Hotel onde se respira estilo

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

No londrino Boundary, os quartos foram concebidos sob inspiração de um designer ou um movimento

Proporcionar um nível de experiência raro, que não poderia ser repetido em nenhum outro lugar. Investir pesado na cenografia, fazendo do hotel um espetáculo inesquecível. Elevar o nível de hospitalidade às alturas. Fazer, enfim, com que cada viajante, ao voltar para casa, leve de sua residência temporária não apenas uma vaga lembrança, mas muitas histórias. Com pequenas variações de sotaque e estilo, o Boundary, hotel londrino recém-inaugurado na região de Shoreditch - no outrora decadente East End, hoje lugar da moda -, segue fielmente a receita de sucesso consagrada em estabelecimentos do gênero em todo o mundo. Apesar de contar com uma assinatura de peso - de Terence Conran, legendário empresário britânico do setor de design - o hotel não faz disso seu principal diferencial. Como em nenhum outro, no Boundary respira-se design.

 

Ocupando um antigo armazém da era vitoriana, ele conta com dois setores bem definidos - um ocupado por quartos e outro por suítes convencionais. No térreo fica o café; no porão, o restaurante; e, na cobertura, um vasto jardim com vista para a cidade. Ao contrário de seus similares, no entanto, os dormitórios são uma atração à parte: assumidamente concebidos sob inspiração direta de um designer ou movimento, repassam em seu conjunto os grandes momentos do design no século 20.

 

Ao todo, são 12 diferentes propostas de ambientação, distribuídas entre o primeiro e o segundo andares do edifício, amplamente iluminados por grandes janelas, tipo guilhotina. Em cada um deles, uma composição completa, envolvendo revestimentos, iluminação e mobiliário, que traduz, no formato de um interior contemporâneo, a contribuição dos designers e movimentos que Conran considera fundamentais na consolidação do design moderno.

 

Do universo de Charles e Ray Eames, por exemplo, o diretor soube representar, com sutileza, a quase obsessão do casal em reduzir o número de peças em uso em um ambiente, não apenas para facilitar o cotidiano doméstico, mas para bem extrair de cada um dos móveis sua máxima expressão.

 

Ícones

Subvalorizado durante a maior parte de sua carreira, o talento da designer inglesa Eileen Gray, referência para os movimentos modernistas e art déco, aparece bem revisitado. Elemento de destaque no quarto dedicado à designer, o traçado linear do piso de carpete coloca em evidência a sensualidade de seus delicados móveis de linhas marcadamente curvas.

 

A preocupação em explorar o lado escultural do design é perceptível também em outros dois dos melhores momentos do Boundary, as unidades dedicadas a três ícones do design de todos os tempos: os franceses Le Corbusier e sua assistente Charlotte Periand, e o alemão Mies van der Rohe.

 

Desse último, a leitura seca e linear do quarto imaginado por Conran faz jus ao apreço do arquiteto em revelar "pele e ossos" dos espaços, ao mesmo tempo em que incorpora a ele seu móvel ícone: a poltrona Barcelona, de couro e metal. Elegante e simplificado, o trabalho dedicado à francesa Andrée Putman ocupa 31 m² de um quarto dominado pelo bicromatismo, tão ao gosto da designer que declarou um dia amar tanto o belo quanto o útil, mas, em particular, a beleza dos detalhes. O austríaco James Hoffman, célebre por seus móveis simples - de inspiração minimalista - além do humor ácido de Heath Robinson, o artista da idade da máquina, completam a série de quartos dedicados aos personagens do mundo do design.

 

Entre os movimentos, o quarto baseado no estilo Shaker, com sua marcenaria simples, austera e utilitária, é o que oferece a melhor representação, seguido pelo British, que exibe móveis clássicos, temperados com um toque moderno, como a poltrona e o sofá de época revestidos de retalhos. Cores primárias e móveis de aço tubular compõem o quarto dedicado à Escola Bauhaus, enquanto no dormitório escandinavo todas as atenções recaem sobre os desenhos de Arne Jacobsen e Eero Saarinen.

 

Para quem pretende fazer de sua estada no Boundary uma imersão no universo design, o hotel oferece ainda uma ampla seleção de livros e revistas sobre o tema. O nível de conforto é parecido com um de uma casa, mas com a classe de um cinco estrelas. A começar, claro, pelas diárias. Hoje na casa de iniciais, 200 libras (cerca de US$ 314).

 

marcelo.lima.antena@estadao.com.br