da potência do vazio, do espaço entre, que permite essa ideia da adaptabilidade e mudança”, diz a arquiteta Marina Lacerda.

Essa indeterminação no Japão é muito importante. A casa tradicional, por exemplo, é considerada “uma sala de tatame”. “O que vai definir o seu uso são os objetos, que são guardados num armário. Se o filho vai estudar, tem a mesa e a cadeira; com mais lugares, a família come; se tirar tudo e põe o futon, a família dorme. As pessoas podem colocar o ritmo de vida delas como bem entenderem”, explica Marina. “Então o arquiteto não determina onde o morador vai dormir, comer, ele deixa os espaços em aberto.”

Casa Yugen Deca, ambiente da Casacor Santa Catarina 2021, projetado por Gabriel Bordin

Casa Yugen Deca, ambiente da Casacor Santa Catarina 2021, projetado por Gabriel Bordin Foto: Lio Simas

Mesmo sem saber disso, muitos brasileiros aplicaram o conceito em suas casas durante a pandemia, uma vez que os espaços tiveram de se tornar múltiplos com o home office, exigindo móveis multifuncionais e soluções criativas para criar privacidade. Talvez por isso, o número de projetos com cortinas como divisórias começaram a crescer. Embora sua função principal ainda esteja associada às janelas, o adereço tem capacidade de criar intimidade nos ambientes, garantindo fluidez e flexibilidade, com espaços que se abrem totalmente. Claro que também existe a opção do velho e bom biombo, também herdado do país oriental.

“Essa coisa da divisória, da porta de correr em madeira, que hoje o brasileiro está descobrindo, já se usava há muito tempo”, conta a arquiteta e descendente de japoneses Cristiane Schiavoni. “Quando estou desenhando um projeto, percebo uma linha mestra do pensamento japonês, mas muito mais em função de otimização de espaço, nos móveis mais baixos”, explica.

Outra característica é a estética assimétrica, considerada pelos japoneses mais bela do que a simetria. “Eles gostam muito de números ímpares, três, cinco, sete. E tem toda uma simbologia por trás. Na mitologia japonesa, por exemplo, o número três tem essa ideia de representação do céu, da natureza e do ser humano”, explica Marina.

Elementos da natureza

As transformações e mudanças também são valorizados em relação à natureza. Mais especificamente, na natureza dentro de casa. Seja a gradação da luz que invade os espaços durante o dia, o período de vida das plantas ou até os objetos feitos com materiais como a madeira, a palha ou o bambu, que se transformam ao longo dos anos. 

Menina com folha Aki, da designer Nara Ota 

Menina com folha Aki, da designer Nara Ota  Foto: Cinthia Trigo

E se no Ocidente o valorizado é a perfeição, por lá a estética Wabi Sabi, muito presente no estilo de decoração Japandi, mostra a beleza do imperfeito. “É sobre valorizar a impermanência dos materiais e das coisas, de valorizar as marcas do tempo, as fissuras, texturas que são naturais”, conta a arquiteta Teresa Mascaro, que gosta de destacar esses pequenos defeitos em vez de disfarçá-los. “Isso acaba levando à escolha de materiais naturais, crus, no lugar daqueles que imitam outra coisa ou tentam enganar.”

No design, Nara Ota descreveu bem esse conceito com a linha Aki, desenvolvida para a marca Theodora Home, em parceria com a Suite Arquitetos, e inspirada nas folhas douradas do outono japonês. A marca também lançou recentemente a linha Yasuda, com objetos para a mesa que homenageiam o Japão, como a cerâmica trazida pelos orientais para o Brasil. De acordo com a Japan House São Paulo, as primeiras peças no estilo Jomon – considerado um dos mais antigos do mundo – surgiram há 16 mil anos. 

Um dos polos da cerâmica no mundo, aliás, é Cunha, no interior de São Paulo. O local concentra diversas famílias de descendentes japoneses, como Mieko Ukeseki. “Junto com o marido, Mário Konishi, eles vão construir o primeiro forno específico de cerâmica (Noborigama) e desenvolver uma série de esmaltes específicos. É muito interessante como no artesanato japonês cada pessoa desenvolve sua própria técnica, e ela é só sua. Se você quiser passar para alguém, ela continua, senão fica um mistério”, reflete Marina. 

