Ideias luminosas

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

No limite entre a arte e o design, as luminárias Wonderglass, fabricadas em Veneza, desembarcam na loja Orbi Brasil

Pendentes Flow, de Nao Tamura

Pendentes Flow, de Nao Tamura Foto: divulgação

As águas da laguna brilhando à noite. Logo abaixo delas, uma cidade imaginária, em movimento. Separando os dois mundos, uma linha de luz. Roteiro de uma peça de ficção? Nada disso. No país das maravilhas da Wonderglass, empresa de iluminação fundada pelos italianos Maurizio e Christian Mussati, pai e filho, a paisagem onírica, descrita pela designer japonesa Nao Tamura, pode muito bem sugerir a construção de uma bela luminária. Ou melhor, de toda uma família delas. 

“Em uma cidade onde realidade e fantasia coexistem, este lustre é a personificação da beleza entre esses dois mundos”, afirmou Nao, durante o lançamento de sua série de pendentes de vidro que reproduz, fielmente, as cores das águas venezianas. Mais que uma luminária, uma instalação na qual peças combinadas apontam para uma concepção escultórica da iluminação.

“Nossa intenção é propagar a tradição vidreira vêneta, fazendo de suas técnicas milenares ponto de partida para a criação de luminárias contemporâneas. Acreditamos que todo o conhecimento acumulado pelos mestres ao longo dos séculos não pode simplesmente desaparecer, motivado pela concorrência desleal praticada hoje pelo mercado. Seria uma perda lastimável”, adverte Christian, que esteve recentemente em São Paulo para lançar sua última – e estrelada – linha de luminárias na Orbi Brasil.

“Nada contra a produção em larga escala. Consideramos inclusive que ela até pode dar origem a produtos válidos. Apenas não é esse o nosso interesse”, comenta o empresário, que vê a exclusividade como um caminho natural para a marca. “Trabalhamos com vidro, não existe outra possibilidade. Ele é, por natureza, um material que não permite repetição. Cada uma de nossas peças é soprada e, portanto, única. Assim como nosso desenho.” 

Daí, segundo ele, a ênfase no contínuo aprimoramento da qualidade global de seus produtos. A permanente busca pela inovação. A escolha criteriosa de artistas e designers que se revelem empenhados em ver suas criações materializadas em vidro. “Gosto quando os designers chegam a mim com projetos de difícil execução, que exijam altos níveis de habilidade técnica”, admite Christian. “É por esse tipo de produto que queremos ser lembrados.”

Como exemplo, ele cita o lustre Luma, criado pela designer iraquiana Zaha Hadid, a partir de quatro segmentos tubulares que seguem uma trajetória radial até se transformarem em luminárias no formato de diamante. Uma construção baseada em rígidos princípios matemáticos, mas soprada, como todas as outras, em uma das unidades produtivas da empresa em Murano, na laguna de Veneza. A sede oficial fica em Londres.

“Nossa estrutura faz com que seja possível criar praticamente tudo: de itens pequenos, como no caso de Sleeve (um lustre de desenho minimalista, assinado pelo britânico John Pawson), que se resume a um cilindro de vidro transparente que fica posicionado dentro de outro, até constelações monumentais de lâmpadas, que podem crescer indefinidamente”, afirma. 

O italiano Christian Mussati, sócio-fundador da Wonderglass

O italiano Christian Mussati, sócio-fundador da Wonderglass Foto: divulgação

Importante também no negócio é a ampla possibilidade de personalização de todas as peças, o que permite aos arquitetos decidirem sobre suas próprias combinações e arranjos. Como exemplo, o empresário comenta outra de suas recentes criações, Black Bat: um lustre desenvolvido em parceria com o grupo japonês Nendo, que lembra uma colônia de morcegos pendurados de cabeça para baixo, em um galho de árvore ou no teto de uma caverna. 

“O suporte de vidro onde as cúpulas são conectadas pode receber diferentes configurações de espaçamento e, além disso, pode ser acoplado a outros. É possível criar desde uma grande até uma pequena colônia”, explica Christian, que não se incomoda em situar as criações da Wonderglass no limiar do escultórico. Desde que com uma boa dose de humor. Na série Masquerades, do espanhol Jaime Hayon, por exemplo, a ideia foi sugerir uma família de personagens inspirados nos célebres bailes de máscaras vênetos. 

Por isso, a paleta de cores é discreta, estabelecendo um contraste direto com o formato algo divertido de cada um dos lustres. “Vidro e luz são indissociáveis. Não existe vidro sem luz. Por natureza ele é uma matéria-prima luminosa. O que procuramos fazer é apenas sugerir paisagens perfeitas, situações ideais ou simplesmente lúdicas onde contrastes sutis capturem a imaginação das pessoas. As faça sonhar”, conclui.