Homem das mil e uma artes

Maria Ignez Barbosa, nese@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Ícones - Carpentier - artesão, músico, designer e um príncipe da art nouveau - ganha mostra no Museu D?Orsay, em Paris

Ele nunca foi reconhecido como foram Gaudí, Gallé ou os Guimard, esses notórios príncipes da art nouveau. Muito do trabalho do versátil artista e artesão parisiense Alexandre Charpentier, que viveu entre 1856 e 1909, acabou desaparecendo no tempo, sendo vendido, mutilado ou destruído. É, portanto, uma agradável surpresa que, no Museu D?Orsay, em Paris, uma atraente e bastante completa exposição venha oferecer ao público interessado nas artes decorativas a possibilidade de conhecer o trabalho e saber quem foi esse artista superdotado que modelava com gesso, fundia no bronze, desenhava no couro, fazia pintura e criava móveis, tudo ao mesmo tempo, tal um verdadeiro faz-tudo ou touche-à-tout, como dizem os franceses. Como os modernos de hoje, já acreditava que a arte deveria permear totalmente e com beleza o nosso dia-a-dia. De personalidade extremamente sedutora e algo anarquista, podia apresentar-se ora como músico profissional, ora como homem de teatro, desenhando programas, cartazes e retratos de atores, ou então como um ativo elemento do café society, em frívolos tempos de Belle Époque. Uma vida curta, agitada e, de início financeiramente difícil (morreu de câncer aos 53 anos, no bairro chique de Neully), impediu que ficasse mais evidenciada a importância que de fato teve na prática do design e no surgimento do art nouveau. Em vida, no entanto, conviveu e teve o apoio da vanguarda literária e de artistas ligada a Émile Zola e aos neo-impressionistas. Era amigo íntimo de Debussy, que foi seu padrinho quando do segundo casamento e que lhe dedicou uma de suas "imagens para o piano". Charpentier, músico nato, foi violoncelista talentoso e chegou a tocar música de câmara com grandes instrumentistas de calibre, como o famoso Eugène Ysaye. Um salão,"Os XX"Nas artes plásticas e decorativas, adotava quase sempre temas naturalistas que iam da família, da infância e do trabalho à água, música e dança, e que aplicava sobre qualquer tipo de móvel ou objeto como conceito ou ornamento. O primeiro sucesso aconteceu no Salão de 1883, com a escultura "A jovem mãe", toda de mármore e hoje no Museu Granet, em Aix-en-Provence. Somente em 1890, no entanto, em Bruxelas, num salão avant-garde chamado "Os XX", é que de fato se lançou, ao expor esculturas ao lado de Pissaro, Signac, Luce e Theo van Rysselberghe. Em seguida, expôs no Salão dos Dissidentes da Escola de Belas-Artes e ali, como havia um segmento de artes decorativas, teve a grande oportunidade de mostrar seus múltiplos talentos também nessa área. Foi quando começou a explorar, sob inúmeras formas, o gesso, o mármore, o bronze, a prata, o estanho, a cerâmica, a litografia, o papel e o couro lavrado. Inventava qualquer tipo de objeto e, para ele, qualquer uso: plaquetas puramente decorativas ou para aplicação sobre seus móveis, elementos de terminação como fechaduras, maçanetas, pêndulos, capas de livros, cartazes publicitários, tinteiros, medalhas, partituras, potes e o que fosse. Até uma vassoura para varrer migalhas ganhou beleza nas suas mãos e é peça que chama a atenção na mostra. Para Alexandre Charpentier qualquer coisa deveria ganhar um toque de fantasia. Não parecia se importar com a hierarquia entre as artes ditas maiores, como a escultura e a pintura, e as ditas menores, como a decorativa. Todo objeto funcional tinha de ser bonito, ainda que banal, assim como um mesmo motivo ou tema poderia ser traduzido de maneiras diferentes.Com amigos arquitetos, decoradores e escultores, fundou o grupo "Arte em Tudo", em 1896, e é justamente quando começa a criar e a expor conjuntos de móveis art nouveau, a maioria desaparecidos. No entanto, a sala de jantar encomendada pelo banqueiro Adrien Bénard para a casa de Champrosay, remontada em 1986 no Museu d?Orsay, e a extraordinária sala de bilhar do Barão Vitta, em Evian, estão expostas à visitação e são grandes exemplos da maestria desse artista tão versátil e adepto da multiplicidade. Foi quase um precursor do que hoje se chamaria múltiplo ou objeto de arte em série, pois já acreditava, então, que uma mesma obra podia surgir reduzida, aumentada, traduzida ou editada em materiais diversos e com finalidades diferentes. Armário-síntese do estiloA exposição, intitulada Alexandre Charpentier, Naturalismo e Art Nouveau, está divida em sessões que correspondem aos temas prediletos do artista. Vão dos primeiros experimentos em relevo aos conjuntos de móveis e à decoração de paredes. De forma abrangente detalhada, hão de falar da família e das diferentes etapas da vida, do teatro, dos salões de arte, de exposições e de galerias, de publicidade e de difusão, de água, música, dança e também do jogo. O que ele imaginou e criou como arts de la table está belamente à mostra na sala de jantar acima mencionada, conjunto que é parte da coleção do Museu d?Orsay. Foi preciso recorrer a empréstimos de fora para possibilitar essa visão de conjunto da obra de Alexandre Charpentier. Muita coisa veio de Bruxelas, dos museus reais e de coleções particulares. O armário para instrumentos de quarteto de cordas com o seu púlpito foi cedido pela União dos Museus de Artes Decorativas da França e é tido pelos experts como a quintessência da art nouveau, junto com o piano Érard que também pertenceu ao Barão Vitta.Depois da França, mostra na BélgicaA fantástica mesa de bilhar do Barão, onde em cada ângulo uma bailarina contém as bolas nas pregas das saias, foi emprestada para a exposição por um colecionador particular; e a fonte, que é ao mesmo tempo uma pia, pelo Petit Palais, de Paris. Quem não alcançar a exposição em Paris, onde um ciclo de música de câmara e vocal foi programado paralelamente à exposição em homenagem ao lado musical do artista - que foi casado com duas pianistas e tinha uma enteada violoncelista -, terá a chance de vê-la em seguida (de 29 de maio a 31 de agosto) no Museu Comunal d?Ixelles, na Bélgica, que abriga toda a coleção de Octave Maus, um dos primeiros mecenas e grande admirador de Charpentier. Também fiéis colecionadores de Charpentier foram os melômanos Arthur e Lucien Fontaine, para quem o artista criava fechaduras e outras ferragens em bronze, sempre com motivos de música e dança. Sua última grande obra, hoje desaparecida, foi feita em 1905 e chamava-se "A família feliz". Ela resumiria a felicidade tranqüila que viveu com sua própria família. Voltava assim, no fim da vida, ao tema de seus primeiros trabalhos.