Relação com o exterior

Cada vez mais procuramos a conexão com o que está fora da casa. “O (arquiteto) Sou Fujimoto cria espaços abertos pensando na sensação de espaços fechados; e espaços fechados que poderiam trazer uma sensação de espaço aberto. Então há uma ideia de integração muito forte com o meio”, detalha Marina. No Brasil, a tradução veio em forma dos jardins de inverno. Além de funcionarem como recurso decorativo, o ambiente traz luminosidade e ventilação natural para a casa. O objetivo, assim como nos jardins japoneses, é a contemplação da natureza.

Obra Sumo, da designer Nara Ota, inspirada na luta japonesa 

Obra Sumo, da designer Nara Ota, inspirada na luta japonesa  Foto: Edu Magalhães

“O trabalho com a luz, com a iluminação natural, também vai ser um elemento de definição desse espaço meio borrado, que é meio dentro, meio fora. O Engawa, que é a varanda deles, digamos assim, tem características específicas”, conta. Entre elas está o piso, sempre de madeira, e o fato de ser aberto para a área externa, fazendo a conexão com a área interna da casa. Costuma ser coberto com telha e está em um piso cerca de 40 cm acima da terra. “Esses elementos dão a sensação de estar dentro, mas o fato de ser totalmente aberto dá a sensação de estar fora também”, exemplifica Marina.

Perspectiva

A rainha da organização Marie Kondo traduz bem outro conceito japonês aplicado no dia a dia com a sua célebre frase “isso te traz felicidade?”. Ou seja, tudo que está no lar deve ter um propósito, uma função. Isso pode ser simbolizado em objetos luxuosos, mas na maioria das vezes é algo simples, como uma pedra – elemento inspirador da nova coleção de Nara Ota, em parceria com a designer Nao Yuasa. “Vamos lançar um pedaço dela dentro de um espaço da Casacor deste ano. Vai ser todo baseado nessa história da escolha, de ser um objeto para você levar para o seu ninho, um objeto que você escolheu na natureza e que se torna importante por conta da escolha, bem simbólico”, diz. 

Justamente por dar essa importância a cada pequeno objeto, o descarte do que não serve mais também ganha relevância – o que se pôde ver no peso que a sustentabilidade teve na Olimpíada de Tóquio, com camas feitas de papelão ecológico e medalhas produzidas de eletrônicos reciclados.

“Uma coisa que me norteia muito é a palavra japonesa mottainai, que é sobre você não desperdiçar, sobre o respeito por aquilo que você tem. Então quando estou fazendo um projeto de um local onde o cliente já mora, essa coisa de você olhar cada coisa com o respeito que ela merece e ver se dá pra aproveitá-la, se está em bom estado, é muito forte”, conta Cristiane.

INFLUÊNCIAS DA TERRA DO SOL NASCENTE

  • Futon: Basicamente um tecido com algodão dentro. Enquanto no Japão ele é mais leve, aqui é mais grosso e pode ser usado como sofá
  • Tatame: Prensado de palha de arroz que servia para fazer o piso das casas tradicionais japonesas. No Brasil é mais visto em restaurantes
  • Biombos: Dentre os deslizantes estão o Shoji, espécie de porta com estrutura de madeira e vedação de papel; e o Fusuma, que tem uma estrutura de madeira total, muitas vezes mais opaco 
  • Ofurô: No Japão, os banheiros públicos também são chamados de ofurô, mas aqui a palavra se tornou sinônimo apenas  das banheiras de casa
  • Cerâmica: Peças feitas a partir da argila. Hoje, a maioria das peças, como tigelas, bule e molheira para shoyu é revestida por um esmalte impermeável feito de pó de vidro
  • Conceitos: São vários nomes em japonês que guardam alguma filosofia para o dia a dia - muitos são  aplicados na casa. Como o Iki, que significa requinte sem excessos; o Kanketsu, que afirma que “o bom design se cria com elementos simples, despojados e discretos”; o Fukinsei, traduzido como assimetria; e o Shizen, que é a naturalidade
  • Luminárias de papel: Com versões arredondadas, cilíndricas ou ovais, a luminária típica do Japão invadiu muitos ambientes da casa, como a sala ou o quarto. Sua tonalidade é mais amarelada para dar a sensação de um ambiente de relaxamento e contemplação